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Líbano/Entrevista

Ghosn diz que esperava mais ajuda do governo brasileiro

Carlos Ghosn durante a coletiva em Beirute.
Carlos Ghosn durante a coletiva em Beirute. REUTERS/Mohamed Azakir

O ex-presidente da aliança de montadoras Renault Nissan Mitsubishi, Carlos Ghosn, disse que resolveu se apresentar à imprensa nesta quarta-feira (8), em Beirute, para "lavar sua honra". Confira algumas declarações feitas pelo ex-CEO em sua primeira aparição pública desde que fugiu do Japão e desembarcou no Líbano, em 30 de dezembro de 2019.

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A coletiva durou mais de duas horas e meia e foi acompanhada por um batalhão de jornalistas estrangeiros. Questionado sobre a posição do governo brasileiro no caso, Ghosn respondeu:

"O cônsul do Brasil no Japão, João Mendonça, foi muito amigo, muito querido. Ele realmente cuidou de mim num momento muito difícil. Mas, quando alguém [um jornalista] perguntou ao presidente Bolsonaro se ele estava pronto para falar do meu caso com as autoridades japonesas, se eu me lembro, ele disse que não quis fazer isso para não atropelar, não atrapalhar, as autoridades japonesas. Eu respeito esse tipo de declaração, mas eu esperava mais ajuda da parte do governo brasileiro, o que não aconteceu, infelizmente."

Acusações falsas

"Eu nunca deveria ter sido preso, as acusações feitas contra mim são falsas."

"Por que eles estenderam o escopo da investigação? Por que eles me prenderam? Porque eles estavam determinados a me impedir de falar e estabelecer a minha versão dos fatos."

"Por que eles passaram 14 meses tentando me destruir e me impedindo de qualquer contato com a minha esposa?"

Vítima de uma conspiração?

"Minha provação inimaginável foi provocada por um punhado de indivíduos sem escrúpulos e vingativos. [...] São funcionários da Nissan e do Ministério Público japonês."

"Este caso coincide com o começo do declínio de desempenho da Nissan, no início de 2017."

"Eu estava disposto a me aposentar em junho de 2018. [...] Infelizmente, eu aceitei a oferta para realizar a integração das duas empresas (Renault e Nissan)."

"Alguns de nossos amigos japoneses pensaram que a única maneira de se livrar da influência da Renault na Nissan era se livrar de mim."

"Quem fez parte dessa trama? Obviamente (Hiroto) Saikawa era um deles, Hari Nada era um deles e (Toshiaki) Onuma. Mas há muitas outras pessoas. (Masakazu) Toyoda, membro do Conselho de Administração, foi a ligação entre o conselho da Nissan e as autoridades."

"Eu posso falar sobre o que está acontecendo no governo japonês. Eu posso te dar nomes, eu os conheço. Mas eu estou no Líbano, eu respeito o Líbano e eu não quero dizer nada que poderia complicar a tarefa das autoridades libanesas."

"Você vai morrer no Japão"

"Fui brutalmente arrancado do mundo que conhecia, do meu trabalho, da minha família e meus amigos."

"É impossível expressar a extensão dessa privação e minha profunda gratidão por ter reencontrado minha família e meus entes queridos."

"Eu era interrogado 8 horas por dia sem a presença de meus advogados. 'Vai piorar se você não confessar', dizia frequentemente o procurador."

"Eu pensei que o chefe era o juiz, mas o chefe era o procurador. O juiz foi muito amigável, muito educado, mas os procuradores faziam o que queriam."

"Eu tinha a impressão de ter me tornado refém de um país para o qual trabalhei durante 17 anos."

"Durante 17 anos, eu fui um modelo no Japão. De repente, os procuradores japoneses fizeram de mim um ditador frio e ganancioso."

Razões da fuga

"Eu não tive escolha senão fugir para me proteger e proteger minha família."

"Eu não estou aqui para falar sobre como eu saí do Japão. Estou aqui para apontar um sistema que viola os direitos humanos, os mais fundamentais, estou aqui para lavar minha honra".

"Não darei explicações sobre a forma como deixei o Japão porque isso iria expor pessoas que me ajudaram."

Consequência industrial

"Quem é o vencedor de tudo isso?"

"Em 2017, a aliança era o grupo que estava na liderança mundial do setor automotivo. Não há mais aliança."

"Eles (Nissan) viraram a página errada, porque não há mais lucro, mais crescimento, mais iniciativa estratégica, mais tecnologia. O que vemos hoje é uma aliança mascarada."

"O declínio na capitalização de mercado da Nissan desde minha prisão é superior a US$ 10 bilhões. Eles perderam mais de US$ 40 milhões por dia durante esse período. A capitalização de mercado da Renault despencou € 5 bilhões desde a minha detenção."

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