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O Mundo Agora

Líbia virou campo de batalha entre Rússia e Turquia que têm ambições imperiais na região

Áudio 04:50
Bandeiras da Líbia (direita) e da Turquia (esq.) durante uma manifestação na Praça dos Mártires, no centro da capital líbia, Tripoli 21/06/ 2020.
Bandeiras da Líbia (direita) e da Turquia (esq.) durante uma manifestação na Praça dos Mártires, no centro da capital líbia, Tripoli 21/06/ 2020. AFP - MAHMUD TURKIA

Estados também morrem. A Líbia, apesar de ser um governo reconhecido pelas Nações Unidas, está com um pé na cova. E como a política e o poder têm horror do vazio, potências estrangeiras estão dividindo o país em dois protetorados.  

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A Tripolitânia no oeste virou um baluarte da Turquia. Ancara mandou armas pesadas, mercenários, drones e aviação para sustentar o governo nacional de Trípoli contra a ofensiva militar do homem forte do leste, o marechal Khalifa Haftar. A Cirenaica no leste, está se transformando em base russa. Moscou, também enviou armas, aviões e mercenários para ajudar Haftar a tomar conta de Trípoli e do país inteiro. A pobre Líbia tornou-se um campo de batalha entre Putin e Erdogan, os dois com ambições imperiais na região.

Na verdade, uma nação líbia nunca existiu. Historicamente esse pedaço de África do Norte sempre foi um estranho conglomerado de regiões, tribos, e cidades autônomas, ocupado por vários impérios. Só a ditadura do coronel Kadafi conseguiu consolidar um Estado central, graças as reservas petrolíferas. A queda e execução do coronel durante intervenção ocidental de 2011, afundou o país no caos.

O drama hoje, é que a Líbia é um imenso deserto que só interessa o resto do mundo por causa da produção de petróleo, dos diversos grupos jihadistas islamitas que ameaçam a região e por ser a rota de passagem da massa de migrantes africanos querendo chegar na Europa. Os europeus – que estão na primeira linha – não conseguem coordenar uma ação política e militar conjunta para enfrentar esses desafios – fora as genéricas declarações sobre a paz e a necessidade de uma solução política.

Washington passou anos olhando de longe, conversando com o governo de Trípoli, mas apoiando discretamente o marechal Haftar que controla a produção de petróleo e conseguiu liquidar as milícias do Estado Islâmico. Foi nesse vácuo dos grandes atores ocidentais que a Rússia e a Turquia entraram de sola.

Erdogan sonha em reconstituir novo Império Otomano

O sonho de grandeza do presidente turco Erdogan é reconstituir uma versão moderna do Império Otomano: uma Turquia muçulmana dominante não somente na Líbia, mas em todo o Oriente Médio e no Mar Negro. Seu principal instrumento local são os partidos e grupos islâmicos sunitas próximos da poderosa confraria dos Irmãos Muçulmanos.

Só que a Irmandade foi a ponta de lança das revoltas árabes de 2011/2012. E é considerada pelos governos árabes da região como inimigos figadais, particularmente pelo Egito, os Emirados Árabes e a Arábia Saudita. Não é por acaso que essas três potências regionais estão sustentando militarmente o marechal Haftar na Líbia contra o governo de Trípoli nas mãos de partidos islâmicos com vínculos com os Irmãos Muçulmanos.

Dois protetorados

O Cairo já avisou que se a Turquia ajudasse o governo legal a reconquistar o leste do país, não hesitaria em invadir militarmente o território líbio. Enquanto isso, a Rússia entrou numa sinuca. Depois de investir homens e armas na ofensiva de Haftar, teve que recuar frente ao poderio militar turco. E claro, Moscou não quer brigar abertamente com o líder turco com quem já está negociando um modus vivendi na Síria, um teatro estratégico bem mais importante.

Por enquanto, Putin parece querer resolver a desavença na Líbia negociando com Erdogan a divisão do país em dois protetorados com bases militares. Mas como nada é simples no Oriente complicado: os Estados Unidos acordaram. Washington está preocupado com uma presença militar russa permanente na região que poderia ameaçar toda a ação americana na África do Norte e no Sahel.

O que era um jogo a dois está virando uma partida a três, com Washington pressionando Ancara e Moscou a se entenderem abandonando a ideia de bases militares permanentes no país. Só que quanto mais jogadores nessa partida geopolítica, menos soluções possíveis e mais violências e guerras.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de geopolítica às segundas-feiras para a RFI

 

 

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