Acessar o conteúdo principal
O Mundo Agora

China sai perdendo em nova “Guerra Fria” contra os Estados Unidos

Áudio 04:39
Foi-se o tempo em que o governo de Pequim declarava que um crescimento do PIB de 8% era o mínimo para manter a prosperidade do país e a paz social.
Foi-se o tempo em que o governo de Pequim declarava que um crescimento do PIB de 8% era o mínimo para manter a prosperidade do país e a paz social. AP - Vincent Yu

De tanto bate-boca só se fala numa “Guerra Fria” entre a China e os Estados Unidos. E o resto do mundo olha angustiado para esta nova geladeira geopolítica calculando os riscos de ter que tomar partido. A ideia é que os chineses se tornaram uma superpotência mundial capaz de aguentar o tranco com os americanos. Só que não é bem assim.

Publicidade

O refluxo da crise do coronavírus está mostrando claramente quem tem cacife para brigar na mesa global. Os Estados Unidos de Trump se perderam num montão de problemas internos e externos, mas continuam sendo – e de longe – a primeira potência econômica e militar do planeta. 

A China de Xi Jinping, achou que sua gestão da pandemia iria provar ao mundo a sua superioridade política, acabou tendo que amargar uma pesada rebordosa.  

Não basta uma dose massiva de propaganda e imagens de um hospital construído em dez dias para esconder a manipulação das estatísticas sanitárias e a reação tardia no combate ao vírus devida à esclerose burocrática do Partido Comunista chinês. 

E agora, com a volta da epidemia em Pequim, os dirigentes, a imprensa e as redes sociais chineses só encontraram um jeito de se justificar: acusar os “estrangeiros” e a Europa de serem responsáveis pelo novo surto. Não vai pegar. 

Ameaça sobre a economia

Mas a questão não é só sanitária. A crise atual ameaça diretamente o pulmão do poderio chinês: a economia. 

Foi-se o tempo em que o governo de Pequim declarava que um crescimento do PIB de 8% era o mínimo para manter a prosperidade do país e a paz social. Antes da pandemia, esse número já estava abaixo de 6% e hoje, caiu para 0%. Não vai ser fácil sair do buraco. 

A estrutura econômica do país é extremamente dependente dos grandes mercados americano e europeu que representam dois terços do consumo privado mundial. Mas hoje, com os confinamentos, a demanda secou. 

Além do mais, os grandes países ocidentais perceberam que era perigoso depender demais das cadeias produtivas centralizadas na China. A reconstrução da economia mundial vai passar por uma diversificação das produções globalizadas, com a implantação de redes de fábricas e circuitos logísticos servindo cada grande mercado particular graças a interconexões permanentes via internet. 

A ideia de uma China grande “fábrica do mundo” só pode perder espaço. Mais grave: apesar de alguns mastodontes tecnológicos de ponta, que funcionam sobretudo para o mercado doméstico, os chineses ainda não conseguem dominar as peças básicas da nova economia digital global, como os microprocessadores, os softwares ou os bens de produção de última geração. 

E a verdadeira guerra tecnológica imposta pelos Estados Unidos está começando a machucar seriamente as empresas chinesas. Claro, a China ainda é muito poderosa, mas difícil pensar que tem condições de aguentar, do ponto de vista econômico, um Guerra Fria com Washington.

Beco sem saída

Quanto ao lado político, Pequim se meteu num beco sem saída. Xi Jinping lançou mão das velhas receitas nacionalistas para mobilizar a população contra fantasmas de inimigos “externos” criados pela própria propaganda do partido. Resultado: o país está cada vez mais isolado, acumulando adversários, domésticos e na vizinhança. 

Passar por cima da autonomia de Hong Kong, montar campos de concentração para os Uigures do Sinkiang, ameaçar Taiwan de invasão, e estabelecer um controle digital totalitário de toda a população, não é a melhor maneira de convencer os chineses da legitimidade do partido comunista. Multiplicar as provocações contra os vizinhos no mar da China Meridional ou contra o Japão, lançar ataques cibernéticos contra a Austrália ou reascender um velho conflito contra a Índia no Himalaia, e ao mesmo tempo bancar uma corrida armamentista contra o poderio militar americano é muita areia, até para o caminhãozão chinês. 

Na verdade, essa nova Guerra Fria é só a sombra daquela do século XX. E a China já começa perdendo.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.