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França

O adeus ao dramaturgo francês Richard Demarcy

O encenador e dramaturgo Richard Demarcy.
O encenador e dramaturgo Richard Demarcy. Flickr

Esta sexta-feira, realiza-se, em Paris, o funeral do encenador e dramaturgo francês Richard Demarcy, um “poeta” que trabalhou em Portugal, Angola e Moçambique e que levou aos palcos franceses temas como a “Revolução dos Cravos” e a luta pela independência da Argélia.

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Richard Demarcy morreu no domingo, aos 76 anos, “foi o primeiro a escrever quatro peças sobre o que se passava em Portugal” durante o Estado Novo e teve “uma grande ligação” com Zeca Afonso, para quem escreveu algumas canções e ajudou a organizar as gravações da música Grândola Vila Morena.

O director do Théâtre de la Ville, em Paris, Emmanuel Demarcy-Mota, filho de Richard Demarcy e da actriz portuguesa Teresa Mota, recorda alguns dos momentos marcantes da sua carreira.

Ele tinha uma paixão pelos povos, pelas diferenças e pela poesia do mundo. Ele era poeta – para mim é um poeta – um intelectual, um grande amigo de Zeca Afonso e um grande amigo de vários povos do mundo”.

Em 1966, sob o pseudónimo Jean-Claude Arcy, Richard Demarcy escreveu poemas contra a PIDE. Com a então mulher, Teresa Mota, obrigada a fugir de Portugal por razões políticas, fundou, em Paris, o grupo de teatro experimental Naïf Théâtre, em 1972, com o qual levaram a palco temas sobre a política e a cultura portuguesa.

Exilado em Paris, Zeca Afonso chegou a dormir na casa de Richard Demarcy, que “escreveu textos que o Afonso cantou” e que ajudou a organizar a gravação de “Grândola Vila Morena”.

O dramaturgo também escreveu peças sobre a revolução portuguesa", nomeadamente “A Noite do 28 de Setembro”, que foi apresentada no Festival de Outono, em Paris, em 1976, “Les Vaches de Cujancas” e “Barracas 1975”, que foram apresentadas no Festival de Avignon, em 1977.

Ele foi o primeiro francês, ou estrangeiro, a escrever quatro peças sobre o que se passava a nível político em Portugal. O Richard conseguiu que a cultura portuguesa, a história do país e da revolução, entrasse nas grandes instituições em França, nomeadamente, no Festival de Avignon e no Festival de Outono que são os dois maiores festivais, franceses e europeus, neste momento”, afirmou Emmanuel Demarcy-Mota.

Richard Demarcy também participou nos acontecimentos de Maio de 1968, foi secretário-geral do Théâtre de la Commune d'Aubervilliers e viveu “a luta” do Maio de 68 a “declamar poesia nas fábricas” com Teresa Mota.

Com o Maio de 68, ele começou a luta ao lado dos poetas. Com a minha mãe declamavam poemas do Jacques Prévert. Eram poemas sobre a igualdade e a beleza do mundo e como devia ser partilhada por todos”, acrescentou Emmanuel Demarcy-Mota. 

O seu pai foi, também, “o primeiro a introduzir Fernando Pessoa em França”, ao encenar a "Ode Marítima", em 1989.

Richard Demarcy também tinha uma paixão por África, tendo trabalhado no Senegal, em Angola e Moçambique. “O Richard é português, francês, africano, um cidadão universal.”

O encenador também militou nos movimentos estudantis e apoiou a luta pela independência argelina, um tema o inspirou para a sua obra “As Mimosas da Argélia”, escrita em 1991 e levada ao palco em 2002.

O Espace Linga Téré, em Bangui, na República Centro Africana, vai prestar-lhe homenagem com uma faixa em que se lê “Richard Demarcy, l’africain”. O espaço é dirigido pelo encenador Vincent Mambachaka, com quem Demarcy tinha criado “Songo la rencontre”.

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