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Linha Direta

Coronavírus: América Latina premia os líderes protetores e castiga os "negacionistas" do vírus

Áudio 05:59
Caixões de papelão nas ruas de Guayaquil, Equador, 08/04/2020
Caixões de papelão nas ruas de Guayaquil, Equador, 08/04/2020 REUTERS/Vicente Gaibor
Por: Márcio Resende
14 min

No dia 11 de março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a epidemia do coronavírus como uma pandemia. A partir desse alerta e do exemplo dramático do que acontecia na Europa, os presidentes latino-americanos que tomaram medidas drásticas ganharam popularidade. Já os que minimizaram o problema e expuseram a sua população ao contágio perderam capital político.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

No grupo dos governos ganhadores, aparecem os líderes de Argentina, Peru, Chile, mas também de El Salvador e da Guatemala. Entre os presidentes que perderam apoio popular aparecem México e Brasil, além do Equador.

Nesse grupo dos perdedores chama a atenção o Equador. O presidente Lenín Moreno não minimizou o problema como outros líderes e adotou o isolamento total com toque de recolher a partir das 14 horas. Mas as medidas foram tardias, insuficientes e, portanto, ineficazes.

O país vive do petróleo que perdeu metade do seu valor neste ano e já vinha em queda no ano passado. Para piorar, rompeu-se um dos dois oleodutos de exportação.

"A situação já era péssima, agora é caótica. O presidente tem dificuldades para tomar as medidas necessárias porque não há recursos", avalia à RFI o analista político equatoriano Simón Pachano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO).

Equador, o primeiro colapso na América Latina

Entre meados de fevereiro e meados de março, centenas de pessoas chegaram ao Equador em voos lotados da Espanha. Chegavam a Guayaquil, cidade que concentra hoje 71% dos casos de coronavírus no país.

A comunidade de equatorianos na Espanha chega a meio milhão. Muitos voltaram de férias e muitos fugiram da Europa para se refugiarem no seu país. Mas vários trouxeram o vírus sem saber e sem nenhum controle.

Guayaquil é uma típica cidade latino-americana com fortes desigualdades sociais: da classe alta, o vírus chegou aos bairros populares, onde famílias numerosas vivem numa mesma moradia precária.

"O confinamento é praticamente impossível. E essas pessoas vivem do que ganham diariamente, na informalidade", explica Pachano.

O sistema de saúde, que já era deficiente antes da pandemia, ficou saturado. Centenas de pessoas morreram nas suas casas e ali permaneceram durante dias, decompondo-se.

O colapso também chegou ao necrotério e ao sistema funerário. Não há caixões suficientes para enterrar as vítimas. Não há lugar para os mortos nos cemitérios e não há lugar para os vivos nos hospitais.

Guayaquil é hoje a Wuhan da América Latina. As autoridades perderam a capacidade de fazer testes. Acredita-se que a taxa de mortalidade real da Covid-19 no país seja superior à da Itália.

No ano passado, o governo aplicou um plano de austeridade que implicou a demissão de 3.500 profissionais da saúde.

"Campeões" de popularidade

Neste primeiro mês de medidas restritivas para "achatar a curva" da pandemia, os ganhadores foram aqueles presidentes que tomaram as medidas mais radicais.

"Talvez a melhor divisão para o que acontece na América Latina esteja no grau de acatamento de cada presidente às recomendações da OMS. Aqueles que mais cumprem com essas recomendações, melhor imagem têm. Aqueles que menos cumprem, pior imagem possuem", explica à RFI o analista político argentino, Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos União para a Nova Maioria.

Na Argentina, um dos primeiros países a proibir voos, fechar fronteiras e adotar o isolamento total e obrigatório, a popularidade do presidente Alberto Fernández subiu cerca de 30 pontos, rondando agora os 80% (79% segundo a consultora Analogías; 82%, segundo a Poliarquía).

"A sociedade argentina abraçou um pai protetor a quem defende tanto em termos pessoais quanto em termos de políticas de Estado", descreve o analista político argentino, Jorge Giacobbe.

No Peru, o presidente Martín Vizcarra viu a sua popularidade aumentar ainda mais: 35 pontos, de 52% para 87%, segundo a consultora Ipsos.

Vizcarra aplicou uma quarentena total no país, com toque de recolher, e anunciou uma ajuda financeira às famílias e às empresas em torno de 12% do PIB, a maior da região.

"Tenho estudado o caso peruano de perto e vejo que o Peru terá muitos problemas. Será um caso difícil. O número de contágios tem crescido numa velocidade impressionante", alerta, no entanto, o analista Simón Pachano.

No Chile, o presidente Sebastián Piñera conseguiu duplicar a sua popularidade, abalada por protestos populares contra desigualdade social. Piñera passou de 10% para 22%, segundo a consultora Cadem.

"Se o número de mortes se mantiver baixo, o governo Piñera terá um surpreendente renascimento. Não será suficiente para virar o jogo, mas será importante", avalia à RFI o sociólogo e analista político chileno Patricio Navia.

O sistema institucional chileno exibe a sua força e o sistema de saúde permite a taxa mais baixa de óbitos na região (1,2% a cada 100 mil habitantes). O Chile é o país que, proporcionalmente, mais testes diários faz.

"Piñera aproveita para mostrar os seus pontos fortes. É um pragmático que toma bem as decisões em tempos de crise. Demonstrou isso durante o terremoto de 2010 e durante o resgate dos 33 mineiros também em 2010. Ele conta com mais recursos e com mais capacidade instalada do que outros vizinhos", compara Navia, professor da chilena Universidade de Diego Portales e da norte-americana New York University.

Mas os campeões de popularidade estão na América Central. Segundo a consultora Mitofsky, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, atingiu 97% de popularidade e o da Guatemala, Alejandro Giammattei, 89%. Os dois praticamente fecharam o país, isolando-se do mundo.

El Salvador aplicou uma quarentena obrigatória, fechou o aeroporto internacional, suspendeu o pagamento de impostos e anunciou um ambicioso plano para sustentar a economia. O presidente guatemalteco também proibiu voos e aplicou uma quarentena total com toque de recolher.

Os latino-americanos tendem a se entregar à proteção do líder, ainda mais quando têm medo, dizem os analistas. "Quanto mais medo do coronavírus e quanto maior a sensação de proteção do Estado, melhor será a imagem do presidente e a aprovação das gestões. Isso é absolutamente linear", considera Jorge Giacobbe.

Os "perdedores" do apoio popular

No ranking dos perdedores de popularidade estão os presidentes que desdenharam o vírus: Brasil e México, as duas maiores economias da América Latina.

No México, o presidente Andrés Manuel López Obrador viu a sua popularidade cair 10 pontos, de 58,7% a 48,7%, segundo a consultora Mitofsky.

López Obrador minimizou a gravidade do assunto, pediu que os mexicanos saíssem para consumir e cumprimentou nas ruas os seguidores. Quando percebeu a queda na popularidade e a progressão geométrica do vírus, mudou de postura.

Quem não mudou de opinião foi o presidente Jair Bolsonaro. A sua popularidade caiu de 35% para 33%, segundo o Datafolha, ou até mais, de 34% a 28%, segundo a XP Investimentos. Já o seu ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a favor do isolamento social, subiu de 55% a 76%.

Novas provas de resistência

A região está a ponto de sair da primeira fase, a da prevenção, passando à fase seguinte em que os sistemas de saúde serão postos à prova e terão de responder à multiplicação dos casos. Ficarão expostas as fragilidades. A geografia social da região, com bolsões de desigualdade, aumenta esse risco, como o Equador alerta.

"Possivelmente, a situação do Equador encontre paralelos em zonas do Brasil, do México e do Peru. A capacidade de reação dos Estados será testada", adverte Simón Pachano.

A popularidade dos líderes também será colocada à prova na terceira fase: a de uma profunda recessão econômica que se avizinha.

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