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O Mundo Agora

Choque mundial da Covid-19 acelerou um “capitalismo digital” cada vez mais globalizado

Áudio 05:13
Graças ao coronavírus, nunca houve tanta gente utilizando as novas tecnologias digitais para trabalhar, se comunicar e se divertir, pesquisar as soluções para a pandemia e produzir insumos sanitários e até alimentos.
Graças ao coronavírus, nunca houve tanta gente utilizando as novas tecnologias digitais para trabalhar, se comunicar e se divertir, pesquisar as soluções para a pandemia e produzir insumos sanitários e até alimentos. © Reuters

Com a Covid-19, é moda declarar que a globalização acabou e que o capitalismo morreu. E que agora vamos voltar aos Estados nacionais fortes, encastelados nas suas fronteiras, protegendo e controlando a vida econômica, social e cultural de seus cidadãos. Normal: cada vez que o mundo atravessa uma crise geral aparece a ânsia de voltar ao passado.

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Todos os angustiados com as mudanças rápidas e o surgimento de um mundo novo e desconhecido, sonham com uma fantasmagórica idade de ouro, onde tudo era mais simples, mais próximo e mais aconchegante. Esquecendo que “antes” haviam guerras nacionalistas totais e epidemias horríveis. E que a vida quotidiana era “pobre, feia, brutal e curta” para a maioria da humanidade. O mundo vai mudar, é claro. Mas o futuro não vai ser o velho passado conhecido.

Antes mesmo da pandemia, a forma que o capitalismo tomou no século 20 já estava nos seus últimos estertores. Para sobreviver, esse capitalismo da produção de massa para o consumo de massa – inaugurado há 100 anos atrás, pela cadeia de montagem dos automóveis Ford nos Estados Unidos – precisa abaixar os custos e aumentar o número de consumidores solventes de maneira permanente.

Metamorfoses do capitalismo globalizado

Nos anos da Grande Depressão, na década de 1930, a solução foi inventar o Estado de bem-estar e ajudar os sindicatos a acabar com a velha tralha do capitalismo do século 19. Na crise do final dos anos 1970, as saídas foram as empresas multinacionais procurando mercados para investir e vender pelo mundo afora. Com a queda do Muro de Berlim e o fim dos regimes comunistas, o capitalismo pode contar com centenas de milhões de novos trabalhadores baratos e potenciais consumidores – na China, Índia e outros grandes países do Sul.

A redução dos custos passou pelas “cadeias de valor globais”, fragmentadas e espalhadas pelo mundo inteiro, e administradas graças as novas tecnologias da informação.

As multinacionais se transformaram em empresas “transnacionais” globalizadas que conseguiram tirar da miséria negra uma imensa parte da humanidade. Só que, no começo do século XXI, essa forma de capitalismo globalizado bateu na parede dos recursos ambientais finitos e dos limites de um modelo produtivo incapaz de abaixar ainda mais custos e de encontrar novos consumidores solventes.

Mas verdadeiro camaleão, o capitalismo está se metamorfoseando mais uma vez. A nova forma é feita de unidades de produção conectadas para cada mercado específico, e um consumo personalizado e customizado. Um modelo administrado pelas redes de comunicação e informação globais, utilizando a automação da produção, as impressoras 3D, a Internet das Coisas, a Inteligência Artificial e a “nuvem” informática.

Cooperação internacional

O choque mundial da Covid-19 está acelerando essa mutação para um capitalismo “digital” ainda mais poderoso e globalizado através das redes que se estendem por todos os recantos do planeta. Desafiando a capacidade de controle dos Estados nacionais. Graças ao vírus, nunca houve tanta gente utilizando as novas tecnologias digitais para trabalhar, se comunicar e se divertir, pesquisar as soluções para a pandemia e produzir insumos sanitários e até alimentos. Inventando propagandas e “fake-news” que acurralam qualquer governo.

Não há dúvida que num período de ameaça de morte, as pessoas se precipitam nos braços de uma autoridade que declara que vai resolver o problema. E hoje, só os Estados nacionais possuem alguma capacidade de decisão para combater a epidemia e tentar mitigar a crise econômica que vem atrás.

Só que a testosterona nacionalista está atiçando as rivalidades entre Estados – na compra de produtos sanitários, nas instituições internacionais, na briga Trump-Xi Jinping, ou para saber quem vai pagar a conta final da catástrofe. Mas todos sabem perfeitamente que os problemas centrais do mundo que vem aí – a questão ambiental, as futuras pandemias e a regulação do novo capitalismo – só podem ser tratados se houver uma forte cooperação internacional. Uma capacidade de decisão globalizada que ainda não existe e que precisamos urgentemente.

 

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