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O Mundo Agora

Reviravolta no Irã: país perde suposta unidade nacional conquistada pela morte do general

Áudio 05:15
Irã sofre uma reviravolta com um país dividido, com protestos contra o governo nas redes sociais e nas ruas depois do abate de um avião de linha ucraniano por um míssil da Guarda Revolucionária
Irã sofre uma reviravolta com um país dividido, com protestos contra o governo nas redes sociais e nas ruas depois do abate de um avião de linha ucraniano por um míssil da Guarda Revolucionária ATTA KENARE / AFP

Quem poderia imaginar tamanha reviravolta? O governo iraniano conseguiu montar uma impressionante demonstração de unidade nacional durante o funeral do general Qasem Soleimani, assassinado por um drone americano. Dois dias depois: um país dividido, com protestos contra o governo nas redes sociais e nas ruas – exigindo até o “fim da ditadura” e a demissão do próprio Líder Supremo, Ali Khamenei. 

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Bastou o “erro desastroso” – expressão usada pelas autoridades iranianas – do abate de um avião de linha ucraniano por um míssil da Guarda Revolucionária, para que todos lembrassem das imensas manifestações do mês de novembro passado contra a situação econômica catastrófica do país e o custo das aventuras militares iranianas na região. Protestos que o regime só conseguiu abafar matando centenas de pessoas.

Na verdade, a repercussão política da queda do avião de passageiros – dos quais 154 iranianos – é essencialmente doméstica. As autoridades negaram qualquer responsabilidade durante três dias, e só confessaram após o acúmulo de provas irrefutáveis. O que reforçou ainda mais a falta de confiança da população nos seus dirigentes. 

As declarações oficiais, que nem se dignaram expressar pêsames às vítimas iranianas do desastre, foram sentidas como mais uma prova do desprezo pelo povo dos responsáveis governamentais. Que só se interessam pelos jogos geopolíticos à custa dos sofrimentos no dia a dia das pessoas. Não é surpreendente que logo após a prudente retaliação iraniana para vingar a morte de Soleimani, muitos cidadãos se precipitaram nas casas de câmbio para comprar dólares com medo de uma guerra contra os Estados Unidos. 

O fim do mito

Além disso, a grande popularidade da Guarda Revolucionária – e do finado general Soleimani – assentava no sentimento de que eram forças de elite, as mais competentes para  defender o país em última instância. E isto, graças a seu elevado grau de sofisticação militar e ao domínio de armamentos tecnologicamente avançados. 

Confundir um avião de linha com uma aeronave militar americana, e derrubá-lo com um velho foguete antiaéreo Thor de origem russa só porque as comunicações internas não funcionaram, rachou o mito. 

O abismo entre a população e o poder voltou a crescer. Até jornais favoráveis ao regime estão criticando abertamente as autoridades. Nada disso são bons sinais para o regime dos aiatolás há poucas semanas das próximas eleições gerais de fevereiro que vão designar o novo parlamento e sobretudo a composição da Assembleia dos Peritos, o órgão com poderes para eleger ou demitir o Líder Supremo. É muita manobra e briga de bastidores em perspectiva.

Todos contra o Irã?

Mas uma má notícia nunca chega sozinha. No Iraque, cujo governo é controlado pela Guarda Revolucionária e suas milícias xiitas locais, multidões voltaram às ruas reclamando soberania nacional e denunciando conjuntamente a presença dos Estados Unidos... e do Irã. Até a figura religiosa mais importante e respeitada do país, o aiatolá xiita Ali Sistani, resolveu apoiar o movimento. 

No Líbano, o Hezbollah pró-iraniano, confrontado a protestos populares que denunciam o regime político de partilha religiosa, só fala em calma e moderação. Nunca o projeto do general Soleimani de criar uma espécie de império a baixo custo no Oriente Médio foi tão contestado pelas populações locais (inclusive xiitas).

Por enquanto, o governo iraniano deixou a retórica bélica de lado e apela todo mundo a descer do coqueiro. Teerã sabe perfeitamente que não tem condições de enfrentar os Estados Unidos numa guerra convencional direta. Nem de se meter em grandes provocações na região – ainda por cima com uma economia praticamente destruída e uma cidadania cada dia mais hostil e cansada de tantos sacrifícios.

Quando matou o principal general iraniano, Donald Trump mostrou que não estava mais para brincadeiras. O chefe da Casa Branca já declarou que está disposto a negociar “sem condições”. O recado é claro: ou o Irã senta na mesa de negociação ou acaba falido. Resta a saber se os mulás no poder estão dispostos a vestir a carapuça.

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