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Rússia/África

Sotchi abre as portas a África

Sotchi abre as portas a África
Sotchi abre as portas a África Дмитрий Феоктистов/ТАСС

Mais de quarenta chefes de Estado africanos e milhares de oradores participam, hoje e amanhã, na primeira cimeira Rússia/África em Sotchi, nas margens do mar Negro. Moscovo quer recuperar os laços com o continente africano e aposta, para isso, numa cooperação bilateral que diz ser “vantajosa para ambos ”.

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Durante os próximos dois dias os olhos vão estar centrados em Sotchi, a conhecida estancia balnear no Mar Negro, que acolheu em 2014 os jogos olímpicos. O evento podia quase passar despercebido pela população local, não fossem as estradas cortadas e o reforço do aparato policial na cidade.

A primeira cimeira Rússia/África conta com a participação de mais de 40 chefes de Estado africanos, milhares de oradores e será presidida por Vladimir Putin e pelo seu homólogo egípcio, Abdel Fattah al-Sissi. O chefe de Estado russo vai aproveitar a ocasião para enviar uma mensagem clara sobre as intenções do seu país no continente africano. Será igualmente apresentado um relatório com uma visão comum Rússia/África até 2030.

África: a ambição da Rússia 

Moscovo tem consciência de que nesta corrida chega com algum atraso, basta olhar para o volume total das trocas comerciais entre a Rússia e o continente africano em 2018 que não ultrapassaram os 17 mil milhões de euros. Um valor reduzido quando comparado com as trocas comerciais realizadas entre África e a Europa que chegam aos 275 mil milhões de euros, 200 mil milhões com a China e 50 mil milhões de euros com os EUA.

Todavia, a política de afastamento dos EUA em relação a África desde que Donald Trump chegou à Casa Branca, a China que começa a ser vista como um parceiro demasiado exigente e o rótulo de potência colonizadora do qual a Europa não consegue dissociar-se, podem de acordo com vários analistas, representar para a Rússia uma janela de oportunidades.

Em 2014 as sanções ocidentais que atingem o país, depois da anexação da Crimeia, vieram acelerar o interesse das empresas russas como a Gazprom, Rosneft e Alrosa que passam a olhar para o continente como a região incontornável.  Em 2018 a ambição tornou-se evidente durante o périplo que o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, realiza à África Austral e Central. Desde então têm-se multiplicado as visitas dos chefes de Estado africanos.

Porém, se a Rússia dispõe hoje de uma rede de mais de 40 embaixadas em África, este país continua a ser um mercado fechado e de difícil acesso aos países africanos.

O que oferece a Rússia

A Rússia diz-se disposta a duplicar as trocas comerciais até 2024 e para isso garante projectos caracterizados pela ausência de ingerência “política e outra”.

Uma cooperação que assenta nos contratos solidários que passam pelo perdão da dívida aos países africanos, como foi o caso da dívida de Moçambique, e em troca são concedidos investimentos no sector da energia, recursos naturais, agricultura e acordos de cooperação militar e industrial.

A cooperação universitária também foi reforçada nos últimos tempos. Mais de cinco mil africanos estudam em território russo, longe dos 500 mil da década de 70, e este ano o ministério da Educação russo decidiu aumentar a quota de estudantes oriundos da Etiópia, África do Sul, Angola, Moçambique e Namíbia.

A venda de armamento a preços baixos e com linhas de crédito de longa duração, segurança privada e luta contra o terrorismo, são outras formas de cooperação. A exportação de armamento para África representa actualmente cerca de mil milhões de dólares na indústria russa, este país que é o primeiro fornecedor de armas para o continente, nomeadamente para a Argélia e Egipto.

A presença da Rússia em África

De acordo com um documento oficial russo revelado pelo jornal britânico “The Guardian” o Sudão, Madagascar e a Republica Centro Africana eram os três países africanos mais infiltrados pelos serviços russos.

Em entrevista à RFI Arnaud Kalika, especialista nas questões russas, reconhece que a mudança de poder no Sudão veio alterar a dinâmica das relações entre os dois países, obrigando a Rússia a jogar neste momento “ a carta da discrição”. Sobre Madagascar o especialista lembra que a cooperação remonta ao tempo da União Soviética, mas que hoje em dia “as relações com a Rússia foram reforçadas através da assinatura de acordos na área da defesa e segurança”.

A presença da Rússia faz-se sentir igualmente na Republica Centro Africana. Arnaud Kalika admite que Moscovo aproveitou a decisão da ONU em 2017 de aligeirar o embargo que impôs à RCA para “reforçar a presença no território centro-africano”.

As autoridades moçambicanas já vieram admitir a presença de material bélico e especialistas militares russos na província nortenha de Cabo Delgado, a braços com a insurgência de grupos radicais.

A cimeira de Sotchi será igualmente uma oportunidade para a Rússia, após o triunfo na mediação do conflito sírio, se apresentar como parceiro estratégico na prevenção de conflitos regionais, nas situações de crise e na resolução pós-conflito.

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