Brasileiros em Angola negam ataques xenófobos após crise envolvendo Igreja Universal do Reino de Deus

Ocupantes de um Templo da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola gravam um vídeo com fiéis durante um culto recente.
Ocupantes de um Templo da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola gravam um vídeo com fiéis durante um culto recente. ©

Os brasileiros que vivem na Angola afirmam que não são vítimas de ataques xenófobos, devido à crise enfrentada pela Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) no país. A embaixada do Brasil em Luanda também negou que brasileiros estejam sendo retirados de Angola por falta de segurança.

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O voo de repatriação que saiu na quinta-feira(16) da capital angolana com destino a São Paulo levando cerca de 250 passageiros, nem todos brasileiros, nada tem a ver com a crise enfrentada pela Igreja Universal do Reino de Deus no país, segundo a embaixada.

Na semana passada, brasileiros ligados à Universal foram alvos de mandados de busca e apreensão, cumpridos pela polícia angolana, por conta das investigações contra a instituição, que pode ser expulsa de Angola. Pastores acusam a igreja de Edir Macedo de mandar dinheiro para fora do país ilegalmente, além de terem apresentado outras denúncias que incluem acusações como a prática de racismo. Tudo é negado pela IURD, que passou a pressionar autoridades brasileiras para que se envolvessem no caso.

No fim de junho, pastores e ex-missionários angolanos começaram a ocupar igrejas no país, onde a IURD abriu mais de 300 templos desde 1992, ano em que foi criada como instituição sem fins lucrativos em Angola, sob o decreto executivo 31-B/92. As igrejas de Edir Macedo estão em 24 países africanos.

Por conta da pandemia, o espaço aéreo angolano está fechado para voos comerciais desde março. Só voos de repatriação são autorizados. Este não foi o primeiro voo de repatriação que saiu de Angola nos últimos meses. “Outros voos devem sair esporadicamente, até a normalização do tráfego aéreo, ainda sem previsão”, comunicou à RFI a embaixada do Brasil em Luanda.

Ataques xenófobos

Brasileiros que moram em Angola têm negado, em entrevistas a meios de comunicação angolanos nos últimos dias, que estejam sendo alvos de ataques xenófobos. Nas redes sociais, a reação é a mesma, contrariando insinuações sobre o início de uma possível crise diplomática entre os dois países.

A goiana Cárita Celedonio mora em Angola há 19 anos e disse que viu com tristeza reportagens de veículos de comunicação ligados à IURD dando a entender que todos os brasileiros estavam sendo atacados por angolanos.

“Quando falam 'brasileiros' estão colocando todos no mesmo pacote. Isso não é verdade. Desde o ano passado está acontecendo um problema interno com a Igreja Universal. Os pastores estão sendo alvos disso. Então, eu me assustei quando vi essa matéria dizendo que os brasileiros eram alvos disso. O problema é interno. É um caso isolado. É um problema com a igreja Universal do Reino de Deus em Angola”, destacou.

Cárita trabalha como coach e terapeuta de relacionamentos em Luanda, além de ser escritora. Reforça ainda que nunca sofreu qualquer tipo de ataque xenófobo e destaca a relação amistosa entre angolanos e brasileiros.

“Só tenho gratidão por Angola! E da mesma forma eu vejo os angolanos falando que são muito respeitados quando vão ao Brasil”, contou.

Carta

Na segunda-feira, o embaixador brasileiro em Luanda, Paulino Franco de Carvalho Neto, entregou a carta do presidente Jair Bolsonaro sobre o caso envolvendo a IURD ao ministro das Relações Exteriores de Angola, Téte Antonio.

O deputado Eduardo Bolsonaro usou a própria conta no twitter para divulgar a carta do pai. Na tentativa de chamar a atenção do presidente de Angola, João Lourenço, o deputado quis marcar o perfil do líder angolano no tweet, mas acabou marcando a conta de um João Manuel Lourenço que tem 43 seguidores. O perfil verdadeiro do presidente de Angola tem 68,8 mil seguidores, entre eles a embaixada do Brasil em Luanda. O filho do presidente Bolsonaro também foi alvo de críticas de brasileiros por defender um problema restrito à Universal.

Em entrevista à TPA (Televisão Pública Angolana), o ministro Téte Antonio lembrou que apesar dos problemas judiciais envolvendo brasileiros e angolanos as relações entre os dois países são sólidas.

“Os incidentes que aconteceram vão ser tratados no seu domínio próprio. Portanto, vamos esperar a Justiça. Foi dentro de uma igreja. Podia ser a igreja A ou a igreja B. Desta vez é esta igreja que está em questão. Vamos deixar a crise ser tratada a este nível e os aspectos que são da competência da Justiça terão portanto também que ser tratados a este nível”, disse.

O ministro ainda ressaltou na TV que os milhares de brasileiros que vivem em Angola não precisam se preocupar porque continuarão seguros no país dele. “Os brasileiros em Angola, assim como os angolanos no Brasil, sempre se sentiram em casa. Portanto, este é o espírito que deve continuar, devem se sentir em casa. E que os incidentes de percurso em um dos setores da nossa sociedade não venham em nada mudar a forma como nós sempre tratamos nossos amigos brasileiros”, concluiu.

Também de acordo com o governo angolano, mais de 19 mil brasileiros no ano passado visitaram Angola, a maioria para turismo e negócios. Este ano, o número já passa dos 4 mil.

Bens

A reportagem teve acesso a anúncios de imóveis e a uma lista de bens que teriam sido colocados à venda pela Universal, o que enfureceu os angolanos, no ano passado, quando mais de 300 pastores apresentaram às autoridades do país as denúncias contra a Universal. A IURD chegou a negar essa acusação à RFI, no início do ano. Uma página na internet chamada “PROPOSTAS IURD” foi criada para que os interessados pudessem negociar os imóveis, algumas propriedades foram avaliadas em mais de US$ 1 milhão.

“A IURD não teve acesso a essa suposta página e listagem, por isso, não reconhece a mesma, tivemos acesso à denúncia caluniosa dos dissidentes, por isso da resposta que foi dada e que mantemos”, informou a instituição por e-mail.

Os angolanos que ocupam os templos rejeitam o título de rebeldes e dizem querer continuar o trabalho missionário mas sem serem submetidos à regras extremas impostas pela liderança brasileira, como a pressão para que pastores se casem, porém que se submetam à cirurgia de vasectomia. Dizem que o salário de um pastor pode dobrar quando ele se casa. Mas um pastor só cresce na IURD se fizer vasectomia, não podendo, assim, ter filhos. Os denunciantes dizem que é uma forma da Universal diminuir seus custos. A igreja de Edir Macedo, por sua vez, nega a acusação, dizendo que apenas dá orientações sobre planejamento familiar.

O grupo que ocupa as igrejas é liderado pelo bispo angolano Valalente Luis, que chegou a afirmar à imprensa que a IURD em Angola fatura cerca de US$ 80 milhões por ano. Porém, parte deste dinheiro sai ilegalmente do país, seja de carro até a África do Sul ou em viagens em grandes grupos de pastores e suas esposas para o Templo de Salomão, em São Paulo.

Perguntada, a assessoria de imprensa da Universal não informou qual o faturamento anual no país. Sobre a acusação de evasão de divisas respondeu: negamos veementemente e a justiça irá provar isso.

Prestação de contas

Em um grupo no Whatsapp chamado Apoio Sedes Regionais, uma brasileira dá orientações a esposas de pastores sobre como prestar contas do dinheiro recebido com a venda de livros e vindo dos dízimos pagos pelos fiéis no país africano com 30 milhões de habitantes. Estima-se que 60% dos angolanos vivam com menos de US$ 2 por dia, de acordo com estudos do Centro de Investigação da Universidade Católica de Angola.

A prestação de contas é feita pelas esposas dos pastores através de um aplicativo chamado SgUniversal. A reportagem teve acesso a mensagens trocadas neste grupo de Whatsapp. A mais recente é do dia 21 de março deste ano. Ao final de algumas mensagens, a brasileira que envia as ordens escreve em negrito “não é opcional”.

Pela identificação do número, as ordens são mandadas por uma pessoa chamada Michele. Em uma mensagem no dia 15 de março, aparentemente convocando para uma reunião, ela lembra que “nenhuma esposa deve trazer celular, bolsa, etc”. Quem acusa a Universal de cometer crimes financeiros em Angola disse que essa é a principal ordem antes de reuniões convocadas por brasileiros para se tratar de dinheiro.

“Trata-se de uma orientação de segurança, pois já sofremos em algumas igrejas assaltos e ameaças, não há nenhum tipo de ilegalidade, mas existem trâmites e procedimentos internos que devem ser seguidos, o que estão querendo sugerir é leviano”, disse a Universal.

A reportagem procurou as autoridades angolanas responsáveis pelas apurações, mas o Serviço de Investigação Criminal e a Procuradoria Geral disseram que tudo corre sob sigilo. A instrução de processo-crime em Angola é secreta.

O representante da Procuradoria apenas lembrou que as buscas feitas pela polícia não visavam pessoas, mas objetos. Informou também que o objetivo da operação de busca e apreensão, semana passada, foi reunir provas indiciárias sobre os crimes investigados. A Procuradoria negou que os dissidentes sejam informantes das autoridades, lembrando que estes são apenas denunciantes.

Live

No último domingo (12), o bispo Valente Luis fez uma live no Facebook, onde compartilhou fotos de fiéis participando de cultos nos templos ocupados. Na live, o bispo angolano afirmou que 85% dos pastores estão levantando a bandeira do manifesto, dizendo não à vasectomia e outras práticas conduzidas pela liderança brasileira da Universal, mas consideradas abusivas e ilegais pelos angolanos.

Só que no país há quem diga também que os pastores que ocupam os templos apenas estariam interessados em controlar o dinheiro que a IURD arrecada em Angola, se fazendo valer da estrutura já criada, uma vez que atualmente a legislação angolana dificultou a abertura de novas igrejas. Em resposta, o bispo Valente ressaltou que o objetivo deles não é material, só estão cansados das ilegalidades cometidas por bispos brasileiros.

Na live, o líder angolano disse ainda não odiar os bispos brasileiros Edir Macedo e Honorilton Gonçalves, bispo-lider da IURD em Angola. Bispo Gonçalves, como Honorilton é chamado pelos angolanos, também participou esta semana de uma live com jornalistas da TV Record, que pertence a Edir Macedo, para falar sobre o assunto.

Ele criticou a postura das autoridades angolanas diante da situação e contou que já prestou depoimento três vezes. Tentou não passar a imagem de que seria uma crise diplomática entre os dois países, destacando que no total são 65 missionários do Brasil que estariam se sentindo inseguros em Angola, onde vivem milhares de brasileiros. A embaixada do Brasil disse não saber informar se algum deles embarcou no voo de repatriação que saiu de Luanda nesta quinta-feira.

Bispo Gonçalves criticou o Serviço de Investigação Criminal pelas apreensões feitas na semana passada e disse que tenta, por meios judiciais, desocupar os templos tomados por pastores angolanos. Ele ainda disse acreditar que há alguém “forte” por trás dos africanos. “Não é o governo angolano, mas existe alguém forte que vem dando como se fosse um 'cheque em branco' para esses rebeldes, porque eles agem como se estivessem autorizados. Gravam tudo, fazem ameaças aos membros da igreja, dizem 'nada vai acontecer conosco'. Tem alguém forte dando cobertura a esses invasores”, disse.

Centenas de milhares de fiéis assistem a essa discussão sobre propriedades, altos valores em dinheiro e o direito a ter filhos, o que é muito importante para a cultura africana. Na live no último domingo, o bispo angolano Valente Luis pediu paz, chamou o bispo Gonçalves para uma conversa e disse que não quer ficar discutindo através de interlocutores. “Se a obra é de Deus, bispo Gonçalves e bispo Macedo, deixa Deus fazer Justiça”, disse.

Vinícius Assis, correspondente da RFI em Luanda

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