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Na Nigéria, Covid-19 dá novo ímpeto à defesa do pangolim

Segundo cientistas, genomas das sequências de vírus analisadas no pangolim são 99% idênticos aos dos pacientes infectados pelo novo coronavírus.
Segundo cientistas, genomas das sequências de vírus analisadas no pangolim são 99% idênticos aos dos pacientes infectados pelo novo coronavírus. Reuters
Texto por: RFI
7 min

A pandemia de Covid-19 fez o mundo prestar atenção no pangolim, aumentando, internacionalmente, a consciência sobre a necessidade de proteger essa espécie ameaçada de extinção. Na Nigéria, principal rota global para o tráfico de animais, apesar da resistência cultural, os defensores do pangolim se sentem mais fortes e alertam contra a exploração dessa espécie.

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Moïse Gomis, da RFI

O campus da Universidade de Ibadan vive um período bem diferente de sua agitação cotidiana, que em tempos normais é um "formigueiro humano". Mas, este ano, desde o segundo trimestre, professores e alunos abandonaram as salas de aula e laboratórios por causa da pandemia Covid-19.

Apenas alguns funcionários administrativos e técnicos ainda vagam pelos corredores dos departamentos silenciosos. Mesmo assim, o professor Olajumoke Morenikeji faz questão de vir, pelo menos duas vezes por semana. “Comecei uma pesquisa de campo com um grupo de alunos”, diz ela. “Vamos para a floresta de Omo, no estado de Ogun, onde há pangolins. Existem quatro espécies na África, duas estão ameaçadas de extinção", completa.

Foi quase por acaso que este especialista em zoologia se tornou um dos maiores estudiosos nigerianos do pangolim, animal cuja carne é muito procurada na Ásia, assim como suas escamas por supostas virtudes medicinais.

Au Saint Mark's Animal Hospital and Shelter, un bébé pangolin biberonné par la docteure Calista Okolo.
Au Saint Mark's Animal Hospital and Shelter, un bébé pangolin biberonné par la docteure Calista Okolo. RFI / Moïse Gomis

Drama pessoal

Por muito tempo diretora do zoológico universitário de Ibadan, a segunda maior cidade do sudoeste da Nigéria, Morenikeji tem o apoio de suas equipes na missão de criar e preservar vários animais. A diversidade desta fauna é a fonte do sucesso popular deste parque animal. No entanto, ano após ano, os especialistas perceberam que o pangolim é a única espécie que morre após alguns dias de cativeiro.

Em 2016, ela decidiu estudar mais a fundo esse mamífero que, assim como o tatu, se alimenta de formigas. “Vivenciei cada morte de pangolim como um drama pessoal. Finalmente, entendi que o pangolim era um animal solitário e incapaz de sobreviver fora de seu habitat natural. Foi como uma revelação. Ao continuar minha pesquisa, descobri que ele estava à beira da extinção no planeta ”, explica a professora.

Uma área natural protegida dedicada aos pangolins

Também nesse mesmo ano, pouco mais de três toneladas de escamas de pangolim foram apreendidas na China, oriundas da Nigéria. Na época, foi a maior captura já feita no país. A professora, então, lançou um programa de conservação, com o apoio de sua universidade. Vários hectares de uma área florestal perto de Ibadan foram concedidos ao projeto.

Um espaço natural protegido que ela dedica aos pangolins que ainda restam na Nigéria: o pangolim terrestre, que cava tocas, e o pangolim arbóreo, que como o nome diz, sobe em árvores. “O pangolim gigante quase desapareceu aqui no sudoeste do país. Ele é muito maior do que as outras espécies de pangolins. Algumas vezes, chega ao tamanho de um cachorro. Além disso, ele fica em suas duas patas traseiras. O último indivíduo teria sido visto aqui, há 20 anos ”, explica a professora ativista.

Um refúgio animal

Em Lagos, o Hospital e Abrigo de Animais São Marcos tem entre seus “residentes” um pangolim bebê e um pangolim adulto. É neste estabelecimento privado que o Dr. Mark Ofua e sua equipe, de cinco pessoas, se revezam, dia e noite, para tratar dos pangolins, além de cães, gatos, papagaios, ratos e cobras.

Trata-se do primeiro abrigo na Nigéria a cuidar de animais domésticos e selvagens em uma área fechada. As áreas de tratamento e cuidados são bastante distintas para cada espécie. “Iretil, este bebê pangolim, não reage de forma alguma a cachorros latindo, garante Mark Ofua. Nós o pegamos algumas semanas após o seu nascimento. Por outro lado, o outro pangolim está completamente estressado porque sabe que o cão é um predador potencialmente hostil. Ele vai demorar dois dias para se acostumar," explica.

Envolvidos em pequenos cobertores, os dois pangolins passam a sua estadia em gaiolas individuais. Eles estão alojados em uma ala separada, tendo as cobras como únicas vizinhas.

Reabilitar os pangolins

Veterinário experiente, o Doutor Ofua, entretanto, tem a sensação de que está descobrindo sua profissão ao dar as boas-vindas aos pangolins. Após um período de improvisação, o veterinário foi treinado lendo livros sobre a vida selvagem. E também aderindo à Rede de Amigos do Pangolin criada pela Professora Olajumoke, em Ibadan.

A questão para Mark Ofua não é simplesmente de caráter ativista mas, acima de tudo, ele quer ajudar e acompanhar este mamífero comedor de formigas. “Depois de duas semanas, nós os libertamos de volta à natureza. Não muito longe daqui, tenho à minha disposição um espaço que delimitei com o apoio de amigos numa zona arborizada. A longo prazo, é aqui que pretendo tratar os pangolins em um ambiente natural. O único estresse será dar-lhes a medicação. Porém, eles poderão aproveitar a proximidade de dois ou três montes de formigueiros dentro deste recinto ”, acredita.

Pangolim, presa fácil para caçadores

De seu laboratório de pesquisa em Ibadan, a professora Jumoke Morenikeji continua muito preocupada porque, apesar da classificação desta espécie ameaçada de extinção e da conscientização das autoridades nigerianas, as redes internacionais de tráfico continuam se aprovisionando de pangolim no sudoeste do país, onde há grandes áreas florestais.

O pangolim é particularmente vítima pelo fato de ser fácil de ser caçado. “A única proteção do pangolim são as escamas que cobrem o seu corpo. Mas como elas não são prejudiciais, até uma criança pode pegar um pangolim. Para se defender, ele se enrola como em uma bola. O animal não morde e nem grita. Qualquer um pode pegá-lo ”, diz a especialista.

A demanda por escamas de pangolim continua forte no sudeste da Ásia. Em 2019, um barco que saiu da Nigéria com nove toneladas de escamas a bordo foi interceptado durante a sua escala em Hong Kong. A carga, estimada em US$  8 milhões, representava cerca de 13.000 pangolins.

“Achei que neste ano de 2020, com as supostas ligações entre o coronavírus e o pangolim, essa espécie seria menos atraente. Infelizmente, é difícil mudar hábitos antigos. O pangolim é procurado e consumido aqui como uma refinada carne exótica. O terreno é favorável para traficantes que oferecem até várias centenas de dólares por um pangolim. Portanto, é difícil resistir à tentação de caçar esse animal para o mercado negro ”, lamenta a professora Jumoke Morenikeji.

(Tradução de Maria Paula Carvalho, da RFI Brasil)

 

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