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Análise/Brasil x Irã

Mediação do Brasil no Irã é positiva, segundo analistas

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, recebe o presidente Lula neste domingo, em Teerã.
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, recebe o presidente Lula neste domingo, em Teerã. Reuters

Os líderes ocidentais e a imprensa internacional aguardam com expectativa os resultados da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Irã a partir deste sábado. Os governos do Brasil e da Turquia já teriam indícios de um possível acordo com as autoridades de Teerã sobre a troca de urânio de baixo enriquecimento por combustível nuclear processado no exterior. Analistas ouvidos pela RFI aprovam os esforços da diplomacia brasileira no contencioso nuclear iraniano.

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O presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, disse nesta sexta-feira, em Moscou, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que a viagem do presidente brasileiro ao Irã pode ser a "última chance" de diálogo dos iranianos antes da adoção de novas sanções das Nações Unidas. Medvedev afirmou que acha que a ofensiva diplomática de Lula tem 30% de possibilidade de sucesso.

A secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, declarou em Washington que "os brasileiros têm pela frente uma montanha para escalar", referindo-se aos encontros do presidente Lula com as autoridades iranianas. Pessimista quanto aos resultados concretos da mediação brasileira, Hillary disse que o Irã não dará respostas às preocupações da comunidade internacional sobre seu programa nuclear enquanto o Conselho de Segurança da ONU não obrigá-lo por meio de novas sanções.

O mundo está de olho nos resultados da visita do presidente brasileiro a Teerã. Analistas ouvidos pela RFI estimam que a cartada da diplomacia brasileira no Irã, com o objetivo de colocar o país definitivamente no clube das potências capazes de influir nas grandes questões mundiais, tem vários méritos.

Reginaldo Mattar Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-São Paulo, diz que o governo brasileiro sabe que está lidando com uma questão espinhosa, mas "isso faz parte dos riscos e responsabilidades que o país tem de assumir enquanto potência com poder de decisão nas questões globais". Sobre a crítica feita ao governo brasileiro de estar negociando com o regime dos aiatolás, Nasser argumenta que o programa nuclear iraniano é um projeto nacional também defendido pelos opositores do presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Nasser chama a atenção para a percepção de ameaça no Oriente Médio, com o Irã cercado de um lado de sua fronteira pelo Iraque e do outro pelo Afeganistão, países ocupados por tropas militares, e bases norte-americanas instaladas ao sul e ao norte do território. Ele lembra que quase todo o petróleo iraniano é exportado, o que torna o país dependente de outras fontes de energia. "Sanções contra o Irã vão intensificar a percepção de ameaça", estima o professor da PUC-SP, "levando o Irã a querer se proteger como fez Israel ao se dotar da bomba atômica".

Desequilíbrio

Nasser não defende a posse de armas nucleares pelo Irã, mas evoca uma abordagem desequilibrada, de dois pesos e duas medidas, em relação a Israel. "O Irã precisa se desarmar para ter sua segurança garantida. Israel, não, o país tem a segurança garantida e seu desarmamento fica para depois. A questão é desnuclearizar todo o Oriente Médio", defende o cientista político.

Reginaldo Mattar Nasser, professor de Relações Internacionais da PUC-São Paulo

Vincent Eiffling, pesquisador do Centro de Estudos de Crises e Conflitos Internacionais da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, acha que o Brasil se credenciou como um mediador independente no conflito com o Irã pelo fato de possuir um programa nuclear pacífico, que também gerou no passado preocupação entre os ocidentais. "Convocando Israel a se juntar ao TNP (Tratado de Não-Proliferação Nuclear), o presidente Lula demonstrou ser um ator que não tem um discurso de dois pesos, duas medidas, o que os iranianos apreciaram", disse Eiffling à RFI.

Ele acha que o Brasil é um mediador confiável tanto para os países do norte como do sul, num terreno (o nuclear) em que reina tradicionalmente um clima de desconfiança. "Visto de Teerã, o Brasil reúne todos os critérios de um pólo alternativo suscetível de favorecer uma situação de desbloqueio, mas falta ainda Brasília convencer os iranianos a se engajar num compromisso em que as palavras são acompanhadas de ações concretas", afirma o cientista político.

Lógica irreversível

Eiffling ressalta, no entanto, que o sentimento dos ocidentais é indispensável para concluir um acordo que afaste a aprovação de novas sanções contra o Irã. Ele acredita que "a lógica de sanções" adotada pelos Estados Unidos seja  "dificilmente reversível". Segundo Eiffling, um ano após a proposta de diálogo feita por Barack Obama às autoridades de Teerã, a Casa Branca tem de levar em consideração a opinião pública norte-americana e as críticas feitas pelos republicanos. A aprovação de novas sanções segue a lógica de fortalecer a imagem dos Estados Unidos no mundo, na opinião do especialista.

Vincent Eiffling, pesquisador do Centro de Estudos de Crises e Conflitos Internacionais da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica

O historiador Jean-Jacques Kourliandsky, do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas de Paris, acredita que o papel de mediação que o Brasil assume na questão iraniana é coerente com a política externa do atual governo.

"A primeira viagem internacional de Lula foi em 2003 para apoiar a Alemanha e a França quando eles foram contra uma intervenção armada no Iraque", lembra Kourliandsky. "No mesmo ano, o Brasil criou um grupo com Índia e África do Sul, que influenciou nas negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC). Desde então, o país marca sua presença no cenário internacional", comenta Kourliandsky.

Segundo o historiador, mesmo que o Brasil não chegue a um acordo com o Irã, as negociações marcam a presença histórica de um país da América Latina a influir em uma questão no Oriente Médio. "Um exemplo nítido é a reação da França. Se no começo o ministro das Relaçoes Exteriores da França, Bernard Kouchner, classificou Lula como um chefe de Estado ingênuo, logo depois ele elogiou as iniciativas brasileiras no Irã", ponderou Kourliandsky.

Agenda

O presidente Lula chega ao Irã neste sábado, depois de visitar  Doha, no Catar, mas o ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, já se encontra em Teerã. Ele se reúne, ainda neste sábado, com autoridades iranianas para tentar costurar um acordo sobre a questão nuclear, antes da chegada do presidente.

Segundo fontes que acompanham as discussões e que foram citadas pela imprensa, o presidente Lula deve cobrar do presidente Ahmadinejad um compromisso por escrito de que seu programa nuclear é para fins pacíficos.  De acordo com a rede de televisão norte-americana CNN, o presidente brasileiro está otimista e acredita na possibilidade de convencer o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad a aceitar um acordo sobre seu programa nuclear.

Durante a viagem, Lula deve apresentar a Ahmadinejad uma nova proposta conjunta do Brasil e da Turquia para um possível acordo, mas a base desse acordo, no entanto, continuaria sendo a proposta da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) do final do ano passado, que prevê o enriquecimento do urânio iraniano em outro país em níveis que possibilitariam sua utilização para uso civil, não militar.

No domingo, Lula se reunirá com o líder supremo do país, Aiatolá Ali Khamenei, com o presidente Ahmadinejad, e com o presidente do Parlamento, Ali Larijani. Participará também do encerramento de encontro empresarial Brasil-Irã. Na segunda-feira, comparecerá à cerimônia de abertura da 14ª reunião de cúpula de chefes de estado do G-15. Essa é a primeira vez que um chefe de estado brasileiro visita o Irã.

Além da questão nuclear, Lula também pretende explorar, com as autoridades iranianas, formas de aprofundar as relações bilaterais, ampliar os fluxos de comércio e de investimento e diversificar a cooperação, em áreas como turismo, esportes, energias renováveis e agricultura. Por ocasião da visita, estão previstas as assinaturas de atos sobre cooperação em turismo, esportes, agricultura, metrologia, mineralogia, indústria e comércio.

Entre 2002 e 2009, o comércio bilateral mais do que duplicou, passando de US$ 500 milhões para US$ 1,23 bilhão. O Irã é atualmente o terceiro maior parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio e um dos maiores destinos das exportações brasileiras de alimentos.

 

 

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