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Artes

Tiago Rodrigues e a arte da transgressão

Áudio 30:52
Espectáculo "The Way She Dies" ["Como Ela Morre"] subiu ao palco do Théâtre de la Bastille de 11 de Setembro a 6 de Outubro.
Espectáculo "The Way She Dies" ["Como Ela Morre"] subiu ao palco do Théâtre de la Bastille de 11 de Setembro a 6 de Outubro. Filipe Ferreira/ théâtre de la Bastille

É um artista da transgressão, um encenador ávido de liberdade e poesia, um dramaturgo entre passado, presente e futuro. Está no teatro à procura do encontro e do desconhecido. É quem é por estar com quem o faz. Tiago Rodrigues põe o colectivo acima da assinatura, luta por um palco de liberdade, de urgências e de pensamento crítico. A RFI foi ouvi-lo, num “teatro efémero”, em Paris.

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O teatro de Tiago Rodrigues tem conquistado espaço em França. Entre Setembro e Outubro, apresentou três espectáculos em Paris: “The Way She Dies” (“Como ela morre”), “Bovary” e “Please, Please, Please”.

O director artístico do Teatro Nacional D.Maria II não pára e encadeia peças com a mesma ânsia com que fala e devora histórias. Já está a trabalhar na próxima peça que vai estrear em Viena, em 2020, e que chamou “Catarina e a beleza de matar fascistas”. Um mote para uma conversa sobre a urgência de criar. Nos bastidores do teatro de Tiago Rodrigues é a nossa entrevista deste magazine ARTES.

 

Catarina e a beleza de matar fascistas” está em pleno processo de criação entre Tiago Rodrigues e um elenco de oito actores portugueses. A peça vai estrear em Viena, em Maio de 2020, e vai ser apresentada a seguir no Teatro Nacional Dona Maria II, em Lisboa, e depois passa, nomeadamente, pelo Printemps des Comédiens, em Montpellier, em França.

“’Catarina e a beleza de matar fascistas’ joga com o mundo ao contrário, como se a violência enquanto gesto de resistência ou de combate político fosse uma coisa comum e normal e aceite de uma família que tem precisamente essa tradição de matar fascistas. É uma família democrata e, portanto, mata fascistas há várias gerações. Catarina, a filha desta família vai matar o seu primeiro fascista e não consegue. Não consegue o gesto de matar e acha que, eventualmente, a melhor forma de lidar com um fascista não será matá-lo e começa a colocar alternativas, o que horroriza a família”, conta, sublinhando que este é “o ponto de partida narrativo para a história ainda a construir”.

Um tema que ecoa com “a ameaça da ascensão dos novos fascismos populistas na Europa”, que questiona “como lidar com essa realidade” e que aborda “o lugar do feminismo na sociedade”.

Para Tiago Rodrigues, o palco deve ser “um espaço poético, de liberdade e transgressão” e oferecer às pessoas “um discurso de pensamento crítico, de transgressão, mas também de capacidade de olhar poeticamente para o mundo”.

“As minhas urgências, os meus desejos, aquilo que eu quero transportar para palco - e que, normalmente, são desejos e urgências partilhadas por outros com quem estou a trabalhar - têm também necessariamente uma dimensão política, embora o objectivo não seja político. O objectivo é o de ocupar esse espaço de liberdade na esperança que uma sociedade como aquela em que vivemos possa já hoje beneficiar desse espaço de liberdade”, continua.

Tiago Rodrigues recorre ao repertório da literatura e dramaturgia universal, não para desenterrar fantasmas mas para ressuscitar problemáticas e personagens do século XXI. “Voltamos às grandes histórias não porque estejamos fixados no passado, numa nostalgia do tempo em que essas coisas aconteceram, mas porque são as histórias que nos formaram e são as histórias que nos podem informar, iluminar o presente”.

O dramaturgo interessa-se por heroínas anti-sistema e transgressivas, como "Anna Karenina" de Tolstoi ou “Madame Bovary” de Flaubert porque “há uma matriz nestas figuras de rebeldia feminina que é a matriz da conquista de direitos”, porque “ainda hoje ser mulher em toda a sua plenitude é uma batalha” e também “porque a matriz é exemplo” e elas “são os exemplos que sempre” o fascinaram.

Além da predominância de figuras femininas fora do comum e da reincidência do “uso da memória para construir o presente ou para projectar o futuro”, a linguagem do Tiago Rodrigues dramaturgo é percorrida pela tragédia e salpicada por uma ponta de humor. Como se se pudesse atravessar um drama com um sorriso ou como se deixasse “uma cobra venenosa por debaixo dos malmequeres”. O objectivo é fazer com “que o teatro não se leve demasiado a sério” porque o palco é “uma celebração, um jogo”.

Outro traço que define o criador Tiago Rodrigues é a urgência, uma palavra que repetiu várias vezes na conversa. Para ele, é urgente criar e, por isso, mantém diferentes projectos em paralelo como se tivesse “várias panelas no fogão mas estão todas ligadas”. “Às vezes, pensamos que estamos a fazer um bacalhau à Gomes de Sá, mas acabamos por utilizar aquele refogado para outro prato que estávamos a preparar que não tem nada a ver, que é uma jardineira. Depois, aproveitamos aquele azeite que já tínhamos posto de lado para o bacalhau à Gomes de Sá para fritar uma alheira”, explica o artista que chegou a trabalhar 14 horas por dia como aprendiz numa cozinha de três estrelas Michelin para criar "O que se leva desta vida".

Aclamado pela crítica francesa como uma estrela do teatro contemporâneo, depois de ter feito vários Festivais de Avignon, ocupado o Teatro da Bastilha e apresentado as suas peças em diferentes salas francesas, Tiago Rodrigues diz que não tem “qualquer outro projecto que passe por dirigir instituições ou casas ou festivais que não passe pelo Dona Maria II”.

O meu compromisso neste momento é radical e profundo com o Teatro Nacional Dona Maria II”, reitera o director artístico desta sala onde tem contrato até 2020, depois de dois mandatos à frente dos destinos deste teatro histórico.

Para terminar, fica uma daquelas perguntas "maiores que a vida". Afinal, o que é o teatro para Tiago Rodrigues?

 

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