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Franceses perdem o gosto pela política, constata Le Monde

Militância está em queda na França.
Militância está em queda na França. AFP PHOTO / PHILIPPE HUGUEN

O francês nunca precisou de muito estímulo para ir às ruas se manifestar. Mas quando se trata de defender um partido, a motivação está em claro declínio, mostra uma reportagem especial do jornal Le Monde deste domingo. A matéria, intitulada “Quando os militantes perdem a fé”, aponta as causas para o desencanto da juventude com a política, que se reflete nas estatísticas das filiações dos principais partidos.

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No primeiro turno do congresso do Partido Socialista, nesta semana, apenas a metade dos 150 mil filiados marcaram presença. Na principal sigla da oposição, a UMP, a situação não é diferente: dos 200 mil militantes, cerca da metade teria abandonado a carteirinha depois da derrota de Nicolas Sarkozy em 2012, segundo o jornal.

Dos que restaram, muitos exprimem adoração à personalidade do seu candidato favorito, e não ao partido. Esse é o caso do próprio Sarkozy, mas também de Marine Le Pen e sua sobrinha, Marion Marechal Le Pen, ambas do partido de extrema-direita Frente Nacional. O FN é o único que ainda ganha filiados a cada ano, porém a intensidade do fenômeno já se desacelera. Atualmente, apenas 1% dos franceses são filiados a algum partido político.

“Até o mais simbólico dos militantes, José Bové, acabou deixando a militância para lá”, observa o Monde. As demonstrações de desinteresse estão por todos os lados: da solidão constrangedora de um candidato fazendo campanha nas ruas às páginas desatualizadas na internet dos sites relacionados às siglas.

Debate animado por especialistas, não por políticos

O jornal afirma que a França vive a nostalgia “de uma época de ouro, quando a sociedade vivia, falava e comia política, quando projeto de sociedade enfrentava outro projeto de sociedade e os partidos políticos eram o motor desses debates”. Hoje, quem cumpre esse papel são think tanks e intelectuais desligados dos partidos, “que se secaram, sob o olhar petrificado de alguns de seus líderes”.

Do lado dos dirigentes, a culpa é, em parte, da própria militância. Após as eleições municipais de 2014, quando os socialistas tiveram uma das piores derrotas da sua história, um deputado da sigla constatou que os militantes não leem mais como antigamente, não têm uma visão global sobre os problemas e demonstram pouco conhecimento histórico, político e econômico. Por isso, o desinteresse pela política seria natural.

Já a UMP percebeu a despolitização como uma estratégia: quer atrair cada vez mais “fãs”, instantâneos e animados por Sarkozy, que espalha sorrisos, piadas e ironias a cada aparição pública. “Mas na sala dos comícios, não há bandeiras do partido e ninguém fala sobre o futuro da sigla”, constata o jornal. Os militantes gostam de Sarkozy, não do partido.

Mudanças nas primárias

O diário explica que os filiados perderam muito peso desde que a votação nas primárias dos partidos passaram a ser abertas para toda a população, deixando de ser reservada aos militantes. “Nós temos a impressão de não servir para mais nada. Não somos ouvidos”, lamentou uma jovem socialista de carteirinha, ao Le Monde.

O jornal conclui que os partidos franceses se transformaram em organizações reservadas aos profissionais. “A militância original está se diluindo. As pessoas entram nos partidos para serem candidatas”, explicou Rémi Lefebvre, professor de Ciências Políticas, em entrevista ao diário.
 

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