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França/Terrorismo

França investiga Lafarge na Síria

Thomas SAMSON / AFP

Três juízes de instrução franceses vão investigar a empresa do sector de cimento franco-suíça LafargeHolcim, acusada de ter financiado indirectamente grupos armados na Síria, entre eles a organização terrorista Estado Islâmico, para manter as suas actividades no país, segundo o Ministério Publico francês.

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Um ano após as primeiras revelações e depois de uma investigação preliminar iniciada em Outubro, na sexta-feira passada a justiça francesa decidiu atribuir um processo de investigação sobre a LafargeHolcim a três juízes, dois de instrução da área financeira e um magistrado do departamento antiterrorista.

Em comunicado a LafargeHolcim sublinhou que «irá cooperar com a justiça, caso seja solicitada”. A empresa diz ainda não ter sido contactada pela justiça.

Este processo judicial, aberto a 9 de Junho, investiga especificamente as acusações de “financiamento de empresa terrorista” e de “pôr em risco a vida de terceiros”.

A justiça pretende esclarecer as relações entre a Lafarge - então uma empresa francesa que ainda não havia anunciado a fusão com a suíça Holcim - e grupos armados na Síria.

Entre os grupos citados encontra-se a organização jihadista Estado Islâmico, à qual a Lafarge teria pago para manter aberta e em funcionamento sua fábrica de Jalabiya, norte do país, apesar da guerra civil. Entretanto, em Setembro de 2014, quando o autodenominado Estado Islâmico assumiu o controlo da região de Raqqa, acabou igualmente por assumir o controlo da fábrica e a unidade foi fechada.

O escândalo veio à luz do dia em Junho de 2016 pelo jornal Le Monde, que chamou a atenção para as “negociatas” entre a Lafarge Cement Syrie (LCS), filial síria do grupo, e a organização jihadista, enquanto esta última ganhava terreno e tornou-se incontornável na região.

Em Setembro passado, o Ministério francês da Economia e várias ONGs apresentaram queixa contra a LafargeHolcim com base em depoimentos de ex-funcionários da fábrica, situação que levou à abertura de um inquérito preliminar por parte da justiça francesa.

Em Março, a empresa reconheceu ter financiado "indirectamente" grupos armados na Síria em 2013 e 2014. Desde essa altura que vários responsáveis e quadros do grupo têm sido ouvidos pelo Ministério Público.

Segundo a associação anticorrupção Sherpa, o Centro Europeu para os Direitos Constitucionais e para os Direitos do Homem e onze antigos funcionários da cimenteira, numa altura em que várias empresas francesas e europeias presentes na Síria encerravam, entre 2011 e 2013, a LCS “mantinha-se determinada na manutenção da produção, apesar da intensificação dos confrontos”.

Para cumprir esse objectivo, a filial síria da Lafarge terá “pressionado os seus funcionários” (ameaças de despedimento, suspensão de salários, etc.) e terá “aceitado negociar com os membros do EI” para permitir a circulação das mercadorias e dos empregados contra o pagamento de taxas ou compra de matéria-prima.

“Financiamento” indirecto

Estima-se que a partir de Abril de 2013 “o petróleo utilizado pela LCS seria proveniente da organização terrorista”.

O EI acabou por assumir o controlo da fábrica em Setembro de 2014. Nesse momento, segundo o Le Monde, a direcção não preveniu os funcionários da iminência de um raid e os autocarros previstos para a retirada dos trabalhadores não se encontravam no local.

A Lafarge, que foi alvo de fusão com a suíça Holcim em 2015, admitiu ter “indirectamente” financiado os grupos armados para manter a actividade da cimenteira.

A 24 de Abril, Eric Olsen, presidente executivo da LafargeHolcim, embora tenha sido ilibado pela investigação, decidiu abandonar funções.

Segundo Marie Dosé, advogada da Sherpa, a “Lafarge concentrar a sua defesa na culpabilidade a nível local defendendo a casa-mãe. Todavia, temos elementos suficientes que provam o envolvimento da sede”.
 

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