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Brasil-África

Capulana, o retalho de pano que é patrimônio cultural em Moçambique

Áudio 03:02
Mulheres caminham com capulanas coloridas.
Mulheres caminham com capulanas coloridas. António Cabral
7 min

Em Moçambique, a capulana é muito mais que um retalho de pano. Com o passar dos anos, ganhou importância, respeito e passou a fazer parte da identidade do país.

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Fábia Belém, correspondente da RFI Brasil em Moçambique

Os moçambicanos chamam de capulana um pedaço de pano retangular, fabricado em diferentes dimensões. Chega a lembrar a canga de praia usada no Brasil. De algodão, fibra sintética ou outro material, as capulanas combinam uma mistura de cores presentes em variadas estampas.

Quando chega em casa, a camareira Rosa Saveca veste o que mais gosta. “Tiro a roupa que trago do serviço e ponho a capulana. A mulher moçambicana se sente vestida, bem vestida quando está de capulana”, garante. Se depender de Rosa, as quatro filhas vão manter a tradição. “Elas usam capulana. Tem mais de cinco capulanas na mala, cada menina”.

Como as africanas usam a capulana?

As mulheres suspendem a capulana até a cintura, vão envolvendo o tecido ao corpo e dão um nó. O pano quase alcança os pés. Também é usado para cobrir a cabeça, como uma espécie de turbante, além de servir para amarrar o bebê às costas e carregá-lo em segurança.

Mãe de dois filhos, a chefe de recepção, Irene Quissico, usa uniforme no trabalho, mas, fora dele, não larga a capulana. “Eu cresci dentro da capulana. Desde criança eu amarrava sempre a capulana”, lembra.

A capulana como moeda de troca e a forte influência na cultura local
Segundo registros históricos, a origem da capulana pode está nas trocas de tecidos de algodão na costa da África Oriental. A proximidade com o continente asiático acabou facilitando a importação de tecidos, principalmente os indianos, comercializados em Moçambique desde a época colonial.

Ao longo dos anos, a capulana ganhou muita importância na sociedade moçambicana. Rosa Saveca percebeu isso ainda pequena. Conta que os bisavós não aceitavam comer nenhuma refeição preparada por uma mulher que não estivesse vestida de capulana.

A influência cultural do tecido persiste de norte a sul do país. Irene Quissico, por exemplo, faz questão de transmitir às jovens da família o que aprendeu com os mais velhos. “A mulher sempre tem que andar com a capulana na bolsa. A gente não sabe quando tem o período [menstrual], podemos nos sujar. Então, quando acontece isso, a mulher tira a capulana da bolsa e amarra”, explica.

Capulana: tradição que dá cor a Moçambique

A imagem de Moçambique é de um país multicolorido por retângulos de tecido que ganham formas nos corpos de mulheres e também de homens. O porteiro Alberto Vitorino herdou as capulanas deixadas pelos avós. “Tentei vasculhar aquelas capulanas que eles gostavam e fiz as camisas. Eu me sinto bem porque é a minha tradição”, afirma.

Assim como muitas jovens dos centros urbanos, Sheila Mafuiane prefere os vestidos. Com orgulho, lembra de um elogio que ganhou quando estava vestida de capulana. “Um dos meus colegas disse que eu estava bonita, falou 'Está aqui uma mulher africana, uma moçambicana de verdade'. Nunca tinha feito isso com outro tipo de vestimenta”, recorda.

 

 

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