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Israel/Palestina

Em cidade separada da Cisjordânia por muro, árabes de Israel rejeitam plano de transferência sugerido por Trump

Jamal Majadleh, analista politico árabe-israelense, morador de Baqa al-Gharbiyye, na fronteira com a Cisjordânia
Jamal Majadleh, analista politico árabe-israelense, morador de Baqa al-Gharbiyye, na fronteira com a Cisjordânia RFI/Daniela Kresch

Desde que o presidente norte-americano Donald Trump anunciou seu plano de paz para o Oriente Médio no final de janeiro, o chamado “Acordo do Século” é alvo de críticas também dentro de Israel. Nossa reportagem foi até Baqa al-Gharbiyye, cidade árabe no país, onde os moradores temem agora se tornar moeda de troca da anexação de assentamentos israelenses na Cisjordânia.

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Correspondente da RFI em Israel

“Papai, vão passar a gente para o outro lado?” A pergunta do filho de 10 anos pegou o prefeito de Baqa al-Gharbiyye de surpresa. Eleito há apenas dois meses, Ra'ed Dakka, 48, nem assumiu direito a prefeitura da cidade de 30 mil habitantes e já enfrenta sua primeira crise: a de tentar responder às perguntas de seu filho, de seus eleitores, de colegas e de toda a sociedade árabe-israelense por causa do chamado “Acordo do Século”. Esse foi o nome dado ao plano de paz entre israelenses e palestinos anunciado pelo presidente norte-americano Donald Trump no dia 28 de janeiro.

Como parte do plano, Israel anexaria blocos de colônias israelenses na Cisjordânia e, em compensação, transferiria a um futuro Estado palestino – a ser criado em quatro anos – terras no deserto do Neguev (Sul do país) e no chamado “Triângulo” (Norte), apelido de um bloco de comunidades árabes na fronteira com a Cisjordânia. Baqa al-Gharbiyye é uma delas e um importante centro urbano da minoria árabe em Israel (20% da população total do país).

Segundo o “Acordo do Século”, a fronteira entre Israel o futuro Estado palestino seria movida alguns quilômetros: Baqa al-Gharbiyye passaria para o lado palestino (assim como outras cidades, onde, no total, moram 200 mil árabes-israelenses).

Essa parte do plano americano caiu como uma bomba entre os moradores de Baqa al-Gharbiyye, que não imaginavam se tornar moeda de troca da anexação de assentamentos israelenses na Cisjordânia. A proposta levou preocupação à cidade e fortaleceu a sensação dos moradores de que não são bem-vindos no único país do mundo com maioria judaica (75%).

Ra'ed Dakka, prefeito de Baqa al-Gharbiyye, foi eleito em dezembro e já enfrenta os questionamentos da população sobre o chamado “Acordo do Século”.
Ra'ed Dakka, prefeito de Baqa al-Gharbiyye, foi eleito em dezembro e já enfrenta os questionamentos da população sobre o chamado “Acordo do Século”. RFI/Daniela Kresch

“Eles querem nos transferir como se fôssemos objetos, não pessoas”, resume o prefeito Ra'ed Dakka. “Querem arrancar as nossas raízes. Trabalhamos duro para alcançar a integração social em Israel e, de repente, isso acontece?”

Em Baqa al-Gharbiyye (“Baqa Ocidental”, em árabe), 100% dos moradores são muçulmanos sunitas. A língua nas ruas é o árabe, mas todos sabem hebraico e convivem normalmente com judeus, tanto de vilarejos vizinhos quanto em cidades maiores, como Haifa e Tel Aviv, onde muitos trabalham. Nos fins de semana, judeus lotam os restaurantes da cidade árabe.

“Palestinos de Israel”

A maioria dos moradores se define como “palestinos de Israel” porque se identifica com os da Cisjordânia, onde fica a cidade-irmã de Baqa ash-Sharqiyya (“Baqa Oriental”), com 5 mil habitantes. As duas cidades eram, originalmente, apenas uma: Baqa. Mas, em 1949, foi dividida entre a parte ocidental e a oriental pela chamada Linha Verde: a linha de armistício que terminou a Guerra de Independência de Israel (1948-1949). Uma parte da cidade ficou sob controle de Israel. A outra, da Jordânia. Em 1967, com a vitória israelense na Guerra dos Seis Dias, Baqa ash-Sharqiyya passou a estar na Cisjordânia sob ocupação militar israelense.

Nos fins de semana, judeus lotam os restaurantes da cidade árabe-israelense de Baqa al-Gharbiyye, fruto da divisão pelo Muro da Cisjordânia
Nos fins de semana, judeus lotam os restaurantes da cidade árabe-israelense de Baqa al-Gharbiyye, fruto da divisão pelo Muro da Cisjordânia RFI / Daniela Kresch

Desde 2004, as duas cidades passaram a ser divididas pelo chamado Muro da Cisjordânia, construído no governo de Ariel Sharon no auge da Segunda Intifada palestina (2000-2005), quando uma onda de atentados terroristas matou mil israelenses. Antes do muro, os moradores das cidades irmãs iam e vinham livremente. Depois, os residentes de Baqa al-Gharbiyye precisam viajar uma hora e passar por um “checkpoint” (posto de checagem) para visitar parentes em Baqa ash-Sharqiyya.

“Aqui é tudo muito complicado e realmente somos uma sociedade com problemas de identidade. Nos identificamos como palestinos, mas isso não quer dizer que queiramos deixar de ser cidadãos de Israel e passar para a Palestina desse jeito, sem saber que Palestina será essa. Será um país independente, um protetorado, um cantão?”, se pergunta Ra’ed Dakka. “Além do mais, as novas gerações já se integraram à sociedade israelense. Estudam em universidades e trabalharam nas grandes cidades. Estamos determinados a continuar nossa integração”.

Milhares de árabes do Triângulo saíram às ruas assim que o “Acordo do Século” foi anunciado. O parlamentar árabe-israelense Yousef Jabareen (do partido Lista Unida), morador de Umm al-Fahm, disse que não se fala de outra coisa em sua cidade: “Por um lado, a maioria não acredita que o plano sairá do papel. Por outro, há uma preocupação real do efeito disso na consciência de nosso público”.

Não é a primeira vez que a transferência de cidades do Triângulo para um futuro Estado palestino é aventada. E não necessariamente por políticos de direita. Em 2008, a então ministra das Relações Exteriores de Israel, Tzipi Livni (então do partido de centro-esquerda Kadima), sugeriu a troca de terras ao presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, que rejeitou a ideia. O Partido Trabalhista também já havia proposto isso, no passado.

Para Muhammad Majadleh, vice-prefeito de Baqa al-Gharbiyye, a atual ideia do troca-troca entre colônias judaicas e cidades árabes do Triângulo saiu da cabeça do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, do partido direitista Likud. Ele teria apenas um motivo: buscar votos da extrema direita para as eleições de 2 de março (a terceira em menos de um ano).

Muhammad Majadleh, vice-prefeito de Baqa al-Gharbiyye, denuncia objetivos eleitoreiros de Benjamin Netanyahu.
Muhammad Majadleh, vice-prefeito de Baqa al-Gharbiyye, denuncia objetivos eleitoreiros de Benjamin Netanyahu. RFI / Daniela Kresch

Anexar assentamentos na Cisjordânia e “se livrar” de parte da população árabe de Israel seria uma maneira de cortejar os direitistas, mesmo que Netanyahu, ao aceitar o plano americano, estaria aceitando a criação, pelo menos em teoria, de um Estado palestino (o que não agrada à direita).

Difícil sair do papel

O analista político árabe-israelense Jamal Majadleh acha muito difícil que um plano de transferência de fronteiras possa sair do papel. Ele aponta a questão geográfica, já que Baqa al-Gharbiyye e outras cidades árabes são coladas a comunidades e vilarejos judeus: “Essa área não pode ser dividida e transferida. Há vilarejos judaicos adjacentes a nós. Estamos ligados intrinsecamente”.

O agricultor Ibrahim Mawasi, 61, nascido e criado em Baqa al-Gharbiyye, reclama da arbitrariedade dos políticos, mas prefere continuar em Israel e passar para o lado palestino: “Vemos como a maioria dos Estados árabes vizinhos trata seus povos. Pelo menos aqui temos liberdade. Mesmo com toda a discriminação, é melhor para nós do que viver sob uma ditadura”, diz.

Mas o agricultor não descartaria se tornar um cidadão palestino, desde que a Palestina fosse, assim como Israel, um país independente, economicamente forte, democrático e com liberdades individuais. “Eu me sentiria honrado de estar sob controle palestino e levantar a bandeira palestina. Mas com uma condição: que tivéssemos paz e um Estado soberano e independente, com fronteiras bem traçadas com toda a infraestrutura necessária. Ser for o preço a pagar para que isso aconteça, eu aceito pagar”, diz Masawi.

O analista político Jamal Majadleh concorda. “Apesar das humilhações e a desigualdade, estamos melhor em Israel do que em outro lugar. Há estabilidade e democracia. Vamos ficar aqui. Trump e Netanyahu não vão decidir por nós”.

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