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França/Sarkoleaks

Sarkozy teria informante em tribunal que julga processos contra ele

O ex-presidente Nicolas Sarkozy, em foto de 10 março de 2014
O ex-presidente Nicolas Sarkozy, em foto de 10 março de 2014 REUTERS/Eric Gaillard

A volta do ex-presidente Nicolas Sarkozy à cena política francesa sofreu nesta terça-feira (18)um novo revés, após a revelação pelo site Mediapart de parte das conversas interceptadas pela Justiça entre ele e seu advogado, Thierry Herzog. As conversas telefônicas dão a entender que o juiz Gilbert Azibert, alto magistrado do Tribunal de Cassação, seria um informante de Sarkozy no processo sobre financiamento ilegal de sua campanha presidencial de 2007.

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No dia 29 de janeiro, por exemplo, o advogado do ex-presidente, Thierry Herzog, teria comemorado com seu cliente a possível anulação de provas no processo. "Gilbert", como Herzog o chama, teria obtido o parecer confidencial do relator do Tribunal de Cassações, no qual ele excluiria do processo as agendas de Sarkozy confiscadas pela Justiça. Sarkozy é investigado pela suposta extorsão da bilionária Liliane Bettencourt.

A herdeira do grupo L’Oreal teria sido coagida a contribuir com a campanha eleitoral do ex-presidente. Sobre essa mesma campanha pesa a suspeita de financiamento da parte do então ditador da Líbia, Muamar Kadaffi. Na conversa interceptada, Herzog chama os magistrados de "imbecis". Em cinco de fevereiro, Sarkozy teria dito ao advogado que conseguiria um cargo de prestígio para o informante no Principado de Mônaco, o que configuraria tráfico de influência.

Consciente de que seu telefone principal estava sob escuta judicial, Sarkozy utilizou uma outra linha, com o nome falso de Paul Bismuth. Esse aparelho também estava grampeado, aparentemente sem que o ex-presidente soubesse.

Ouro em chumbo
A poucos dias do primeiro turno das eleições municipais, o Partido Socialista (PS) corre para tentar usar as novas revelações a seu favor, após duas semanas afogado em acusações de ingerência do poder Executivo no Judiciário. Quando a escuta contra Sarkozy veio à tona, a UMP, partido do ex-presidente, passou a acusar o governo de perseguição política. A Ordem dos Advogados de Paris mandaram uma carta ao presidente François Hollande, queixando-se da quebra do princípio de inviolabilidade do segredo entre um defensor e seu cliente.

A princípio, o Executivo tentou se esquivar da responsabilidade, garantindo que na estrutura do Governo, ninguém sabia de nada. Mas, gradualmente, membros da cúpula foram admitindo ter conhecimento das escutas, até que a minstra da Justiça, Christiane Taubira, afirmou que só soube do caso no dia 28 de fevereiro. O problema é que enquanto ela dizia isso, ela brandia documentos sobre as escutas datados do dia 26. Com essa sucessão de gafes políticas, o Partido Socialista transformou "ouro em chumbo", como classificou a imprensa francesa.

Chumbo em ouro
Agora, o PS volta à ofensiva. Nesta quarta-feira (19), o líder do partido, Harlem Désir, acusou o ex-presidente de tentar "obstruir a Justiça". De acordo com ele, "a leitura dos documentos publicados na noite de ontem pelo Mediapart é desconcertante, alucinante e, acima de tudo, entristecedora".

Em entrevista à televisão, a ministra da Saúde, Marisol Touraine, disse que os fatos têm alta gravidade: "O discurso dessas conversas traduz, além de violência deles (Sarkozy e Herzog) com relação aos juízes, uma concepção das relações entre os poderes Executivo e Judiciário que é oposta a nosso Estado de Direito". Thierry Repentin, ministro dos Assuntos Europeus, disse à RFI que "o importante é saber o que realmente aconteceu e essas escutas permitirão ter clareza da forma como o poder se impunha sobre um grupo de magistrados".

Dependendo da interpretação que a população fizer, o caso pode influenciar as eleições municipais, além de atrapalhar as aspirações políticas de Nicolas Sarkozy. Apesar de ele não se autodeclarar candidato, analistas interpretam sua sucessão de aparições públicas e comentários políticos como uma pré-campanha para a presidência em 2017.
 

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