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Linha Direta

Programa de paz dos EUA para o Oriente Médio não deve sair do papel

Áudio 05:03
Bandeira israelense na beira do Vale do Jordão, na Cisjordânia ocupada.
Bandeira israelense na beira do Vale do Jordão, na Cisjordânia ocupada. AFP/Emmanuel Dunand

Quais podem ser as consequências do anúncio do presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, neste sábado, dia 1° de fevereiro, de que rompeu quase totalmente nas relações com Israel e os Estados Unidos?

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Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel

O corte de laços significa, antes de tudo, que o tal acordo de paz americano não deve sair do papel porque um dos lados já rejeitou. Mas o que mais preocupa são as possíveis consequências para uma retomada da violência na região.

A anúncio de Abbas foi um protesto contra o mais recente plano de paz entre israelenses e palestinos anunciado na semana passada, em Washington, pelo presidente americano Donald Trump. O chamado “Acordo do Século” foi anunciado com a presença do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, mas sem participação de representantes palestinos, que, antes mesmo da cerimônia, avisaram que não concordam com o plano.

Também no fim de semana, os países da Liga Árabe, reunidos no Cairo, capital do Egito, anunciaram sua oposição ao acordo americano, dizendo que ele não satisfaz as aspirações básicas dos palestinos. A proposta deve ser discutida no Conselho de Segurança da ONU em breve e se anuncia complicada, porque a Rússia – apesar da aparente amizade entre Netanyahu e o presidente Vladimir Putin – anunciou ser contrária ao plano.

Na prática, palestinos e israelenses colaboram em vários níveis, mesmo quando estão brigados. A colaboração mais importante é a coordenação de segurança, que assegura que forças dos dois lados troquem informações relacionadas a possíveis ataques terroristas, tráfico de drogas e outros crimes.

Até agora, no entanto, essa coordenação continua, bem como os contatos entre os palestinos e a CIA, a Central de Inteligência Americana. Isso tudo indica que, apesar da frustração e do corte diplomático, o governo Mahmoud Abbas não ousou, até agora, ir até o fim e colocar em perigo a segurança regional.

Outro exemplo de que ainda há contatos entre israelenses e palestinos quando algo urgente acontece é o anúncio deste domingo (2) de que os dois lados vão colaborar para evitar a contaminação das populações pelo coronavírus chinês. O premiê Netanyahu afirmou que irá coordenar com os palestinos os passos para conter a entrada do vírus na região.

Mas ainda há ainda muitas dúvidas e muito temor sobre a piora do relacionamento entre Israel e palestinos. Mahmoud Abbas parece estar mais decidido a lutar contra Israel de forma não-violenta em fóruns internacionais como a ONU e outras organizações, tentando criar um isolamento diplomático Israel.

Mas cada vez mais ele não tem condenado quem sugere a realização de uma nova “intifada”, uma revolta popular violenta contra Israel como duas que já aconteceram no passado. Fora isso, desde o anúncio de Trump, voltaram os ataques com foguetes e balões incendiários contra Israel lançados pelos palestinos da Faixa de Gaza – o que pode descambar para mais uma rodada de violência entre Israel e Gaza.

Vários pontos incomodam os palestinos nesse plano de paz americano. Entre os pontos mais polêmicos estão o status de Jerusalém, dos refugiados palestinos e dos assentamentos israelenses na Cisjordânia.

O plano, por exemplo, prevê que um Estado palestino seja anunciado e reconhecido por Israel em quatro anos, com bairros de Jerusalém Oriental como capital. Os palestinos, no entanto, exigem que toda parte Oriental de Jerusalém seja a capital palestina, incluindo toda a Cidade Velha, onde ficam locais sagrados.

O plano também prevê que apenas um número simbólico de refugiados palestinos – expulsos ou que fugiram de suas casas quando Israel foi criado – possa retornar a cidades que hoje fazem parte de Israel. Já os palestinos querem que os 5 milhões de refugiados – descendentes dos 700 mil originais – possam voltar.

Palestinos recusam anexação de assentamentos

Mas o ponto mais polêmico é a ideia de que Israel poderia anexar assentamentos israelenses na Cisjordânia em troca de terras em outras partes, como o deserto do Negev. Os palestinos querem a retirada de todas as colônias, sem anexação alguma.

Ao que tudo indica, no entanto, os palestinos reagiriam contra qualquer plano sugerido por Trump, visto como tendencioso pró-Israel, principalmente depois que transferiu a embaixada americana de Tel Aviv para Jerusalém.

Apesar dessa tendência, Netanyahu também enfrenta problemas por causa do plano. Seus aliados de direita não aceitam a criação de um Estado palestino em quatro anos, mesmo menor e desmilitarizado, e querem a anexação imediata de colônias – ao que os americanos já se opuseram. Isso pode afetar a popularidade de Netanyahu entre seus eleitores de direita a um mês das próximas eleições no país.

 

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