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Artes

Fado Bicha: O duo que “desconfinou” o Fado

Áudio 18:49
Fado Bicha, um projecto musical português que quer "arrancar o fado do armário".
Fado Bicha, um projecto musical português que quer "arrancar o fado do armário". © Fado Bicha

“Arrancar o fado do armário” através da experimentação e da subversão. Lila Fadista e João Caçador compõem o projecto Fado Bicha, um manifesto musical e político que “devolve ao fado o realismo das ruas”, dando voz à comunidade LGBTI, denunciando o racismo, as desigualdades e as reminiscências da escravatura e da colonização.

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A crise sanitária ligada ao novo coronavírus adiou o lançamento do álbum de estreia e deixou em suspenso os concertos, mas os músicos estão em estúdio e não se vão calar. Fado Bicha é um manifesto artístico e político que dá uma dimensão “queer” ao Fado. Um som que ajuda a “desconfinar” o Fado em tempos de pandemia.

“Sendo pessoas homossexuais e muito críticas do binarismo de género e, obviamente, da opressão e da violência sobre as pessoas ‘queer’, sentimos que não cabíamos por inteiro dentro do fado. Se quiséssemos cantar, por exemplo, um fado sobre o amor entre duas mulheres, ou um fado sobre uma pessoa trans, ou um fado sobre temas de intervenção, sentíamos que não cabia dentro do fado. Então tivemos de criar um espaço novo para que isso pudesse acontecer e esse espaço que criámos chama-se Fado Bicha. Bicha é uma palavra ofensiva, mas nós e outros artistas - muitos outros antes de nós – tomam-na como uma palavra de empoderamento até da simbolização de uma subversão que é, no fundo, aquilo que subjaz ao nosso trabalho”, descreve Lila.

A criação do novo espaço “desconfinou” o fado tradicional, com letras que dão voz à comunidade LGBTI [Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo], que denunciam o racismo e as desigualdades, e que ressuscitam as feridas da escravatura e da colonização. Em vez da guitarra portuguesa, há faúlhas de guitarra eléctrica, sintetizadores e sons mais electrónicos. Depois, há os videoclips, entre performance, dança e retratos de uma Lisboa “underground”. No fundo, um “manifesto político” e um fado de intervenção.

 

“É um manifesto político porque os nossos corpos não nascem políticos mas crescem de uma forma política. Deste choque contra uma norma e contra uma normalização, onde os nossos próprios corpos não cabem, eles tornam-se automaticamente políticos. E era impossível para nós, ou não faria muito sentido, fazer música que não fosse política. Trazemos esses corpos que não cabem ou que não cabiam no fado para o palco e para a nossa expressão, para a nossa arte.

As outras lutas, como a luta anti-racista, não faria sentido deixá-la de fora porque faz parte da nossa vivência diária, duma visão que nós temos de uma hegemonia branca e heteronormativa. Todas essas lutas só fazem sentido individualmente quando são vistas como um todo e nós sentimos que não podiam ficar de fora da opressão que nós, enquanto bichas, vivemos”, explica João.

Aqui quer-se deliberadamente “arrancar o fado do armário” e criar dentro do fado uma outra narrativa. Cantam-se os amores de um pescador com um peixeiro, a tristeza de um bailarino homossexual trancado num hospital psiquiátrico, as histórias de escravos que não se submetiam à sua condição, o orgulho de uma mulher transexual que se tornou líder dos militantes a favor dos direitos das pessoas LGBTI.  

João recorda que “sempre existiram poetas homossexuais, fadistas homossexuais, músicos, mas que nunca puderam retratar de uma forma objectiva e explícita essas narrativas”. Agora, a dupla quer “devolver ao fado o realismo das ruas onde ele existia e contar as histórias todas”. Porque “só uma parte do fado estava à mostra”. Porque é preciso levar “as franjas da cidade para dentro do fado também”. E assim, uma das músicas dá o tom logo a abrir: “A Lila Fadista, bicha ativista, diz a tradição, É, nesta Lisboa, figura de proa da nossa canção”.

Qual o preço a pagar por dar voz ao fado que estava no armário? Lila responde: “Já fomos alvo de violência e de rejeição. Durante grande parte da nossa curta existência enquanto Fado Bicha tivemos muito poucas tentativas de ponte vindas de outros artistas – que não os artistas underground do meio ‘queer’ de Lisboa onde nós nos inserimos. Portanto, sentimos que sim, que tivemos que provar bastante o nosso valor para que algumas pessoas pudessem começar sequer a dar-nos existência.” Note-se que ambos os músicos já eram activistas antes do projecto Fado Bicha e que já tinham “pago muito preço” pela “visibilidade que vale sempre a pena”.

Amália Rodrigues cantava o “namorico da Rita”, eles escreveram o “Namorico do André”, uma paixão entre André, o peixeiro, e Chico, o pescador. Também adaptaram de Amália a “Lisboa, não sejas francesa” para "Lisboa, não sejas Racista", e “Nem às paredes confesso” transformou-se em "Crónica do Macho Discreto". O amor por Amália é porque foi graças a ela que começaram a gostar de Fado.

O lançamento do álbum de estreia de Fado Bicha foi atrasado por causa da pandemia do novo coronavírus e o duo ainda não sabe quando vai estar pronto. Para já, estão em estúdio e, apesar do confinamento não rimar com inspiração, Lila escreveu duas letras relacionadas com esse período. Sem qualquer actividade há três meses devido à suspensão dos espectáculos, Lila e João estão naturalmente preocupados com o futuro e dizem mesmo que, a continuar sem apoios do Estado, vão “ter de encontrar outras formas de se sustentar”. Porém, não se vão calar.

Fado Bicha, o duo que desconfinou o Fado

 

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