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Artes

"Coragem" brasileira vence prémio em Paris

Áudio 14:35
David Murad, realizador de "Declaração". Paris, 2 de Dezembro de 2019.
David Murad, realizador de "Declaração". Paris, 2 de Dezembro de 2019. Carina Branco/RFI

O filme “Declaração”, do realizador brasileiro David Murad, obteve, esta terça-feira, em Paris, o prémio Menção Especial do “Mobile Film Festival”, um festival internacional de curtas-metragens de um minuto realizadas com telemóveis e que este ano teve como tema “Agir agora contra as alterações climáticas”. O júri elogiou a "coragem" do realizador que expôs o contraste flagrante entre as palavras de Jair Bolsonaro sobre a protecção do ambiente e os incêndios na Amazónia. 

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Este foi o único filme lusófono nos 50 filmes de 24 países que chegaram à final e é um manifesto para despertar consciências, um choque entre as palavras do presidente brasileiro na ONU sobre a proteção da Amazónia e um cenário calcinado pelos incêndios.

O júri elogiou a coragem de David Murad, disse que também tinha o prémio de "Malehor Actor" para o Presidente brasileiro Jair Bolsonaro e expressou o seu “apoio aos artistas brasileiros que vivem momentos difíceis”, como explicou à RFI o actor francês e membro do júri Hugo Becker.

Quisemos dar uma menção especial de coragem porque sabemos que no Brasil é complicado, neste momento, fazer filmes e, ainda mais, um filme assim, no qual o realizador assume riscos. Pensámos que era arrojado, audacioso e corajoso tendo em conta as problemáticas actuais e é mesmo importante”, afirmou Hugo Becker.

O prémio surge devido à mensagem que o filme passa, considerou o realizador pouco depois de ser galardoado e insistindo que se trata de um filme sobre os discursos de negação relativamente às alterações climáticas.

"Eu acho que é um prémio pela mensagem que o filme passa. Se, de alguma forma, gerou algum impacto nas pessoas, no júri do festival é porque a mensagem foi passada de uma forma interessante (...) É um filme sobre a negação. 'Act Now for Climate Change' e o primeiro acto é parar de negar", declarou.

Hoje, no Brasil, a começar pelo Governo e boa parte da população, nós estamos negando os factos, estamos negando as mudanças climáticas, negando problemas sociais, negando vários tipos de problemas que são totalmente explícitos. Hoje em dia parte do Governo e boa parte da população também chega a negar a ciência, negar a importância da educação”, começa por contar o realizador.

O filme, de um minuto, apresenta um excerto do discurso de Jair Bolsonaro, nas Nações Unidas, em que este afirma que o seu governo “tem o compromisso com a preservação do meio-ambiente e com o desenvolvimento sustentável no Brasil e em todo o mundo”, alegando que a “Amazónia é intocável e o Brasil um dos países que mais protege o meio-ambiente”. A imagem que se segue mostra o contrário.

David Murad explica que o filme é, precisamente, “o contraste entre o discurso, a declaração que se faz oficialmente e a realidade que a gente encontra no país”.

O mundo está vendo que existe um problema de aquecimento global. Negar não faz sentido”, sublinha. “Como o tema do festival é “Act now on climate change” [“Agir agora contra as mudanças climáticas”] eu acho que a primeira coisa que a gente tem de fazer é parar de negar que elas existem.”

Por isso, o filme “é uma forma de despertar consciências”.

À medida que a gente mostra que a declaração não condiz exactamente com a realidade, a ideia é que cada um monte uma interpretação própria e, pelo menos, pare para pensar um pouco. Acho que está faltando um pouquinho isso no Brasil: a gente parar para pensar. Muita gente está pensando, muita gente está manifestando, a arte segue firma no Brasil, segue resistindo, mas é preciso que essa consciência seja mais ampla”, continua.

Até agora, o filme tem quase 30.000 visualizações e “tem mais 'dislikes' do que 'likes'”, com “comentários ofensivos, agressivos e carregados de ódio” porque parte do público que “viu e se manifestou compactua com o discurso de negação do Presidente”.

Porém, a arte é uma forma de resistência para David Murad que não tem medo de qualquer represália: “Porque é que eu teria medo de fazer um filme que apenas contesta uma declaração, que apenas pede para que as pessoas façam um exercício e que parem com a negação do óbvio? Há muitos artistas muito talentosos no Brasil fazendo trabalhos de resistência incríveis e eles têm coragem. Não seria eu a ter medo diante de algo que, sinceramente, eu acho que chega a ser inocente perto do que pode ser feito.”

 

 

O filme "Declaração", um dos premiados do “Mobile Film Festival”, e as outras 49 curtas da selecção final também são exibidas este ano na COP 25, Cimeira do Clima em Madrid.

Para o ano, o “Mobile Film Festival” quer fazer uma edição dedicada aos países africanos e os participantes vão poder concorrer a partir de Fevereiro enviando o seu filme através da plataforma online do festival.

Palmarés do Mobile Filme Festival:

-Grande Prémio França: "SCREAM", de Gonzague Legout

-Grande Prémio Internacional: "WALLET" de Fatima Nofely

-Prémio de Melhor Argumento : "VACATION" de Christopher Axworthy e Robert Peacock

-Prémio de Melhor Realização: "ANTIHUMAN" de Vinamra Pancharia

-Prémio de Melhor Interpretação: Florence Fauquet em "TOUT VA BIEN"

-Prémio "Coup de Projecteur": "PLASTIC TREASURES" de Precious Iroagalachi

-Menção Especial : "DECLARATION" de David Murad

-Prémio Extra Curta: "How Dare You!" de Samphe Ballamigie

-Prémio do Público: "LES JOURS ROUGES" de Anatole Levilain-Clément 

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