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Lula/Paris

Para Lula, crise é oportunidade de repensar política

O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva durante conferência nessa quarta-feira em Paris.
O ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva durante conferência nessa quarta-feira em Paris. Ricardo Stuckert/Instituto Lula

O ex-presidente do Brasil Luís Inácio Lula da Silva finalmente falou na França. Mas não com a imprensa. Como na véspera, uma corrente de seguranças de uma empresa privada francesa se interpôs entre os microfones e o ex-presidente. Ou seja, ele não comentou as supostas acusações de Marcos Valério relacionadas a sua participação no escândalo do Mensalão ou os últimos desdobramentos da operação Porto Seguro. Mas será que isso era mesmo fundamental, depois das quase duas horas em que o ex-presidente explicou, ipsis literis, a estratégia que seu governo usou para reduzir o tsunami da dívida a uma "marolinha"? Lula também sugeriu, em tom brincalhão, que pode voltar a se candidatar.

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Diante do auditório lotado da Fundação Jean-Jaurès, Lula se valeu de sua própria experiência para apontar medidas de combate à crise que assola a União Europeia. "Ô, Jospin!", ele interpelou o ex-primeiro ministro francês Lionel Jospin, que abriu a conferência e assistia ao discurso da primeira fila. "Cada vez que acontece uma desgraça na nossa vida, aparece alguém e fala o seguinte: vamos criar um comitê de crise. Você criou comitê de crise? Eu criei muitos. Mas eu só fui para a frente, quando comecei a criar comitê de soluções". Para Lula, a crise propicia uma oportunidade extraordinária de repensar práticas políticas.

Solidariedade capitalista, no lugar do predatorismo financeiro, é uma delas: "Por que o mundo desenvolvido, que está com problemas de consumo, não cria mecanismos de financiamento para que os países africanos recebam financiamento de longo prazo, a juros mais baratos, para poder começar a desenvolver uma indústria, uma agricultura... Isso vai virar o quê? Isso vai virar uma região em desenvolvimento, que vai gerar mais poder de consumo e vai comprar produtos dos países desenvolvidos". É a fórmula que o ex-presidente define de forma simples: se precisamos de mais crescimento, precisamos de mais crédito; para ter mais crédito, mais comércio, para mais comércio, mais consumo. "Tudo isso junto significa que nós precisamos de mais empregos e mais salários". Em outras palavras, é a antítese da máxima de que é preciso fazer crescer o bolo para depois repartir. "É preciso distribuir para crescer".

Lula também reiterou que os órgãos internacionais de decisão carecem de representatividade. "Tudo no mundo está globalizado. Você vê o time da França jogar, o que menos tem é francês (...). A economia está globalizada, qualquer banco na França é banco no Brasil". De acordo com o ex-presidente, a única coisa que não foi globalizada foi a política. "A política ainda está subordinada aos interesses eleitorais de cada país, de cada partido", disse sob aplausos. Lula defendeu a criação de fóruns multilaterais mais representativos, que elevem o volume de vozes alternativas no plano internacional. "Qual foi o fórum que decidiu que o dólar seria a moeda (do comércio internacional)?", perguntou para a plateia calada, antes de afirmar que ninguém decidiu que o diretor do FMI tem que ser europeu e o do banco mundial, americano, como se convencionou.

Lula ainda perguntou aos dirigentes franceses se eles estavam exercendo democracia em sua plenitude, se estavam ouvindo a sociedade para encontrar soluções contra a crise. "É preciso criar instrumentos e mecanismios de mais solidariedade, de mais democracia, para que as decisões não fiquem subordinadas a quem tem mais dinheiro, a quem tem mais indústria ou a quem tem a economia maior". Lula lembrou o caso do banco Lehman Brothers, cujo pedido de falência, em 2008, marcou o início simbólico da crise da dívida. "O que eu acho fantástico é que o Lehman Brothers quebra, ninguém vai preso e ele recebe os trilhões que os países pobres não recebem no mundo".

Antes de pedir que o povo francês não perca a esperança, Lula disse que a crise é de responsabilidade de ilustres desconhecidos. "Quando o político é denunciado, a cara dele sai de manhã, de tarde e de noite no jornal. Vocês já viram a cara de algum banqueiro no jornal? Sabe por que não sai? Porque é ele que paga a propaganda dos jornais". Lula, que ensina a Europa a combater a crise, não paga propaganda.

Candidatura

Lula da Silva sugeriu, em tom de brincadeira, que poderia voltar a se candidatar. "Aqui está cheio de companheiros empresários, que certamente não votariam em mim com medo. E hoje eu olho com orgulho para dizer que eles nunca ganharam tanto dinheiro na vida como ganharam no meu governo. Nunca cresceram tanto na vida como cresceram no meu governo. E nunca geraram tanto emprego na vida quanto geraram no meu governo. Eu espero que um dia, se eu voltar a ser candidato, eu tenha o voto deles, o que acho que não tive nas outras eleições", disse Lula, rindo.

Depois de Paris, o ex-presidente passa a quinta-feira em Barcelona, onde recebe o Prêmio Internacional da Catalunha. Na sexta, Lula volta para o Brasil.

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