Dia da criança-soldado: Unicef busca recursos para tirar menores de combates

A grande maioria dos habitantes do vilarejo de
Rwot Obilo, em Uganda, são crianças sequestradas durante a guerra civil.
A grande maioria dos habitantes do vilarejo de Rwot Obilo, em Uganda, são crianças sequestradas durante a guerra civil. © RFI/Lucie Mouillaud

Nesta sexta-feira (12), o mundo lembra o Dia Internacional das crianças-soldado, criado para sensibilizar a opinião pública sobre a situação dos menores utilizados em conflitos armados em todo o planeta, incluindo muitos países africanos, como Sudão do Sul e Uganda. É necessário tempo e dinheiro para acompanhar as crianças em programas de reinserção, lembra a Unicef.

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Segundo a Unicef, o Sudão do Sul recruta milhares de crianças-soldado, apesar dos acordos de paz que proíbem a prática no país. As vítimas são forçadas a entrar em grupos armados após ataques de tropas inimigas em seus vilarejos ou escolas. Muitas são obrigadas a executar prisioneiros e assistir a atrocidades cometidas pelos adultos. 

"Os mais fortes são escolhidos para serem combatentes", diz Jean Lieby, responsável do programa de proteção da infância em Juba, no Sudão do Sul, em entrevista à RFI. O Fundo das Nações Unidas para a Infância diz ter obtido a libertação de cerca de 4.000 crianças que atuavam em grupos desde 2013. 

O programa de reinserção dos menores tem três anos de duração, mas enfrenta problemas devido à falta de recursos, segundo Lieby. "Quando você, entre 11 anos e 17 anos, passou seus dias com uma arma na mão, podendo dar ordens para todo mundo e pedindo o que quer, pode ser um pouco complicado ter que passar a ouvir e respeitar os adultos", explica.

A questão da escolaridade é outro empecilho, diz ele. "Eles têm que ser aprovados em exames de nível primário para recuperar tudo o que não aprenderam na escola. Para fazer um curso para ser mecânico, por exemplo, é necessário saber ler, escrever e contar", exemplifica o representante da Unicef. 

No caso das garotas, a situação ainda é mais complicada. "Algumas delas já tiveram um ou dois filhos, é muito difícil para elas voltar para casa e para a escola, depois de estupros ou outros traumatismos psicológicos que precisam de tempo para serem superados", afirma. "Quando elas voltam para casa, os pais nem sempre ficam felizes em recebê-las com uma ou duas crianças no colo. Nesses vilarejos, há muita pobreza, é mais duas ou três bocas para alimentar", ressalta.

Recursos diminuíram com a Covid-19.

Segundo o representante da Unicef, falta tempo e dinheiro para manter ou implantar os projetos dedicados às crianças-soldado. "Com a Covid-19, muitos Estados estão pouco prosensos a investir nos programas de reinserção. Também há um aumento da pobreza no Sudão no Sul, o que faz com que muitas pessoas enfrentem muitas dificuldades no cotidiano", lembra. 

A Unicef está tentando obter US$ 4 milhões para seu programa de reintegração das crianças-soldado, que envolve a reintegração educacional e familiar.

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