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Sobrevivente de Auschwitz narra como foi torturado pelo médico nazista Joseph Mengele

Judeus na rampa de seleção em Auschwitz, em maio de 1944
Judeus na rampa de seleção em Auschwitz, em maio de 1944 Wikipédia

O polonês Shaoul Oren, hoje com 91 anos, foi deportado para Auschwitz em 1942, aos 14 anos. Ele conta sua história em uma reportagem publicada no jornal francês Le Figaro desta quinta-feira (23), dia em que o mundo lembra o 75° aniversário da liberação do campo de extermínio.

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Shaoul Oren guarda na pele os traços da sua vida no campo de concentração nazista. Ele sobreviveu por sorte: dos 3000 judeus que chegaram com ele ao local, apenas 19 não foram mandados imediatamente para as câmaras de gás. A tatuagem com o número que o identificava em Auschwitz ainda é perfeitamente visível. Lá, ele não tinha nome: era o prisioneiro 125 421.

No início, Shaoul não compreendeu porque havia sido poupado. Até que um soldado das forças de Hitler o levou até o médico Joseph Mengele, que realizava experiências genéticas com seres humanos. “Minha primeira imagem do campo é um policial da SS que bate com toda a força em um judeu deportado, até arrancar um de seus membros", lembra.

"Eles faziam o que queriam com a gente. Vivíamos famintos. A única comida era uma sopa dada de manhã com uns pedaços de pão em cima”, conta. “Quem não suportava as condições era enviado ao crematório. Os SS que os acompanhavam cantavam, com emoção, árias de Schubert.”

Cobaia de Mengele

Algumas semanas mais tarde, o adolescente foi transferido para o campo de Sachsenhausen, perto de Berlim, junto com Mengele. Seu irmão ficou em Auschwitz, e ele descobriria mais tarde que toda sua família morreu. No novo campo, o médico explica que Shaoul que será sua cobaia – ele receberá injeções, terá febre e seu sangue será analisado. Em uma ocasião, um enfermeiro colocou longas agulhas nas suas costas e pediu que ele prendesse a respiração, senão poderia ter uma parada cardíaca.

O adolescente descobriu que Mengele era um veterinário especialista em hepatites animais e fazia experiências injetando a doença, em pequenas doses, em humanos. Na época, vários soldados alemães foram contaminados e o objetivo de Mengele era obter uma vacina contra mal, o que nunca conseguiu. Shaoul teve sorte: os assistentes do nazista – médicos noruegueses deportados como prisioneiros políticos – o ajudaram sem que os outros percebessem.

Queima de arquivo

No inverno de 1945, as forças russas se aproximavam de Berlim e Hitler ordenou a evacuação do campo. “Os SS nos tiraram dos pavilhões e queimaram dossiês. Pensamos que iríamos direto para as câmaras de gás. Himmler tinha decidido acabar com os judeus, com os doentes de Sachsenhausen e evacuar os outros. Os refletores iluminavam a praça central”, conta.

“Um responsável do campo, que buscava sem dúvida obter clemência depois da guerra, acabou autorizando a saída de grupos de jovens judeus cobaias para uma “marcha da morte” de 12 dias até Lubeck”, narra. O homem pediu que os meninos fossem poupados para serem utilizados em experiências médicas em outros locais.

No dia 3 de maio do mesmo ano, a poucos dias do Armistício, Shaoul foi descoberto pela Cruz Vermelha, quase morto de fome. Levado para a Grã- Bretanha, onde viviam judeus franceses libertados, ele se tornou amigo de Jean Israel, aviador que participava da esquadrilha d’Antoine Saint-Exupéry. Ele é um dos heróis do livro “Piloto de Guerra”, de 1942. O coronel levou Shaoul, que não tinha mais família, para a França.

No país, acolhido em um abrigo para órfãos, ele aprendeu a língua e se tornou mais tarde engenheiro eletrônico. Shaoul decidiu se instalar em Israel em 1968 e hoje dedica seu tempo à transmissão da memória do Holocausto. Nesta quinta-feira, ele vai se encontrar com o presidente Emmanuel Macron, em Jerusalém, no Memorial da Deportação dos Judeus Franceses. “Meu coração é francês”, diz o sobrevivente.

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