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As estratégias de Cabo Verde para enfrentar a emergência climática

Áudio 06:56
Ministro cabo-verdiano da Agriculturae ambiente, Gilberto Silva, na semana passada em Roma.
Ministro cabo-verdiano da Agriculturae ambiente, Gilberto Silva, na semana passada em Roma. Rafael Belincanta/RFI

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) lançou na última semana a força-tarefa global para o combate à lagarta-do-cartucho do milho, praga nativa das Américas que se alastra rapidamente pelo mundo desde 2016 causando perdas bilionárias na produção do cereal, sobretudo no continente africano. Na sede da FAO em Roma, o Ministro da Agricultura e Ambiente de Cabo Verde, Gilberto Silva, compartilhou a experiência do país na luta contra a praga que tem desafiado os produtores do arquipélago.

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Nesta entrevista exclusiva à RFI, o ministro afirmou que Cabo Verde está na vanguarda do combate à lagarta-do-cartucho em África. Silva também falou sobre a estratégia do ministério diante da emergência climática, da fatia do orçamento repassada à agricultura para 2020, bem como sobre um projecto para o emprego de águas recicladas para irrigação rural.

Lagarta-do-cartucho do milho

A praga entrou em Cabo Verde em 2017 causando muitos prejuízos às lavouras. Desde então, o país focaliza os esforços para minimizar perdas na produção. Gilberto Silva acredita que a resistência da lagarta esteja ligada às mudanças climáticas.

“As mudanças climáticas alteraram as variáveis de propagação das pragas. No caso de Cabo Verde, achamos que há uma relação muito forte entre mudanças climáticas e o aumento da aridez. E essas secas contribuem para o agravamento da situação das pragas porque criam condições agro-ecológicas favoráveis para a multiplicação dessas pragas”, afirmou o ministro.

Aquecimento global

O governante lembra que Cabo Verde, na condição de pequeno Estado insular, pouco contribui para o aquecimento global. Todavia, sente as consequências das emissões globais de gases nocivos à atmosfera.

“Os estudos apontam que a aridez climática vai aumentar. Nos últimos 10 anos vivemos 4 anos de seca, já tivemos inundações, furacões. Esses fenómenos meteorológicos extremos tendem a aumentar não só de frequência, mas também de intensidade. Portanto, estamos vivenciando as mudanças climáticas em Cabo Verde”, pontuou Gilberto Silva.

Questão da água

O ministro afirmou que está em andamento o processo para o aumento da dessalinização da água e, uma vez que 70% da água doce em Cabo Verde é empregada na agricultura, aposta em um novo método para fornecer água para a irrigação.

“A reutilização das águas residuais tratadas é um projecto de vanguarda, tem que ser, afinal temos que introduzir a chamada economia circular na gestão da água. Naturalmente, também temos que reduzir as perdas e uma das formas de reduzir as perdas é a massificação da irrigação gota a gota e culturas protegidas. Uma outra aposta são as culturas de ciclo mais rápido que podem ter melhor rendimento para os agricultores”, destacou.

O governante antecipou que os primeiros concelhos a serem beneficiados com a chegada das águas residuais tratadas serão Tarrafal de Santiago e São Vicente.
O projecto é uma parceria do governo com a FAO e deverá ser ampliado a partir de um novo financiamento junto à comunidade internacional.

Orçamento 2020

Água, saneamento e agricultura estão entre as prioridades no orçamento do governo para 2020. Porém, as parcerias privadas e as doações internacionais continuam a ser determinantes para a realização de projectos de desenvolvimento sustentável nas ilhas de Cabo Verde.

“Não precisamos apenas de mais recursos, mas também de uma melhor gestão dos actuais recursos disponíveis. Conseguir fazer muito com menos recursos, aproveitar o que é disponível da melhor forma”, indicou.

Insegurança alimentar

Estatísticas da FAO revelam que cerca de 100 mil pessoas vivem em grave situação de insegurança alimentar em Cabo Verde, o que representa quase 10% da população. Cerca de 10% da população, por outro lado, sofre de obesidade, que também é contabilizada como problema nutricional pela agência. Gilberto Silva acredita que o combate à fome, para ser efectivo, deve acontecer de maneira transversal.

“A melhoria é resultante do progresso que vamos fazendo em áreas como educação, saúde. Portanto, não me parece tão linear que o orçamento para a segurança alimentar em Cabo Verde é limitativo até porque vemos que há um aumento do bolo orçamental de um modo geral”, concluiu o ministro.

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