Líder de golpe militar na Guiné dirigia força especial criada pelo presidente deposto

O tenente-coronel Mamadi Doumbouya, comandante do Grupo das Forças Especiais do Exército do Guiné, que comandou o golpe militar desse domingo (5) no país africano.
O tenente-coronel Mamadi Doumbouya, comandante do Grupo das Forças Especiais do Exército do Guiné, que comandou o golpe militar desse domingo (5) no país africano. © @ RFI Mandenkan

O golpe militar desse domingo (5) na Guiné foi liderado pelo tenente-coronel Mamady Doumbouy, o comandante das Forças Especiais do Exército do país. O grupo foi criado em 2018 pelo presidente Alpha Condé, detido desde ontem pelos golpistas em um local secreto. “A força especial criada por Condé se virou contra ele”, resume em entrevista à RFI o especialista Mamadou Aliou Barry, diretor do Centro de Análise e Estudos Estratégicos da Guiné.

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Em pronunciamento na TV no domingo, o tenente-coronel Mamady Doumbouya anunciou a detenção de Alpha Condé, a dissolução das instituições do país e a suspensão da Constituição. Os ministros do governo deposto e os presidentes de todas as instituições foram convocados para uma reunião nesta segunda-feira (6). Quem se recusar a participar será considerado um "rebelde", antecipou o militar.

Os golpistas criaram um Comitê Nacional de União e Desenvolvimento (CNRD, na sigla em francês), dirigido pelo chefe das forças especiais guineenses.

Forças especiais

Os guineenses viram Mamady Doumbouya pela primeira vez em 2018, no dia da festa pela independência do país. De óculos escuros e boina vermelha, ele participou do desfile militar à frente da nova unidade de forças especiais. Os integrantes do grupo, todos com os rostos cobertos, deixaram uma forte impressão.

A missão oficial do Grupo de Forças Especiais (GES) é lutar contra o terrorismo. Mas segundo Aliou Barry, especialista em questões militares na Guiné, o verdadeiro objetivo do chefe de Estado é outro. Ele quer que esses soldados, melhor armados e preparados que os outros, sejam "uma unidade a seu serviço para reprimir as manifestações" no país, afirma Barry.

Quem é Mamady Doumbouya

Na época, Mamady Doumbouya integrava a Legião Estrangeira Francesa e foi convidado por Condé para comandar o GES. O tenente-coronel guineense estudou na Escola de Guerra de Paris, mas se formou também em Israel, Senegal e Gabão.

Como militar, ele serviu no Afeganistão, Costa do Marfim e República Centroafricana. No momento da criação do GES, o porta-voz do Ministério de Defesa da Guiné apresenta o tenente-coronel como um “gigante com um físico impressionante”.

As autoridades desconfiavam das intenções do ambicioso Doumbouya de tomar o poder. Há vários meses, boatos circularam sobre uma possível prisão do militar. Segundo Aliou Barry, suspeitava-se que ele tinha contatos com Assimi Goïta, autor do Golpe de Estado no Mali, no ano passado.

Para o diretor do Centro de Análise e Estudos Estratégicos da Guiné e autor do livro “Revenir, la Guinée, l'exil, le retour, l'avenir” (“Voltar, a Guiné, o exílio, o retorno e o futuro”, editora Descartes et Cie), “a força especial criada por Alpha Condé se virou contra ele”.

Falta de notícias de Alpha Condé

Os golpistas afirmam que Alpha Condé passa bem, mas com a exceção de algumas imagens e vídeos divulgados nas redes sociais, nenhuma outra notícia do presidente deposto vazou.

O homem que dirigiu a Guiné durante 11 anos e tinha acabado de ser eleito para um terceiro mandato. Ele marcou a vida política do país durante meio século, com uma carreira movimentada. Ele conheceu o exílio, a prisão, o poder supremo e, agora, seu futuro é incerto.

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