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Linha Direta

Fernández toma posse na Argentina com presença reduzida de líderes regionais

Áudio 06:15
Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina, toma posse nesta terça-feira (10).
Alberto Fernández, presidente eleito da Argentina, toma posse nesta terça-feira (10). REUTERS/Mariana Grief - RC24BD9ZZPUR
Por: Márcio Resende
12 min

O presidente eleito da Argentina, Alberto Fernández, 60 anos, toma posse nesta terça-feira (10) em Buenos Aires. A cerimônia terá início no Congresso às 11h (horário local) e terminará na Casa Rosada, sede do governo, por volta de 17h30. A Argentina vira a página da visão liberal que marcou o governo de Mauricio Macri para trilhar um caminho mais protecionista.

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Correspondente da RFI em Buenos Aires

Macri entregará a faixa presidencial e os símbolos pátrios a Fernández em cerimônia do Senado. O novo presidente argentino deverá pronunciar um longo discurso sobre os desafios da nova gestão e, em seguida, desfilará em carro aberto até a Casa Rosada, onde receberá as delegações estrangeiras e empossará os seus ministros. Do lado de fora, na Praça de Maio, um show de música popular pretende comemorar o início de uma nova fase no país.

Os desafios do novo governo são sobretudo econômicos, mas também regionais, a começar pela relação com o principal parceiro político, comercial e estratégico da Argentina: o Brasil. A relação entre Fernández e o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, começou tensa, mas tende ao pragmatismo. Nas últimas horas, Bolsonaro decidiu rever a sua postura de não enviar um representante à posse, mas optou por mandar o vice-presidente Hamilton Mourão.

A presença de Mourão em Buenos Aires pode ser analisada sob três aspectos: mostra que o governo brasileiro decidiu apostar na moderação, que a relação bilateral será conduzida pelo segundo escalão e que o governo vê a relação com a Argentina como estratégica para os interesses do Brasil. Esse equilíbrio, no entanto, é frágil. Duas posturas de Fernández irritam Bolsonaro: o apoio ao ex-presidente Lula e a tendência de protecionismo comercial. Esses dois pontos de desacordo estão no horizonte e podem, de uma hora para outra, gerar tensão.

Nenhum outro país é mais importante para a Argentina do que o Brasil, mas apenas quatro presidentes estão em Buenos Aires para a posse de Fernández: Sebastián Piñera, do Chile; Mario Abdo, do Paraguai; Miguel Díaz Canel, de Cuba; e Tabaré Vázquez, do Uruguai. Vázquez vem acompanhado do seu adversário e opositor na recente disputa uruguaia, Luis Lacalle Pou, eleito no mês passado, mas que só vai assumir em março. Lacalle Pou também pensa bem diferente de Fernández.

Ausentes da posse estarão presidentes de países importantes para a Argentina, como o colombiano Iván Duque ou a boliviana Jeanine Áñez, que não teve seu governo interino reconhecido pela Casa Rosada. Fernández reconhece o venezuelano Nicolás Maduro, mas preferiu não o convidar para não provocar mais polêmica com os vizinhos. O caso do Equador é parecido com o do Brasil. Fernández defende o ex-presidente Rafael Correa, adversário do atual presidente Lenín Moreno, que também decidiu não vir à Argentina.

Desafios do novo governo

O principal desafio de Fernández será a política econômica. Ele terá de reativar uma economia que deve fechar o ano com retração de 3% do PIB e uma inflação em 57%. Para aquecer a demanda, a aposta é no consumo interno, mas isso pode ser um combustível para a inflação se o governo, sem recursos, apenas imprimir moeda. Devem ser anunciados aumentos especiais nas aposentadorias de pequeno valor e nos benefícios sociais. Para aumentar os recursos do Estado, é possível que o governo opte por uma taxação das exportações agrícolas. O governo pretende combater a inflação com o lançamento de um grande pacto social de preços e salários.

O desafio prioritário, no entanto, será renegociar a dívida pública tanto com o Fundo Monetário Internacional (FMI) quanto com os credores privados. O objetivo do governo é apresentar, nesta semana, um programa econômico abrangente que proponha adiar o pagamento da dívida por dois ou três anos, tanto do capital quanto dos juros. Em outras palavras, a Argentina deve declarar moratória, mas o governo quer que isso seja negociado com os credores.

Há um desafio interno, dentro do governo, e outro externo, de corresponder às expectativas da sociedade. No plano da governança, o desafio será compartilhar a liderança política com a vice-presidente, Cristina Kirchner. Quem terá o poder real e como vai funcionar esse casamento político são pontos em aberto. Kirchner está construindo maiorias no Senado e na Câmara de Deputados, onde o seu filho mais velho, o deputado Máximo Kirchner, vai liderar a bancada.

A resposta sobre a capacidade de autonomia política de Fernández é um aspecto importante, uma vez que os credores privados temem a influência de Kirchner pela forma autoritária como ela governou o país e por seu intervencionismo, que afetou os negócios. Fernández será pressionado a demonstrar os resultados de suas decisões rapidamente, sobretudo para a metade do eleitorado que vê a dupla com desconfiança.

Fernández chega à Casa Rosada com a popularidade um pouco acima do nível com o qual ganhou a eleição: cerca de 50%. Em geral, a melhor imagem dos presidentes é registrada no princípio do mandato.

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