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Linha Direta

Processo de impeachment contra Trump pode ajudar na sua reeleição

Áudio 04:18
No púlpito, Nancy Pelosi anuncia as duas acusações contra Donald Trump no processo de "impeachment" em 10 de dezembro de 2019.
No púlpito, Nancy Pelosi anuncia as duas acusações contra Donald Trump no processo de "impeachment" em 10 de dezembro de 2019. REUTERS/Jonathan Ernst
Por: Ligia Hougland
11 min

Ao mesmo tempo em que uma ameaça de impeachment pairava sobre Donald Trump desde o instante em que foi eleito, em 2016, também parecia que isso talvez nunca se concretizasse. Mas nesta terça-feira (10), a maioria democrata na Câmara dos Deputados acusou formalmente o presidente americano de abuso de poder e obstrução do Congresso.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Nos últimos três anos, a possibilidade de impeachment de Trump passou a ser uma manchete constante, com base nos motivos mais variados, desde envolvimento indevido com a Rússia durante a campanha, a evasão fiscal e demência, entre muitos outros. Um efeito disso foi que ameaça de impeachment não assustava mais tanto os defensores de Trump, nem animava mais seus opositores.

Há até pouco tempo, os republicanos diziam que a ameaça de impeachment não passava de um blefe dos democratas. Eles inclusive diziam que que Nancy Pelosi (Califórnia), a líder da maioria democrata na Câmara, jamais permitiria uma votação pelo impeachment.

E dava para acreditar que nada aconteceria, pois o Congresso americano é geralmente inerte, preferindo se dedicar somente ao bate-boca e evitar ações concretas. Assim, o anúncio de o impeachment finalmente viraria uma realidade, depois que a conversa telefônica de Trump com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, foi reportada a Adam Schiff, chefe do Comitê de Inteligência da Câmara e feroz inimigo do presidente, veio como uma surpresa para muitos.

O conteúdo da conversa telefônica, realizada em julho passado, poderia ser interpretado como uma prova de que o presidente americano estava condicionando uma ajuda militar à Ucrânia e uma visita de Zelenski à Casa Branca à abertura de uma investigação de corrupção sobre o filho de Joe Biden, vice-presidente de Barack Obama e o pré-candidato democrata mais provável de disputar as urnas com Trump em 2020.

Os democratas no Congresso dizem estar agindo apenas em defesa da nação, que estaria sendo constantemente atacada pelo comportamento indevido de Trump, e tentam apresentar um tom solene de dever cívico. Mas, às vezes, eles deixam escapar comentários que indicam que talvez eles acreditem que essa seja a única maneira de impedir que o presidente seja reeleito.

Já os republicanos estão atacando furiosamente os seus colegas democratas nas audiências na Câmara, mas ao falarem com a imprensa tentam passar um ar de tranquilidade e até divertimento com o processo que, segundo eles, não vai resultar em nada.

Centro das atenções

Para Trump, que não esconde que adora ser o centro das atenções e parece se reenergizar quando está envolvido em brigas, o impeachment pode ser usado como um instrumento poderoso para sua campanha em 2020. Afinal, um julgamento político em ano de eleição seria o sonho do presidente que por anos foi a estrela de um dos reality TV shows mais populares nos Estados Unidos, o The Apprentice (O Aprendiz), que fazia parte da programação de horário nobre da rede NBC, que hoje é uma das grandes inimigas do presidente.

Nesta terça (10) à noite, no mesmo dia em que os democratas anunciaram formalmente as acusações que vão basear o processo de impeachment, Trump fez um comício na cidade de Hershey, na Pensilvânia, um dos estados que lhe garantiram a vitória contra Hillary Clinton, em 2016, e aproveitou para pegar pesado no ataque aos democratas, chamando o processo de impeachment de “estúpido”.

Entre os três pré-candidatos democratas favoritos, dois são senadores – Bernie Sanders (Vermont) e Elizabeth Warren (Massachusetts). Sanders e Warren não devem estar felizes com a ideia de deixar o campo livre para Biden fazer campanha em janeiro – quando o impeachment provavelmente será julgado pelo senado. Isso ocorreria semanas antes das eleições primárias do partido que vão acontecer em fevereiro em estados importantes como Iowa, New Hampshire e Nevada.

Apesar de Biden ficar com o campo livre, o impeachment não deixa de também poder afetá-lo negativamente, pois expõe a ligação do seu filho com a Burisma, a empresa ucraniana do setor de energia que tem uma história de corrupção. Por mais que seus defensores insistam que já foi provado que não houve nenhuma atividade ilegal por parte do vice de Obama e sua família, fica difícil os eleitores verem com bons olhos o fato de Hunter ter recebido cerca de US$ 50 mil por mês para fazer parte da diretoria da Burisma, justamente enquanto Biden era encarregado das relações dos EUA com a Ucrânia

Próximos passos

O próximo passo do processo é a votação do impeachment na Câmara – e isso deve acontecer na semana que vem. É pouco provável que no atual ambiente extremamente partidário aconteçam surpresas em termos de votos. O impeachment deve ser aprovado na Câmara, de maioria democrata, mas depois disso terá de ser julgado pelo Senado, de maioria republicana. Um presidente americano, mesmo que sofra impeachment, somente é afastado do cargo se o Senado votar pelo seu afastamento. Os senadores republicanos já disseram que isso não vai acontecer.

Esta é a primeira vez em 100 anos que um presidente americano concorrendo à reeleição passa por impeachment. Richard Nixon – que, em 1974, renunciou antes de sofrer impeachment – e Bill Clinton – que, em 1998, sofreu impeachment, mas que não foi removido da Casa Branca pelo Senado – estavam no seu segundo mandato.

Peso da economia

No momento, as pesquisas não estão apontando uma mudança da opinião pública em relação a Trump (seu índice de aprovação está sempre em cerca de 41%) - e o impeachment não está ganhando impulso. Além disso, uma economia forte ajuda na reeleição de qualquer presidente, além de fazer com que seja difícil que a população apoie uma mudança drástica, como a remoção de um presidente.

No entanto, há um certo atrito entre Trump e o poderoso líder do Senado, Mitch McConnell (Kentucky). McConnell quer resolver a questão logo e rapidamente, enquanto que presidente quer um grande show que se arraste durante sua campanha.

Ironicamente, no mesmo dia em que os democratas anunciaram as duas acusações contra o presidente americano – que são abuso de poder e obstrução do Congresso, pela recusa da Casa Branca em colaborar com todas as exigências da Câmara na investigação sobre as ações presidenciais em relação à Ucrânia – foi também anunciado que a Casa Branca e os democratas haviam concordado em ter o novo acordo comercial dos EUA com o México e o Canadá, o USMCA, aprovado pela Câmara também na semana que vem.

Isso parece ser uma tentativa dos dois lados de agradar os eleitores que estão insatisfeitos com o desempenho dos políticos em Washington que parecem sempre colocar suas disputas partidárias à frente dos interesses da população.

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