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Vitória sobre coronavírus depende da união de governos e fortalecimento da OMS

Casal circula pelas ruas desertas de Seul, capital sul-coreana em 12/03/2020.
Casal circula pelas ruas desertas de Seul, capital sul-coreana em 12/03/2020. REUTERS - KIM HONG-JI

As consequências da epidemia de coronavírus vão ser certamente mais pesadas para os sistemas políticos do que para a taxa de mortalidade. Os estados de emergência em cada país já estão sendo manipulados por partidos e dirigentes políticos nas brigas pelo poder. É claro que numa situação de pandemia global se estendendo, o problema não é só a saúde pública. Os sistemas produtivos, os circuitos financeiros, as redes de informação, os hábitos de consumo e até a estabilidade emocional das pessoas estão ameaçados.

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E os condutores desse bonde sem freios – aqueles que tomam as decisões – têm de levar em conta um sem-número de parâmetros, muitas vezes contraditórios e mutáveis. Todos os governos e instituições internacionais estão navegando à vista, dia a dia.

A questão é que quando o pânico se alastra, as pessoas – com razão – exigem medidas de proteção urgentes e decisões imediatas. E se precipitam, bem ou mal, nos braços de quem decide. No mundo de hoje, isto favorece os Executivos nacionais, sejam eles democráticos ou autoritários.

Ninguém tem paciência para esperar pelos debates contraditórios das outras instituições: Legislativo, Judicial, Corporações, Sindicatos, Partidos... E na verdade, por enquanto não há outra solução: os Estados nacionais continuam monopolizando os meios e os processos decisórios necessários para enfrentar um flagelo nos seus territórios.

Plenos poderes

Povos inteiros estão dispostos a trocar liberdades fundamentais contra segurança física. É a velha lógica de Hobbes e seu Estado – o Leviatã – que, submetendo a todos, impõe o fim da guerra de todos contra todos.

Emergências reclamam plenos poderes:  é muita tentação para os líderes políticos. Na China, o Partido Comunista fez tudo para esconder a gravidade da epidemia durante dois meses, provocando uma onda de protestos nas redes sociais. Para restabelecer a sua autoridade, Xi Jinping recorreu a confinamentos drásticos e por vezes violentos.

Por enquanto, os bons resultados obtidos conseguiram transformar a imagem do número um chinês, que passou de responsável pela crise a salvador da pátria. Reforçando ainda mais o seu poder absoluto.

Os poderes executivos da Coreia do Sul e de Taiwan, democracias asiáticas, também conseguiram controlar o surto do vírus com medidas impositivas, utilizando novas tecnologias digitais super intrusivas. Mas mesmo assim respeitaram o arcabouço constitucional graças às populações habituadas a uma grande disciplina social.

Na Europa, foi “Mateus primeiro os teus”: cada país reagiu sem se preocupar com os vizinhos. Cada governo, com o apoio da opinião pública, instituiu formas de estado de emergência e planos multibilionários para salvar a economia que aumentaram consideravelmente seu poder.

Impondo confinamentos pesados, suspendendo várias liberdades individuais e abrindo uma cachoeira de dinheiro público, Macron, Conte, Sanchez ou Merkel estão na crista da onda das sondagens de opinião. E ninguém sabe quando essas medidas extraordinárias vão acabar.

Em Israel, o primeiro ministro Netanyahu, utilizou o estado de emergência sanitária para impedir a formação de um novo governo da oposição.

Riscos do “cada-um-por-si”

Nos Estados Unidos, Donald Trump começou minimizando o problema até à caricatura. Quando descobriu que a coisa era séria e que podia perder a reeleição se deixasse o país ao Deus dará, optou por uma imagem de Dom Sebastião que iria salvar as vidas e a economia americanas.

A ideia é convencer o eleitorado que é melhor tê-lo como presidente do que entregar a rapadura para um adversário democrata. Daí o plano histórico dos Republicanos de injetar quase dois trilhões de dólares na economia para segurar a depressão anunciada, e continuar prometendo remédios milagrosos para matar o COVID-19.

Os Democratas no Congresso não estão a fim de dar essa colher de chá ao lourão da Casa Branca, mesmo se o país está desabando. E apresentaram o próprio plano de socorro trilionário. Só que se essa briga pelo poder pode ser utilizada para jogar a responsabilidade da crise no colo do Partido Democrata. Bye-bye eleição presidencial.

O maior perigo desse cada-um-por-si é que vírus não respeita soberanias e poderes nacionais. Os cientistas e epidemiologistas no mundo já estão trabalhando juntos a todo vapor. Mas sem uma estreita cooperação entre os governos e o fortalecimento das instituições internacionais como a Organização Mundial da Saúde, a guerra contra o coronavírus tem poucas chances de sair vencedora.

 

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