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França

Mísia distinguida novamente pela Académie Charles Cros

Mísia. Paris, 9 de Janeiro de 2020.
Mísia. Paris, 9 de Janeiro de 2020. Carina Branco/RFI

A cantora portuguesa Mísia foi distinguida nesta quinta-feira em Paris com o Prémio In honorem "Intérpretes de música do mundo" da Academia Charles Cros pelo conjunto da sua carreira a propósito da estreia do seu álbum “Pura Vida (Banda Sonora)”. O galardão francês é atribuído dias antes de Mísia abrir o festival Au Fil des Voix, em Paris, a 20 de Janeiro.

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É mais um “reconhecimento do trabalho” por parte de França que deixa Mísia “feliz”. Desta vez, a cantora foi galardoada com o Prémio "In honorem Intérpretes Musiques du monde" da Academia Charles Cros.

Pretendeu-se recompensar o conjunto da sua carreira, em torno da estreia do  álbum “Pura Vida (Banda Sonora)”, depois de Mísia ter sido distinguida, em 2016, com o prémio "Memória viva" pelo duplo álbum “Para Amália”.

Estou feliz porque é importante o reconhecimento do trabalho e por, pela segunda vez, receber [uma distinção] da Académie Charles Cros que é um prémio sério, não é um prémio influenciado pelas editoras, nem pelas revistas. É um prémio mesmo muito sério e só para saber como é sério eles quando deram o prémio à Amália Rodrigues deram ao disco ‘Com que voz’”, afirmou.

Amália Rodrigues foi a primeira artista portuguesa a ser distinguida pela Académie Charles Cros, em 1975, com o “Disco de Ouro” pelo álbum “Com que voz”, no qual gravou, entre outras, composições de Alain Oulman e fados tradicionais, com poemas de Manuel de Alegre, Pedro Homem de Mello, Cecília Meirelles, Alexandre O’Neil, David Mourão-Ferreira e Luís de Camões.

Mísia recebe, agora, novo prémio dias antes de abrir o festival Au Fil des Voix, em Paris, a 20 de Janeiro, num espectáculo em que a primeira parte vai ser feita por António Zambujo.

Oiça aqui a entrevista especial sobre o disco “Pura Vida (Banda Sonora)”.

Pura Vida é “um disco pessoal, muito importante, com muita força”.

Na capa do álbum, Mísia aparece com uma coroa de espinhos mas a sorrir porque - conta - “é como quem faz uma pirueta ao destino”. É que “Pura Vida” é a “Banda Sonora” de um período de dor e renascimento, no qual a artista lutou pela vida e pela música. Por isso, “Pura Vida é como se fosse assim uma vida na veia, sem batotas”.

Pura Vida porque é o contrário de uma vida pura. Vida pura é uma vida de ascese, de renúncia, de espiritualidade (…) Pura Vida é uma vida na veia mesmo, com o seu paraiso e o seu inferno”, descreve.

E como numa “pura vida” “não há nada controlado”, o disco também quebra regras, como é regra em Mísia. Ainda que tenha música de fado tradicional, “não tem sequer viola, tem clarinete baixo, tem guitarra eléctrica, tem muitas coisas que não são típicas do fado”. Ou seja, “é pura música também”.

Há textos de Miguel Torga, Vasco Graça Moura e Tiago Torres da Silva, mas também temos um tango e canções em castelhano. Há também tonalidades jazz, tango com “Preludio para el año 3001” de Astor Piazolla, mas também o fado de Amália Rodrigues “Lágrima”.

O disco conta novamente com o piano de Fabrizio Romano, maestro napolitano e figura central na direcção musical e arranjos do álbum, com o fadista Ricardo Ribeiro, o argentino Melingo, o catalão Raül Refree (produtor da cantora Rosalïa e que toca guitarra elétrica em alguns temas). Tudo se resume à liberdade, de espírito e de criação: “Eu sou um espírito livre, cada vez mais. Cada vez mais faço o que quero”, resume.

A guitarra eléctrica ainda torna mais trágico aquele contraste entre o céu e o inferno, entre algo que é muito espiritual e muito bonito que é a guitarra portuguesa e a guitarra eléctrica que não é uma coisa cómoda (…) Esta liberdade que eu tenho de me pôr a fazer os fados tradicionais e pôr guitarra eléctrica e tudo isso, é uma liberdade que eu mereço porque a ganhei durante estes anos todos”, conta.

O concerto na sala La Cigale, em Paris, no âmbito do Festival Au Fil des Voix é mais um no país que já lhe atribuiu várias distinções, onde colaborou com artistas como Sophie Calle, Fanny Ardant e Agnès Jaoui. Um país onde o seu trabalho “é respeitado”.

Há uma coisa que em França acontece e que em Portugal nem sempre aconteceu e que é uma coisa que os artistas precisam. Sinto que o meu trabalho é respeitado. Não é para mim tão importante que se goste ou não se goste porque quando alguém vai fazer uma coisa publicamente está-se a expor às regras do jogo, mas o que eu faço é considerado, é respeitado e isso é muito importante, pelo menos para mim é importante”, continua.

Um dia, chamaram-lhe a pioneira do Novo Fado em Portugal, datando essa data charneira a Março de 1991, ou seja, o lançamento do seu primeiro disco. Mísia começou a dar nas vistas quase vinte anos antes de o Fado ser considerado Património Mundial da UNESCO e numa altura em que nem o fado nem Portugal estavam na moda como hoje.

Cada um canta o fado que sente e eu tive que fazer as coisas assim. Paguei o preço, mas também tive a recompensa porque quando comecei estava a fazer fado para o qual não havia público. Tive que criar um público e isso é um orgulho e uma honra e um agradecimento que eu tenho a esse público tanto em Portugal como noutros países.”

Para ela, “a única rainha do fado” é Amália Rodrigues e muito se orgulha de ter sido “a primeira pessoa, passados 15 a 20 anos a ir aos teatros que a Amália tinha ido, em Istambul, na Roménia, em Itália”. Este ano, a par da digressão de Pura Vida, criou também um espectáculo para assinalar o centenário do nascimento de Amália Rodrigues, a quem já dedicara, em 2005, o duplo CD “Para Amália”.

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