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Irã/Protestos

Jovens iranianos exigem mudanças no meio da crise econômica

Mulher iraniana usa telefone celular em 23 de novembro de 2019. Autoridades iranianas cortaram o acesso à Internet durante as manifestações.
Mulher iraniana usa telefone celular em 23 de novembro de 2019. Autoridades iranianas cortaram o acesso à Internet durante as manifestações. AFP

A RFI percorreu as ruas de Teerã, onde conversou com jovens que expressam incerteza e desesperança em um contexto econômico e político crítico, marcado por sanções econômicas e um regime que governa o país com mão de ferro. Segundo a Anistia Internacional, pelo menos 304 pessoas morreram no Irã vítimas da repressão aos protestos que tomaram conta do país entre os dias 15 e 18 de novembro. Entre elas, jornalistas, defensores de direitos humanos e estudantes. 

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Por Catalina Gómez

“Faço isso porque gosto de música e porque tenho que ajudar minha mãe”, explica Hamid, 18, enquanto toca acordeão em ruas de Teerã para viver. Hamid faz parte da geração que nasceu após a Revolução Islâmica de 1979, e especialmente após a guerra contra o Iraque, entre 1980 e 1988, quando centenas de milhares de homens perderam a vida.

Atualmente, cerca de 50% da população iraniana tem menos de 30 anos como ele, que há dois meses decidiu ir a Teerã para tentar a sorte, porque em sua província, no leste do Irã, é quase impossível para jovens como Hamid encontrar um emprego. "O problema de todos os jovens é a economia, o aumento do preço da gasolina. É muito difícil encontrar trabalho para sobreviver", diz ele.

Jovens como o acordeonista fazem parte do grupo iraniano que protestou nas ruas de pelo menos cem cidades no Irã contra o aumento no preço da gasolina, que chegou a subir 300%. Mas, além dessa medida que o governo lançou sem aviso prévio, os protestos refletem o mal-estar da população devido à situação econômica do país, que piorou como resultado das sanções econômicas impostas ao Irã pelo presidente norte-americano Donald Trump, após a retirada dos Estados Unidos do acordo nuclear.

“Os jovens iranianos não se diferenciam de outros jovens do resto do mundo, temos um grande conhecimento cultural e também sobre outras sociedades. O único problema é que temos também grandes restrições e essa situação econômica nos coloca sob grande pressão ”, diz Arash, 28, um dos muitos iranianos que foram afetados pela crise.

"Estou muito decepcionada com o meu futuro"

A incerteza econômica teve um grande impacto sobre os jovens que viram como a situação no Irã os deixou sem futuro. “Não consegui realizar meus sonhos de infância e há muitas outras coisas que não consegui concretizar em minha vida. É por isso que espero que a próxima geração alcance o que eles esperam para suas vidas ”, diz Arash.

O sentimento de incerteza aumentou nas últimas semanas, depois de testemunhar a reação do regime aos protestos. O regime usou munição real contra os que estavam nas ruas, conforme diversos vídeos publicados nas redes sociais quando o serviço de internet foi restaurado. As autoridades haviam restringido o acesso à internet por pelo menos uma semana no país.

Mais de 40 dias depois, o governo não forneceu ainda o número oficial de mortes, mas a Anistia Internacional contabilizou cerca de 304 vítimas até agora da repressão policial durante os protestos no Irã. A incerteza se tornou ainda maior quando estourou a violência por parte da população, que reagiu queimando a sede do governo, postos de gasolina e bancos.

“Eu sempre fui uma pessoa muito emocional e positiva, mas não sinto mais o mesmo. Eu acho que meu jeito de ser mudou por causa de todas as coisas que acontecem no Irã. De qualquer forma, estou muito decepcionada com o meu futuro ”, diz Mona, 27 anos.

Para os iranianos, o futuro parece mesmo incerto. Isso se torna evidente ao constatar a reação do regime que, em 26 de dezembro, militarizou novamente as ruas do país para evitar novos protestos dentro do contexto do aniversário de 40 dias da morte de homens e mulheres que perderam a vida nas manifestações de novembro. Ninguém sabe quantas pessoas foram presas nesse período, mas o que elas sabem é que alguns dos jovens que morreram só queriam ter a oportunidade de ter uma vida decente, como Arash.

"Infelizmente, nosso futuro é complicado no momento, mas, apesar disso, temos que continuar nossas vidas", enfatiza.

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