Acessar o conteúdo principal
Linha Direta

Ao enviar tropas à Líbia, Turquia visa explorar zonas do Mediterrâneo ricas em hidrocarbonetos

Áudio 04:33
O presidente Erdogan e o primeiro-ministro da GAN Sarraj durante uma reunião em 27 de novembro de 2019.
O presidente Erdogan e o primeiro-ministro da GAN Sarraj durante uma reunião em 27 de novembro de 2019. Presidential Press Office/Handout via REUTERS

O anúncio sobre o envio de tropas militares em apoio ao governo de Trípoli, reconhecido pela ONU, foi feito pelo presidente turco Tayyip Erdogan um dia depois de uma visita surpresa a outro país do norte da África, a Tunísia.

Publicidade

Por Fernanda Castelhani, correspondente da RFI em Istambul

No que depender do governo de Ancara, as tropas serão deslocadas para a Líbia já no começo de 2020. O presidente Erdogan, em discurso na quinta-feira (26), detalhou que uma moção para o envio de soldados para a Líbia será apresentada para o Parlamento no dia 8 de janeiro, para que seja aprovada em um ou dois dias. Ele esteve um dia antes com o presidente da Tunísia, país vizinho à Líbia que tem sido sede de encontros diplomáticos para tratar do assunto. A Líbia já confirmou que vai pedir ajuda à Turquia.

A Turquia tem pressa

O general Khalifa Haftar, que controla o leste da Líbia, anunciou, há duas semanas, uma ofensiva militar que chamou de “decisiva” sobre a capital Trípoli, governada pelo Governo de Acordo Nacional, reconhecido pelas Nações Unidas sob a liderança do primeiro-ministro Fayez al-Sarraj. Foi com ele que Erdogan firmou em Istambul, há um mês, um acordo de cooperação militar e de segurança; que prevê o compartilhamento de inteligência e de missões de treinamento e de materiais.

O governo turco nega qualquer envio de armamento, pois isso violaria o embargo internacional de armas da ONU sobre a Líbia, ainda que relatórios das Nações Unidas apontem entrada flagrante de armas estrangeiras para dar suporte aos dois lados da batalha.

Ambições turcas no Mediterrâneo

Na Líbia, os inimigos locais recebem suporte militar e político de países estrangeiros, mas que atuam nos bastidores. O general veterano Haftar, que tenta invadir Trípoli, é apoiado por Rússia, Egito e Emirados Árabes. A Turquia afirma que vai apoiar o outro lado, al-Sarraj, alegando que ele tem legitimidade internacional.

Mas, na verdade, é interessante para o presidente turco que o governo líbio reconhecido pela ONU ganhe força. Isso porque, em novembro, Erdogan, além de ter firmado o acordo militar com a Líbia, também fechou com o país parceria que dá direito a demarcação de fronteiras marítimas para a Turquia explorar zonas do Mediterrâneo ricas em hidrocarbonetos. São áreas desejadas por outros países como Grécia, Egito, Chipre e Israel, que já protestam contra a medida.

As autoridades turcas também se queixam de terem sido excluídas de negociações no passado que envolvem extração e transporte de gás que passam pelas águas da mesma região, por exemplo. Sendo assim, com o apoio ao chamado Governo de Acordo Nacional líbio, a Turquia atinge o objetivo de ter um aliado no Mediterrâneo, o único na realidade.

Turquia e Rússia como protagonistas

A entrada da Turquia amplia a magnitude do conflito, antes reduzido ao país do norte da África. O temor imediato, claro, é de agravar ainda mais a guerra civil que destrói a Líbia desde a queda do regime de Muammar Kaddafi, em 2011. As desavenças passam a ser não só regionais, pois deve aumentar a tensão do governo de Ancara com Estados Unidos, União Europeia e Rússia.

A comunidade internacional, até o momento, mostrou-se contrária a qualquer intervenção estrangeira direta, apesar dos relatos não confirmados por Moscou de mercenários russos apoiarem o general não legitimado pelas Nações Unidas na Líbia.

Na Síria, Turquia e Rússia já apoiam facções rivais e, de acordo com alguns analistas, com a Turquia se convertendo no principal defensor do governo reconhecido pela ONU na Líbia, no lugar dos mediadores-padrão Estados Unidos e Europa, será necessário um acordo entre Moscou e Ancara para ajustar estratégias, o que acaba por diminuir ainda mais a influência do poder americano e europeu na mesa de negociações.

Nisso, Putin e Erdogan seguem aliados. Encontraram-se na semana passada na capital russa e, em janeiro, conversarão na capital turca. Até agora, um permite ao outro instantes de protagonismo, salpicados de pequenas rusgas e ambições particulares, que não abalam as grandes alianças de energia e segurança, que Turquia e Rússia possuem.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.