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Entenda

Assassinato de general agrava tensão entre EUA e Irã e coloca mundo em alerta

Protesto pelo assassinato do general Qasem Soleimani em Teerã na sexta-feira (3)
Protesto pelo assassinato do general Qasem Soleimani em Teerã na sexta-feira (3) Reuters

No dia 31 de dezembro, o presidente dos EUA, Donald Trump, avisou que o Irã seria responsabilizado por danos causados à embaixada americana em Bagdá, invadida por uma multidão apoiada por milícias pró-Irã na terça-feira. “Eles vão pagar um preço muito grande. Isso não é um aviso, é uma ameaça. Feliz Ano-Novo!”, publicou o líder da Casa Branca no Twitter.

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Três dias depois, o Pentágono anunciou o assassinato do general Qasem Soleimani, chefe da Guarda Revolucionária do Irã, em uma ousada operação no aeroporto internacional de Bagdá ordenada pelo presidente americano.

Soleimani era próximo do aiatolá Ali Khamenei e liderava ações militares estratégicas no Oriente Médio há mais de duas décadas. O militar era respeitado pela população iraniana por suas atuações em guerras na Síria, no Iraque, no Líbano e no Iêmen.

Horas depois do anúncio de sua morte, as ruas de Teerã foram tomadas por protestos pelo assassinato do general. Os manifestantes queimaram bandeiras dos Estados Unidos e do Reino Unido aos gritos de "Morte à América".

O líder religioso Khamenei e o presidente iraniano, Hassan Rohani, não demoraram a declarar que o Irã retaliará o ataque americano. O Conselho Supremo de Segurança Nacional iraniana prometeu uma dura vingança "no lugar e na hora certos".

Diante das promessas de represália e o medo de um conflito iminente, diversos países, como França, China, Alemanha e Rússia, e a ONU enviaram pedidos de calma e negociação.

Os Estados Unidos justificaram o assassinato dizendo que Soleimani planejava um ataque iminente contra diplomatas e militares americanos. E Donald Trump veio a público dizer que a operação foi feita para "acabar com uma guerra e não para começar uma".

No entanto, o Pentágono decidiu enviar mais 3.000 soldados americanos para reforçar as posições militares dos EUA no Oriente Médio, potenciais alvos iranianos.

A ação dos Estados Unidos marca o auge da escalada de tensão entre os dois países, iniciada pela decisão de Trump de sair do acordo nuclear com o Irã em maio de 2018.

Quem era Soleimani?

Soleimani, 62 anos, era o comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, responsável pelas operações iranianas no exterior, desde 1998.

O general desempenhou um papel importante na luta contra forças jihadistas, como o Estado Islâmico, e era o homem-chave para o aumento da influência iraniana no Oriente Médio nos últimos anos, principalmente na Síria e no Iraque.

O aiatolá Khamenei o descreveu como "um dos comandantes mais condecorados" da Guarda Revolucionária, o exército ideológico iraniano.

Próximo a Khamenei, o militar carismático era conhecido da população iraniana.

“Uma pesquisa publicada há dois anos apontou que o índice de popularidade de Soleimani no Irã era de 83% - superior à do próprio presidente, Hassan Rohani. Os iranianos tinham um profundo respeito por ele”, explica Didier Billion, diretor-adjunto do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris), especialista em Oriente Médio, em entrevista à RFI.

Por que o ataque aconteceu no Iraque?

Há vários anos, o Iraque está no meio do fogo cruzado entre seus dois grandes aliados: EUA e Irã.

Em 2003, ao derrubar o regime de Saddam Hussein, Washington passou a controlar a política iraquiana. Mas Teerã, com a articulação de Soleimani, e o movimento pró-Irã se infiltraram no sistema criado pelos americanos.

O Irã apoia a milícia iraquiana Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi), crucial na luta contra o Estado Islâmico no Iraque. 

Com mais de 5 mil soldados americanos em seu território e milícias aliadas a combatentes iranianos, o Iraque tem sido palco dos últimos atos da espiral de tensão entre Estados Unidos e Irã.

Desde outubro, postos militares dos EUA no Iraque foram alvo de ataques feitos por milícias. A Casa Branca acusa Teerã de estar por trás das ações, mas o governo iraniano nega. Os Estados Unidos têm mais de 5 mil soldados no Iraque em combate às forças jihadistas.

No dia 27 de dezembro, um funcionário terceirizado dos EUA morreu em um bombardeio contra uma base militar iraquiana em Kirkouk. Em resposta, os americanos lançaram um ataque no domingo contra a sede de uma milícia pró-Irã e mataram 25 combatentes.

Dois dias depois, na terça (31), uma manifestação invadiu a área de segurança da embaixada americana em Bagdá, deixando os funcionários americanos presos por horas dentro do prédio. Washington acusou mais uma vez o Irã de estar por trás do ataque por meio das Forças de Mobilização Popular (Hashd al-Shaabi).

Na operação executada pelos EUA nessa quinta-feira (2), Abu Mehdi al-Muhandis, o número dois da milícia pró-Teerã, também foi morto no aeroporto internacional de Bagdá.

O que deve acontecer agora?

A promessa do Irã de vingar a morte do general Soleimani pode levar o país a mobilizar seus aliados no Iraque, a realizar ações no Golfo de Ormuz ou fazer um ataque cibernético, avaliam analistas.

"Há um amplo espectro de respostas possíveis, e nem todas envolvem ação militar ou violenta", diz Heiko Wimmen, chefe da organização do Grupo de Crise para Síria, Líbano e Irã.

"Nenhum dos dois lados quer a guerra, nenhum dos dois tem nada a ganhar. O perigo é que estejam numa colisão frontal, esperando que o outro recue. Se nenhum dos dois fizer isso, pode terminar em desastre", afirmou.

Steven Ekovich, professor de relações internacionais da Universidade Americana de Paris e especialista na política americana, concorda com a avaliação. “Trump não quer uma guerra no Oriente Médio e não tem interesse que esse assunto assuma um protagonismo no seu mandato”, analisou.

A principal aposta é que o Iraque esteja no centro das primeiras respostas de Teerã, que podem vir por meio de milícias e outros grupos aliados.

"O Iraque agora se tornará o primeiro campo de batalha", disse Alex Vatanka, especialista iraniano no Instituto do Oriente Médio em Washington.

Segundo Vatanka, Soleimani era uma figura importante e será necessário "um discurso de vingança" do regime iraniano. Mas nem Washington nem Teerã querem ir para um confronto maior, convencional e brutal.

Em Bagdá, os comandantes das facções pró-Irã já chamaram seus combatentes "para estarem preparados". O líder xiita Moqtada Sadr reativou o Exército Mehdi, milícia anti-EUA que estava desativada.

Outra possibilidade elencada pelos analistas é de ataques a navios petroleiros no Estreito de Ormuz. O Irã foi acusado muitas vezes em 2019 de atacar navios petroleiros na costa da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos e de confiscar embarcações marítimas nesta região. 

Os países ocidentais anunciaram várias operações para garantir o transporte nesta região ultramilitarizada.

Uma outra opção são ataques cibernéticos contra a infraestrutura dos Estados Unidos. O diretor da National Intelligence Dan Coats, responsável pelos serviços de inteligência americanos, já havia evocado esta ameaça no Senado americano em 2019.

Especialistas consideram o Irã como um dos principais atores do cenário cibernético global.

"Seus meios de ação são mais sobre infraestrutura do tipo industrial; é nisso que eles são bastante assustadores: uma intrusão nos sistemas de produção de energia americanos", exemplificou Loic Guézo, secretário-geral da Clusif, um grupo de profissionais franceses especializados em segurança e informação.

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