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O Mundo Agora

Repúdio à corrupção é denominador comum das revoltas populares pelo mundo

Áudio 05:14
Protesto violento em Santa Cruz contra a reeleição de Evo Morales no dia 28 de outubro.
Protesto violento em Santa Cruz contra a reeleição de Evo Morales no dia 28 de outubro. DANIEL WALKER / AFP

Evo Morales jogou a toalha. Depois de duas semanas de revoltas populares não havia outro jeito. A polícia decidiu confraternizar com os manifestantes, enquanto o exército declarava que não iria intervir contra o povo e pedia a demissão do mandatário. Profunda solidão do presidente boliviano. Ainda por cima censurado oficialmente pela Organização dos Estados Americanos.

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As irregularidades na contagem dos votos da recente eleição presidencial foram tantas que a OEA reclamava novas eleições e a renovação geral da composição do tribunal eleitoral local. Evo ainda tentou uma manobra desesperada: anunciou novas eleições e um diálogo com a oposição. Mas abandonado por todos, teve que se demitir. 

Pelo visto, estava convencido que o seu poder era eterno. Quatorze anos de presidência e queria mais. Num referendo em 2016, os bolivianos rejeitaram a possibilidade de um quarto mandato proibido pela Constituição, mas o presidente passou por cima. Na eleição, os votos apontaram para um segundo turno mas o tribunal eleitoral às ordens interrompeu o cômputo e declarou Morales vencedor.

Foi a gota d’água, que virou um dilúvio de protestos. Na América Latina – e também no resto do mundo – as razões dessa raiva popular tem pouco a ver com lutas ideológicas.

Mesmo se ainda existem alguns grupos querendo reviver a oposição esquerda/direita – cada um se autoproclamando legítimo representante do povo e chamando o outro de “golpista”. Na Bolívia e no Chile, governos com visões do mundo radicalmente opostas estão enfrentando a mesma rejeição.

Rejeição à corrupção e à arrogância dos políticos

O tema da desigualdade econômica também não está no centro da exasperação das populações. Bem que os anseios materiais frustrados tenham um papel importante. O que os cidadãos não aguentam mais é a corrupção e a arrogância das classes políticas: governos, parlamentos e instituições judiciárias que só pensam em manter suas vantagens e que nem se dignam resolver os problemas concretos das pessoas, por menor que sejam.  Esse repúdio generalizado contra os dirigentes políticos é alimentado pela própria modernidade tecnológica. Hoje não há mais mobilização sem redes sociais.

E nessas redes o que conta é a emoção imediata. Qualquer tipo de autoridade está desaparecendo. Cada opinião on-line é imediatamente criticada e refutada por bandos de internautas, governos estrangeiros ou simples cidadãos. Boa parte dos presidentes ou ministros no mundo tentam influenciar a opinião pública com tuites quase diários. Só que essas tentativas são imediatamente estraçalhadas na imensa máquina de lavar-roupa midiática.

A questão é como governar e administrar uma coletividade – nacional ou local – ao mesmo tempo fragmentada, hiperconectada e empoderada pelas redes. Na América Latina, no Oriente Médio, na Ásia ou até na Europa, as populações que vão às ruas, durante semanas e meses a fio, recusam qualquer tipo de representação e não querem saber de projetos sociais utópicos. As palavras de ordem são: administradores eficientes, mas que prestem contas de maneira transparente e possam ser revogados quando não dão satisfação. Qualquer representação – partidos, sindicatos, governos e até instituições – estão desacreditados.

Mudanças nas Constituições

Tornou-se urgente mudar profundamente as Constituições para adaptá-las às novas aspirações das populações. Foi o que já anunciou o presidente chileno Sebastián Piñera, depois do seu homólogo francês Emmanuel Macron. E a classe política boliviana não vai poder escapar desse exercício. Alguns acham que dá para regressar ao mundo de ontem. Segurando as revoltas na porrada – caso da Venezuela, Argélia, Iraque ou China – ou prometendo retornar a um passado mitificado – como Lula, Cristina Kirchner, a extrema direita europeia ou as facções religiosas libanesas. *

Só que os cidadãos não são mais “massa de manobra”, e não estão nada a fim de voltar a um passado que eles já rejeitaram. O segredo é resolver seriamente os problemas cotidianos concretos das pessoas. As velhas receitas já mostraram que não funcionam e as novas vão ter que mostrar serviço. Caso contrário, deverão enfrentar uma raiva popular permanente. Benvindos à nova forma de governar!

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