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Convidado

UNESCO celebrou língua portuguesa

Áudio 13:38
O projecto Stereossauro com o músico Chullage. Unesco, Paris, 22 de Maio de 2019.
O projecto Stereossauro com o músico Chullage. Unesco, Paris, 22 de Maio de 2019. Carina Branco/RFI

A música electrónica e o humor subiram ao palco da UNESCO, em Paris, para marcar o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. O destaque foi para o ‘electrofado’ e ‘electro-hip-hop’ de Stereossauro e para a conversa informal sobre humor e língua portuguesa com os humoristas Ricardo Araújo Pereira e Fary.

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Do ‘electrofado’ ao ‘electro-hip-hop’, o português Stereossauro associa ritmos urbanos e contemporâneos a sons e vozes mais tradicionais do cancioneiro português. O DJ apresentou na UNESCO, esta quarta-feira, o seu mais recente disco, “Bairro da Ponte”, uma desgarrada ensaiada em que a batida eletrónica se junta à guitarra portuguesa, ao rock, ao pop e ao hip hop. O cocktail de sons foi surpreendente na instituição que consagrou o fado como Património Imaterial da Humanidade e que se prepara para fazer o mesmo com a morna.

O disco tem por base a cultura portuguesa, nomeadamente o fado e o nosso cancioneiro – mas com muita incidência no Fado: Amália Rodrigues e Carlos Paredes. Sempre tive contacto com vários tipos de música diferentes e isso, depois, acaba por transparecer para a produção. É certo que o hip-hop ocupa um lugar maior”, descreveu o músico à RFI.   

Dos vários convidados do álbum, que vão de Carlos do Carmo, a DJ Ride, Camané, The Legendary Tiger Man ou Ana Moura, Stereossauro levou à UNESCO Dino d’Santiago e Chullage, dois portugueses com raízes cabo-verdianas.

A nossa responsabilidade é mostrar que a língua portuguesa tem uma elasticidade enorme, por exemplo, do ponto de vista da pronúncia e que há o português de Portugal, mas também há o português do Brasil, o português de Cabo Verde, de Angola, de São Tomé (…) Estamos num espaço electrónico, estamos num espaço moderno, mas a morna, o funaná, esse sentimento manifesta-se muito”, contou à RFI o músico Chullage.

Dino D’Santiago também saudou a escolha da parte da UNESCO de um projecto contemporâneo que se inspira nos sons tradicionais: “É bom que comece a haver mais iniciativas destas para que a nossa geração também possa respirar e pensar: ‘Ok, eu também posso utilizar os nossos instrumentos, a nossa língua e namorar sons mais contemporâneos sem que sinta que estou a violar o nosso património’”.

A celebração contou também com actuações do grupo moçambicano Kakana e dos brasileiros Bateria Show.

O objectivo foi mesmo mostrar uma língua portuguesa viva e desempoeirada pelas novas gerações de criadores, numa jornada em que os países da CPLP se uniram na UNESCO, explicou o representante permanente de Portugal na UNESCO, António Sampaio da Nóvoa.

Do ponto de vista musical, foi a tentativa de darmos um sinal para uma nova geração, para nos dirigirmos a um público mais jovem e não apresentarmos sempre a língua portuguesa ou a cultura portuguesa ou a música portuguesa a partir das suas referências tradicionais. Não que as referências tradicionais sejam más, elas são muito importantes, mas elas não podem ser a única maneira de nos apresentarmos ao mundo e temos de fazer uma espécie de um equilíbrio entre o que é a tradição e o que é a renovação”, continuou o representante de Portugal na UNESCO. 

António Sampaio da Nóvoa sublinhou, também, que foram convidados dois humoristas porque “uma língua vive também do humor” e apontou Ricardo Araújo Pereira e Fary como “dois altos expoentes dessa maneira de trabalhar a língua numa outra dimensão”.

Questionado sobre o convite para falar na UNESCO, Ricardo Araújo Pereira admitiu que “normalmente a comédia não é para este tipo de salão, mas pode ser que esse contraste também tenha graça”.

Ao lado de Fary Lopes, e conversando sobre língua portuguesa e humor, Ricardo Araújo Pereira considerou, por exemplo, que “talvez a ONU e os capacetes azuis devessem invadir alguns países com gramáticas portuguesas para dar a falantes de outras línguas uma noção de palavras portuguesas que fazem com que a gente viva melhor”.

Eu sei que viveria pior se não soubesse o que é ‘quentinho’, ‘devagarinho’. Por exemplo, a diferença entre ser e estar que os franceses e os ingleses não têm – eles usam ‘to be’ e ‘être’ para ser e para estar. Nós sabemos a diferença entre ser e estar. É fundamental saber essa diferença para saber o que é ser bêbado e estar bêbedo… Uma coisa é dizer ‘És bonita’ - que incentiva a um certo desleixo - e ‘Estás bonita’ - que sublinha que se trata de um estado passageiro”, afirmou, perante palmas e risos da plateia.

Num espaço geograficamente descontínuo, a língua portuguesa é a matriz identitária da CPLP e a tendência é ganhar uma projecção ainda maior, de acordo com o secretario-executivo da CPLP, Francisco Ribeiro Telles.

“Portugueses falantes no mundo são à volta de 260 milhões. É a quinta língua mais falada do mundo e a mais falada no hemisfério sul. As projeções das Nações Unidas apontam para que perto de 500 milhões de pessoas vão falar português no final do século e, sobretudo, será em África, devido às perspectivas demográficas que têm Angola e Moçambique”, destacou.

Mas a língua portuguesa já foi melhor, de acordo com o embaixador de Cabo Verde em França, Hércules Cruz: “Eu acho que o diagnóstico que acabamos fazendo um pouco por todo o lado é que o português já foi melhor, mas eu acho que isso também acontece um pouco com todas as outras línguas.”

A UNESCO a destacar a língua portuguesa, a quinta língua mais falada no mundo, uma língua oficial da União Africana, da União Europeia e da Organização dos Estados Americanos, mas que não é língua oficial das Nações Unidas nem da própria Unesco.

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