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Rússia: referendo constitucional é golpe de Estado, segundo oposição a Putin

A Rússia vota a partir desta quinta-feira (25) e até 1º de julho em um referendo que permite ao presidente Vladimir Putin permanecer no poder até 2036.
A Rússia vota a partir desta quinta-feira (25) e até 1º de julho em um referendo que permite ao presidente Vladimir Putin permanecer no poder até 2036. REUTERS - EVGENIA NOVOZHENINA

O referendo sobre a reforma da Constituição da Rússia estava previsto para ser realizado em 1° de julho, mas, devido à pandemia de coronavírus, as autoridades resolveram permitir que a votação se iniciasse nesta quinta-feira (25). Se aprovada, a modificação deve autorizar que o presidente russo, Vladimir Putin, se candidate a dois novos mandatos. Para a oposição, a estratégia é considerada “um golpe de Estado constitucional”.

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Com informações do correspondente da RFI em Moscou, Daniel Vallot

Os russos votam a partir desta quinta-feira em um referendo que deve permitir que Putin, de 67 anos, inscreva na Constituição seus ideais conservadores e permaneça na liderança do país até 2036, quando terá 84 anos. A data formal da chamada “consulta popular” seria 1° de julho, mas as autoridades resolveram antecipar a abertura das urnas para evitar aglomerações, devido à pandemia do novo coronavírus.

Máscaras e gel hidroalcoólico foram colocados à disposição nos locais de voto para os cerca de 110 milhões de eleitores repartidos entre os 11 fusos horários da Rússia. De Vladivostok a Moscou, os russos começaram a participar do referendo.

Mobilização da oposição na internet

Censurada pelas mídias oficiais e impedida de realizar manifestações pelas medidas de controle à Covid-19, a oposição a Putin utiliza a internet para convocar a população ao boicote. Uma das principais vozes contra o referendo é a do advogado e blogueiro Alexei Navalny.

“Sou a favor da participação em eleições em 99% dos casos. Mas esse voto é completamente ilegítimo. Então é impossível participar”, afirma.

Além disso, para o opositor, a vida dos eleitores é colocada em risco, já que a consulta é realizada em plena pandemia. “Na minha opinião, é imoral pedir que as pessoas votem nessas condições”, reiterou.

Para os defensores do boicote, a participação é uma forma de torná-lo legítimo. O principal meio de pressão, segundo eles, é a abstenção nas urnas.

A estratégia, no entanto, gera controvérsia dentro da própria oposição. Antigo membro do partido Labloko, Maxime Katz pensa que, ao contrário do que incentiva Navalny, é preciso votar e marcar a posição contra o projeto do presidente russo.

“Desde a eleição de 2018, a popularidade de Putin caiu brutalmente. Nas ruas, todas as pessoas nos dizem que não querem essa reforma. Há uma insatisfação na sociedade e os eleitores desejam votar contra”, diz.

No entanto, qualquer que seja a estratégia adotada pela oposição, a reforma constitucional desejada por Putin tem todas as chances de ser aprovada pela consulta popular, dando a ele a possibilidade de se apresentar para dois novos mandatos. Em uma entrevista recente na TV, o presidente evocou, pela primeira vez, sua intenção de se candidatar em 2024, quando deveria deixar o cargo.

Referendo em plena pandemia

A propagação do coronavírus se estabilizou na Rússia nas últimas duas semanas, embora o número de novas contaminações – entre 8 mil e 9 mil por dia – permaneça alto. Segundo Putin, "a melhora da situação com o vírus" e o fato de ainda "haver um mês inteiro para tomar as medidas necessárias" justificam a realização do referendo.

Em Moscou, uma das primeiras personalidades a votar nesta quinta-feira foi o ex-primeiro-ministro Dmitri Medvedev, que renunciou ao cargo em janeiro. Sem máscara nem luvas, ele foi filmado depositando seu boletim em uma urna nesta manhã.

Em São Petersburgo, Serguei Papov, de 45 anos, contou que votou contra a reforma constitucional. “É tudo o que posso fazer para manter minha consciência tranquila”, afirmou.

Já Tatiana Khrolenko, de 79 anos, votou pelas mudanças que considera “necessárias”. Ela declarou que apoia a possibilidade de Putin se candidatar a um novo mandato.

Devido à pandemia e à impossibilidade de realizar manifestações, a oposição não teve o espaço que desejava. O site “Niet” (não), que coletava assinaturas dos eleitores contra o referendo, foi bloqueado pela Justiça.

Por outro lado, as autoridades utilizaram as mídias oficiais para martelar que Putin deve ter a possibilidade de se candidatar novamente. Para o prefeito de Moscou, Serguei Sobianine, a reforma constitucional é necessária para “garantir a estabilidade” do país.

Aprovação é quase certa

A reforma já foi confirmada pelas duas casas do Parlamento, portanto não seria necessário um referendo, mas Putin decidiu que a nova Constituição também deveria ser validada nas urnas. O presidente prometeu que não vai aplicá-la se os russos votarem “não”, um cenário que parece altamente improvável.

Se a validação da reforma é considerada quase certa, a Constituição modificada já está à venda nas livrarias. Além da possibilidade de dois novos mandatos, ela permitirá que o presidente nomeie e demita juízes.

O texto também inscreve “a fé em Deus” da população (contrariando o ateísmo do período comunista) e estabelece que o casamento é a união entre um homem e uma mulher – valores conservadores defendidos por Putin.

Segundo uma pesquisa recente do Instituto Vtsiom, 71% dos eleitores devem votar a favor da reforma. Em contrapartida, 24% dos entrevistados temem fraudes durante a consulta.

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