Linha Direta

África tem bem menos infectados pelo coronavírus que países ricos

Áudio 04:43
África: número de mortes é relativamente baixo e ainda mais surpreendente por ser ser o segundo continente mais populoso do mundo, com 1,2 bilhão de habitantes.
África: número de mortes é relativamente baixo e ainda mais surpreendente por ser ser o segundo continente mais populoso do mundo, com 1,2 bilhão de habitantes. AFP/File

O continente africano tem surpreendido o mundo por não ter sido tão impactado pela pandemia em comparação com outras partes do planeta, em se tratando de pessoas infectadas, e principalmente por ter a China como principal parceiro econômico.

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Agora que Lesoto confirmou o primeiro caso de Covid-19, em todos os 54 países africanos houve mais de 70 mil infectados, sendo que quase 2.500 pessoas morreram e aproximadamente 25 mil pacientes se recuperaram. Os números são do Centro para Prevenção e Controle de Doenças da União Africana.

Estima-se que toda a África tenha, no mínimo, 1,2 bilhão de habitantes. Mas o Brasil, com 209 milhões de habitantes, já tem mais que o dobro do número de infectados (179 mil) do que o continente africano, sendo agora o sexto país do mundo com mais casos confirmados. Os Estados Unidos, no topo da lista, já registraram 1,3 milhão de casos e 82,5 mil mortes. A Rússia teve até agora mais que o triplo do número de casos divulgados em toda a África (242 mil).

Países africanos, com suas semelhanças históricas, mas realidades políticas e sociais muitas vezes distintas, começam a tentar retomar as rotinas. O Zimbábue se prepara para, no domingo, flexibilizar as regras de confinamento impostas nas últimas semanas, seguindo outras nações do continente. O Senegal decidiu permitir a reabertura de igrejas, mesquitas e o comércio, mas com a condição de que fechem uma vez por semana para limpeza. O comércio nas grandes cidades da Nigéria reabriu, decisão considerada prematura pela principal associação de médicos do país. Nesta quarta o presidente sul-africano Cyril Ramaphosa, que implementou um dos conjuntos de medidas mais rígidos, fez outro pronunciamento na TV.

O confinamento sul-africano já baixou, no início do mês, do nível 5 (máximo) para o 4. Agora Ramaphosa anunciou que pretende baixar o bloqueio para o nível 3 em parte do país, permitindo o aumento da atividade econômica e mais circulação de pessoas.

A África do Sul tem o maior número de infectados do continente: 12.074, sendo que 219 pessoas morreram. Com isso, tem o terceiro maior número de mortes por conta da COVID-19 na África, atrás do Egito (556) e Argélia (522). “A melhor estimativa atual é que, sem o bloqueio e as outras medidas tomadas, pelo menos 80.000 sul-africanos já poderiam estar infectados. E o número de mortos poderia ter sido pelo menos 8 vezes maior do que é”, justificou o presidente.

Mas a tendência é que o uso obrigatório de máscaras e a proibição de aglomerações continuem nos países que já estão flexibilizando as regras de confinamento.

O que tem feito os governantes relaxarem as regras de restrição de circulação é, principalmente, a preocupação com a economia. Uma das características em comum de países africanos é o alto número de pessoas que trabalham por conta própria, normalmente durante o dia todo para garantir o jantar.

“O risco de surtos de infecção aumentará à medida que mais pessoas retornarem ao trabalho. Isso exige vigilância, responsabilidade e disciplina de todos nós”, alertou Ramaphosa, que também preside este ano a União Africana, sendo a principal liderança política do continente.

Exemplo

O vírus chegou à África através de viajantes vindos de países asiáticos, europeus e dos EUA, inicialmente estrangeiros e depois africanos voltando para casa. O primeiro caso foi registrado no Egito, no dia 14 de fevereiro. De um modo geral, governantes do, pejorativamente chamado, “continente das epidemias” parecem ter tomado as medidas certas na hora certa.

A suspensão de aulas nas escolas e universidades foi a medida que mais afetou o trabalho da brasileira Paola Prandini, doutoranda da USP e pesquisadora visitante da Wits University que se mudou para Joanesburgo para fazer uma comparação entre o Brasil e a África do Sul na área da educação. Mas ela se diz feliz ao ver que os países africanos têm dado respostas “mais rápidas, talvez” comparadas a ações de grandes potências mundiais para combater o mesmo problema.

“A meu ver, isso se deve também à experiência histórica, e já antiga, que vários países do continente africano têm no combate a epidemias. E também porque aqui existem pesquisadores, intelectuais, estudiosos, profissionais igualmente qualificados que têm atuado para pensar medidas de prevenção a curto, médio e longo prazos no combate à COVID”, disse a brasileira.

Paola Prandini
Paola Prandini © Arquivo Pessoal

Com fechamento de fronteiras e suspensão de voos, ela acabou ficando “presa” em Moçambique e destaca o exemplo do segundo país africano com mais brasileiros, onde medidas restritivas foram anunciadas pelo presidente Filipe Nyusi antes mesmo da confirmação do primeiro caso. Moçambique está sob estado de emergência devido à pandemia.

“Mesmo sem óbitos, a gente já tem uma série de medidas que foram adotadas pelo governo moçambicano no combate a essa pandemia de forma preventiva. Experiências como essa de Moçambique que eu estou vivendo poderiam – se houvesse interesse – ensinar países e governos, como o governo brasileiro, a ter ações de prevenção muito mais eficazes e efetivas do que o que a gente tem visto”, comentou Paola Prandini.

Mas no norte moçambicano o novo coronavirus parece não ser uma prioridade. Tem aumentado na região, que já sofre com malária e cólera, o número de ataques terrosistas.

Ausência de testes

Há outros agravantes que precisam ser levados em consideração ao tentar entender os baixos números africanos: a incapacidade de se realizar testes massivamente e conflitos armados, que crescem também em regiões como o Sahel. Mais de 11.600 pessoas morreram em conflitos entre janeiro e abril em países africanos, segundo o Projeto de Localização de Conflitos Armados e Dados de Eventos (Armed Conflict Location and Event Data Project).

Neste diversificado continente, analisando as características de nações onde há mais infectados também se percebe que tradicionalmente é onde há um fluxo maior de viajantes. Já entre os que confirmaram menos casos há alguns locais pouco visitados por turistas, que às vezes enfrentam até crises humanitárias.

Ao falar da possibilidade de subnotificações, a pesquisadora brasileira lembra que “isso pode acontecer no mundo todo. Não só aqui”.

Entre as medidas em comum adotadas por diferentes países estão a suspensão de voos, aulas, proibição de aglomerações, fechamento de fronteiras e do comércio. Há quem diga que isso possa explicar o baixo número de infectados em países africanos, contrariando previsões apocalípticas feitas para o continente no início da pandemia.

Estudiosos ainda discutem se o clima e a faixa etária da população – majoritariamente jovem – possam também ter influência no atual quadro. A idade média africana é de aproximadamente 20 anos, metade da européia. Mas ainda não há conclusões científicas que apoiem essa teoria.

Exceção

Pode ser cedo para se afirmar que a África é uma exceção diante dessa ameaça global. O escritório da Organização Mundial da Saúde para a África subsaariana disse que, se as medidas restritivas impostas pelos governantes não derem certo, a região pode ter até 190 mil mortes e 44 milhões de infectados ainda este ano.

Nos hospitais públicos desta mesma região havia 9.596 leitos de UTI e 3.391 respiradores no início deste mês, também segundo a OMS. Mas a fundação do bilionário chinês Jack Ma doou 756 desses aparelhos para a União Africana distribuir entre seus membros. Pelo continente também há pesquisadores tentando desenvolver respiradores de baixo custo, assim como cientistas que tentam descobrir a cura da COVID-19.

O grande desafio a curto prazo dos países é aplicar o maior número possível de testes. Pelo menos a Argélia anunciou que começa esta semana a produzir kits de teste rápido, com previsão de fazer 200 mil por semana. A expectativa é obter o resultado de cada paciente em 15 minutos.

E em um continente onde a fome aflige mais de 73 milhões de pessoas, segundo o Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, os mais pobres lotam as comunidades periféricas, onde quase nunca podem seguir à risca a recomendação de lavar as mãos com frequência. De acordo com a UNICEF, 63% da população urbana da África subsaariana (ou cerca de 258 milhões de pessoas) não têm instalações básicas em casa para se ter acesso fácil à água. Quando há torneira, nem sempre é certo ver uma gota sequer caindo no dia a dia.

 

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