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Sociedades pós-coronavírus terão como desafio respeitar as liberdades e direitos individuais

Moradora caminhando pelas ruas de Seul, em fevereiro de  2020.
Moradora caminhando pelas ruas de Seul, em fevereiro de 2020. REUTERS - HEO RAN

Doença medieval, remédio medieval. A quarentena, o “distanciamento social” e o confinamento de pessoas ou cidades inteiras, foram inventados para combater a “peste negra” no século XIV. As pandemias fazem parte da vida da Humanidade há milênios. E todas acabaram por ser vencidas, apesar das pilhas de cadáveres e das bárbaras crises econômicas

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A vida humana retoma vigorosa, inventando novas formas de viver em sociedade. Como se a infecção – junto com as guerras generalizadas – fosse uma maneira de purgar excessos de um período histórico. De se safar, dolorosamente, de becos sem saída.

Não é por acaso que epidemias provocam movimentos milenaristas. O contágio atinge ricos e pobres, intelectuais e analfabetos, poderosos e humildes. Uma desgraça coletiva e “democrática”, ameaçando todos, sem que ninguém enxergue nem a cura nem fim, desperta sentimentos apocalípticos.

Milhões de pessoas convencidas que chegou o “fim do mundo”, e outros tantos que rezam por uma poção mágica que curaria a todos. A convicção de que a Humanidade vai desaparecer, ou a ilusão simplória de uma solução rápida para que tudo volte como dantes.

O coronavírus apareceu quando o planeta inteiro já se angustiava com as catástrofes naturais e o espectro do aquecimento climático. É muita ameaça pairando sobre a sobrevivência de um mundo interconectado, super-informado e com crises econômicas globais recorrentes.

As velhas instituições políticas – democráticas ou autoritárias – não dão mais conta do recado. No máximo, conseguirão mitigar os efeitos de problemas que não têm condições nem de entender nem de resolver.

Frente à desesperança e aos óbitos massivos e indiscriminados, o extremismo medra. O primeiro-ministro da França declarou que a epidemia revela o “lado sombrio” e o “lado luminoso” das pessoas.

A sombra são os aproveitadores que roubam máscaras para revendê-las com lucro, empresas fajutas que propõem remédios contrafeitos ou material hospitalar adulterado, os gurus que tentam extorquir fiéis prometendo curas milagrosas em suas empresas religiosas.

Sombria é também a procura de bodes expiatórios: estrangeiros ou asiáticos atacados e discriminados em vários países, racismo à solta, saques de lojas de alimentação...

Na França, vizinhos estão denunciando e agredindo médicos e enfermeiras que vivem no apartamento do lado e lutam contra o vírus, acusando-os de infetar o prédio.

Mas a luz também existe na solidariedade social de milhões de cidadãos que tentam ajudar os hospitais, as pessoas confinadas, os velhos enclausurados nas casas de repouso. Ou aqueles que continuam trabalhando na produção e serviços essenciais, e sobretudo o corpo médico que enfrenta perigo de vida, 24 horas por dia, tentando salvar a vida dos contagiados.

Pandemias

Desespero não adianta. Pandemias desaparecem... até a próxima. Quem acha que a solução é voltar ao passado, pode tirar o cavalinho da chuva. Foi justamente esse passado que nos encaminhou para essa série de catástrofes sanitárias e climáticas.

Mas foi também nele que a ciência moderna, contra as crenças de outros “velhos tempos”, descobriu os micróbios, as vacinas, os antibióticos e todos os outros remédios que melhoraram de maneira inacreditável a saúde pública e a esperança de vida.

Esse modelo de produção de massa para o consumo de massa saturou e bateu na parede. O mundo futuro será tecnológico, digital, mais respeitoso dos equilíbrios naturais, onde todos e tudo estarão conectados em redes.

Esse novo modelo já está aparecendo com a extraordinária cooperação global de cientistas e epidemiologistas para entender e combater o COVID-19, os novos modos de organizar a produção global graças as tecnologias digitais, hábitos de consumo mais sóbrios, esforços internacionais para travar o aquecimento climático.

Mas também as estridências, fake news e manipulações das redes sociais. Falta ainda – e muito – a criação de novas instituições políticas capazes de tomar as decisões necessárias para abrir o caminho desse próximo período histórico e evitar o caos.

Nos tempos do pós-coronavírus, o grande debate será como garantir que a nova organização social possa respeitar as liberdades e direitos individuais. Contra aqueles que, por interesse ou pavor, defendem um poder totalitário, dono de um imenso aparato de previsão e controle tecnológicos, no qual as pessoas serão simples peças de um videogame planetário administrado por uma máquina de inteligência artificial.

O futuro escancarado pela pandemia não depende de milagres ou pânicos mas de nós mesmos. Como sempre foi assim, na Grécia antiga, na Idade Média ou durante a “gripe espanhola” que matou mais que a Segunda Guerra mundial.

 

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