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Entrevista

Com novo governo, Dilma tenta se blindar contra impactos negativos da Lava Jato

Militantes aguardam cerimônia de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff em Brasília.
Militantes aguardam cerimônia de posse do segundo mandato de Dilma Rousseff em Brasília. REUTERS/Sergio Moraes

Dilma Rousseff, 63, dará inicio nesta quinta-feira (1) a seu segundo mandato como presidente do Brasil. Ontem, ela anunciou 14 novos ministros, a última leva de seu novo ministério de 39 pessoas, que está despertando críticas de aliados do PT por seu caráter supostamente conservador. Para o professor Gaspar Estrada, da unidade da Sciences Po de Paris, a escolha desses nomes reflete uma necessidade de “blindagem” contra os eventuais desdobramentos políticos negativos da operação Lava Jato.

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Além dos desafios políticos e econômicos, o novo mandato de Dilma Rousseff (PT) também começa sob a intensa pressão do escândalo de corrupção na Petrobras. Para se proteger, Dilma Rousseff optou por ampliar a base de aliados, atraindo nomes mais conservadores para integrar o seu governo. Na avaliação do professor Gaspar Estrada, do Observatório Político da América Latina, a estratégia que surpreendeu a direita e desagradou a esquerda, pode ser a tábua de salvação de Dilma para enfrentar um segundo mandato que se anuncia complicado. A seguir, os principais trechos da entrevista com o especialista de política brasileira.

RFI-A presidente Dilma busca, desesperadamente, agradar àqueles que queriam a sua derrota, mas desagradou aos que a reelegeram com a escolha de uma equipe econômica que responde aos anseios do mercado e com a nomeação de muitos ministros do PMDB. Como o senhor avalia esse governo “Dilma 2”?

Gaspar Estrada- O governo Dilma 2 é o resultado, em primeiro lugar, da vitória apertada nas eleições presidenciais. Por outro lado, é também o reflexo das eleições legislativas. O PT perdeu espaço no Congresso, passando de 90 para 77 deputados. Nesse quadro, o partido sofreu uma queda da sua representação ministerial. Desde o primeiro governo Lula, pela primeira vez, a pasta da Educação, por exemplo, saiu das mãos do PT para o Cid Gomes (Pros), que é uma liderança importante do Nordeste.
Acho que esse ministério montado pela presidenta é um reflexo desse novo quadro político ainda mais fragmentado. Dilma Rousseff está tentando blindar o seu governo contra os possíveis desdobramentos políticos da operação Lava Jato que podem ter um impacto no Congresso e no seu governo. Também há uma novidade política no governo Dilma 2. Pela primeira vez, o núcleo político do governo não será composto por assessores diretos com uma relação muito próxima do ex-presidente Lula.

RFI-E o que isso significa? Um grito de autonomia da presidente Dilma Rousseff nesse segundo mandato?

Gaspar Estrada- Acho que ela está tentando se blindar e ter mais autonomia. No primeiro mandato, havia mais ministros vinculados ao ex-presidente Lula. Mas não se sabe qual vai ser o reflexo disso no dia a dia político, porque Lula é o candidato natural do PT à presidência em 2018. Por outro lado, essas nomeações não refletem a correlação de forças dentro do partido. Os ministros do PT que foram nomeados são vinculados à tendência de Democracia Socialista (DS), que sempre foi minoritária no PT. Já a corrente do presidente Lula, o movimento Construindo um Novo Brasil (CNB), perdeu muito espaço. Em relação à agricultura, a presidente Dilma repete o mesmo esquema de Lula que, em 2003, nomeou, Roberto Rodrigues, um representante do Agronegócio, para a pasta. Desta vez, Dilma nomeou Kátia Abreu, também ligada ao agronegócio. Já para o Desenvolvimento Agrário, ela escolheu alguém mais ligado à esquerda e aos movimentos sociais que é o Patrus Ananias, um petista de Minas Gerais.

RFI- Mas uma ala do PT tem feito muitas críticas à escolha de Kátia Abreu que, além de ser do PMDB, está muito ligada ao agronegócio e é até chamada de “Miss Desmatamento”.

Gaspar Estrada- Foi a mesma coisa em 2003 com Roberto Rodrigues. Dilma, agora, está atraindo pessoas conservadoras para a base de sustentação política do seu governo, pois esse governo vai receber muitas pressões. Na economia, o Brasil não está crescendo. E, na política, há os desdobramentos da operação Lava Jato.

RFI- Logo após o resultado das eleições, o Banco Central aplicou uma alta da taxa de juros. E novas medidas impopulares de rigor que atingem benefícios trabalhistas e previdenciários foram anunciadas recentemente. Isso mostra que a política econômica vai ser mais voltada para os mercados?

Gaspar Estrada- Dilma está tentando sinalizar mudanças na economia, que foi o eixo principal da campanha. Dilma não tem muita escolha. Ela tem que mostrar para os agentes econômicos que haverá mudanças na política macroeconômica. Sob esse ponto de vista, o ministro da Fazenda que ela escolheu [Joaquim Levy] faz essa transição. Mas os mercados financeiros estão esperando mais. Acredito também que o governo quer passar a mensagem que esses ajustes não vão provocar um arrocho salarial. Isso criaria uma crise muito grande com o PT e com o ex-presidente Lula. Lula, aliás, já disse publicamente que vai pressionar a presidente Dilma para que ela fique do lado da esquerda.

RFI- Em que medida o escândalo da Petrobras, uma campanha virulenta de parte da mídia contra o governo Dilma Rousseff e a falta de apoio popular podem se transformar em uma verdadeira instabilidade política para o país?

Gaspar Estrada- O quadro é complicado. Mas Dilma ainda tem o poder da caneta. No Brasil, o Executivo tem um poder de nomeação muito maior que em outros países. Não vejo instabilidade institucional por enquanto, até porque, não se sabe, até hoje, qual a verdadeira dimensão desse escândalo da Petrobras. Até o momento há indícios, são listas, nomes, mas espero que esse assunto seja esclarecido para podermos avaliar qual o impacto real no governo. Mas Dilma está tentando se antecipar, ampliando o leque de alianças. Por que, se ela não o fizer, ela corre mais risco de ficar em uma situação desconfortável, principalmente, se esses indícios da operação Lava Jato se confirmarem.

 

 

 

 

 

 

 

 

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