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Rascismo/França

Novo diretor do banco Crédit Suisse não conseguiu emprego na França por ser negro

Tidjane Thiam foi nomeado o novo presidente-executivo do banco Crédit Suisse.
Tidjane Thiam foi nomeado o novo presidente-executivo do banco Crédit Suisse. REUTERS/Arnd Wiegmann
Texto por: RFI
5 min

O banqueiro franco-marfinês Tidjane Thiam foi nomeado, nesta semana, o novo diretor do banco Crédit Suisse e, quando assumir a função, se tornará o único negro a ocupar atualmente um cargo na chefia de um dos 50 maiores bancos do mundo. No entanto, apesar do desempenho exemplar nas melhores universidades francesas, foi apenas no Reino Unido que Thiam conseguiu se inserir no mercado de trabalho. O motivo: sua cor de pele poderia "desagradar" os clientes dos bancos franceses.

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Tidjane Thiam, 52 anos, substituirá o norte-americano Brady Dougan, na direção geral do Crédit Suisse, a partir do começo de julho. E será o segundo negro na liderança de um banco, um meio tradicionalmente masculino e branco. O primeiro negro a obter um cargo de chefia no sistema bancário em todo o mundo foi Stanley O’Neal, diretor-geral do banco norte-americano Merril Lynch, cargo que ocupou até 2007.

O caso de Thiam chamou atenção quando, em diversas entrevistas concedidas após sua nomeação à liderança do Crédit Suisse, ele revelou ser "um típico produto do sistema de educação francês". Com uma brilhante carreira nas principais sociedades financeiras do Reino Unido, o franco-marfinês revelou que foi obrigado a atravessar o Canal da Mancha "por não conseguir subir os degraus mais altos das empresas da França.

Primeiro marfinês na Politécnica

Filho de um diplomata e da sobrinha do primeiro presidente da Costa do Marfim, aos 21 anos, Thiam foi o primeiro estudante de origem marfinesa a se formar na tradicional Escola Politécnica da França, uma das melhores do país. Ele dá sequência à formação na célebre Ecoles des Mines e no Instituto Europeu de Administração de Negócios (Insead, sigla em francês), onde realiza um MBA.

Apesar do desempenho impecável como estudante, da dupla nacionalidade e um percurso de fazer inveja aos maiores executivos do mundo, nenhuma empresa francesa aceita contratá-lo. Segundo o jornal Le Monde, o nome de Thiam chega a ser banido das listas dos recrutadores franceses. "Quando me contatavam por telefone, ia logo dizendo: 'sou negro, tenho 1,93m de altura", conta.

Em 1988, aos 26 anos, Thiam é contratado pelo escritório de consultoria norte-americano McKinsey e trabalha entre Paris e Nova York. Em 1994, é convidado a participar do governo do então presidente da Costa do Marfim, Henri Konan Bédié, e torna-se ministro do Planejamento do país em 1998. E se vê obrigado a voltar à França, quando o governo de Bédié é derrubado em 1999.

"Um muro invisível"

Na segunda tentativa de busca de emprego, em Paris, ele descreve a dificuldade de ingressar no sistema financeiro da França como "um muro invisível, mas real". É de um ex-colega francês recrutador que ele obtém a justificativa de que sua cor de pele o impede de ir adiante. "Você tem um perfil interessante e uma carreira impressionante, mas, você entende…", disse o ex-colega, explicando que os clientes dos bancos franceses poderiam se desagradar com um dirigente negro.

Em 2002, Thiam decide finalmente partir para a Grã-Bretanha, onde é contratado pela seguradora Aviva, e chega ao cargo de responsável do setor Europa da empresa. Em seguida, na seguradora Prudential, também no Reino Unido, ele é contratado para o cargo de diretor geral, em 2009, e torna-se o primeiro negro a dirigir uma das 100 maiores sociedades do mundo. "Um colega de trabalho londrino me disse que ser francês me traria muito mais dificuldades na Grã-Bretanha do que ser negro", brinca Thiam, lembrando a célebre rivalidade entre franceses e britânicos.

Contratação comemorada

Agora, na liderança do Crédit Suisse, o presidente do conselho de administração da instituição, Urs Rohner, comemora a contratação e não poupa elogios ao novo integrante. "Tidjane Thiam é um líder respeitável e de destaque, um sucesso impressionante na indústria global de serviços financeiros e que agora dirigirá nosso banco", gaba-se.

Enquanto isso, os franceses amarguram a perda de um grande talento. Em 2012, como um pedido de desculpas, o país premiou Thiam com a Legião de Honra, a mais alta condecoração concedida pelo país. O ex-presidente do Banco da França e do Banco Central Europeu, o francês Jean-Claude Trichet, não esconde sua frustração: "a França se arrependerá eternamente por perdê-lo".

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