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Quais os riscos de tomar hidroxicloroquina sem estar doente e por prevenção, como Trump?

Durante reunião na Casa Branca, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que está tomando hidroxicloroquina “há cerca de uma semana e meia” por precaução.
Durante reunião na Casa Branca, o presidente americano, Donald Trump, afirmou que está tomando hidroxicloroquina “há cerca de uma semana e meia” por precaução. AFP
Texto por: RFI
5 min

O presidente americano, Donald Trump, fez uma revelação surpreendente na segunda-feira (18), ao afirmar que está tomando hidroxicloroquina, um medicamento antimalária que divide os especialistas sobre sua eficácia no combate à infecção pelo novo coronavírus. O líder republicano garante que não está doente, mas resolveu usar o remédio como prevenção.

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Trump diz que está tomando a droga derivada da cloroquina “há cerca de uma semana e meia”. Ao ser questionado do porquê desta decisão, respondeu: "porque eu acho que é bom. Ouvi muitas boas histórias". “O que h a perder?”, questionou o presidente americano.

A resposta é: muito, segundo especialistas e organizações de regulamento de medicamentos. A começar pela indicação específica da hidroxicloroquina, que fornece um aumento da resposta imune do organismo para tratar doenças como o lúpus eritematoso sistêmico e discoide, a artrite reumatoide e juvenil, doenças fotossensíveis e a malária. A droga não tem eficácia comprovada contra o coronavírus.

Além disso, os efeitos colaterais da hidroxicloroquina ou da cloroquina são consideráveis. Os mais graves são possíveis reações cardiovasculares, como arritmias e paradas cardíacas, além de alterações do sistema nervoso central, que podem resultar em sensação de confusão, convulsões e até coma. Outros pacientes que utilizaram o medicamento também relatam cefaleia, irritações gastrointestinais, distúrbios visuais e urticárias.

A própria agência americana do medicamento (Food and Drug Administration) publicou recentemente um documento onde ressalta que não há provas que hidroxicloroquina ou a cloroquina sejam “seguras ou eficazes para o tratamento e a prevenção da Covid-19”.

Na França, a Agência Nacional da Segurança do Medicamento e dos Produtos de Saúde preveniu, em 14 de maio, que a molécula ingerida por Trump “pode aumentar problemas neuropsiquiátricos”, especialmente sintomas agudos de psicose e tentativas de suicídio. Além disso, o órgão alerta que a droga não deve “em nenhum caso” ser utilizada por conta própria e sem acompanhamento médico.

Até o momento, o governo francês autoriza a utilização da cloroquina contra o coronavírus nos hospitais e apenas para pacientes em estado grave.

A contestada eficácia da cloroquina contra a Covid-19

Desde o início da pandemia de Covid-19, a cloroquina e seu derivado ganharam fortes defensores. Além de Trump, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, insiste na utilização do remédio – que teria sido a causa da demissão de Nelson Teich da pasta da Saúde, quatro semanas após a demissão de Luiz Henrique Mandetta.

No Brasil, a prescrição do medicamento foi liberada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) para situações específicas, se o médico estiver de acordo e sob o consentimento do paciente. No entanto, não há consenso na classe médica sobre a utilização geral da cloroquina e da hidroxicloroquina para tratar pacientes contaminados pelo coronavírus.

Na França, o remédio foi administrado em experimentos realizados pelo médico Didier Raoult no hospital de Marselha, sul do país, para a revolta geral da classe médica. Raoult defende os resultados positivos da cloroquina, associada ao antibiótico azitromicina, em doentes contaminados pelo coronavírus.

No entanto, para o Conselho Nacional da Ordem dos Médicos da França, o especialista “coloca em risco seus pacientes (…) com tratamentos que não foram validados cientificamente”. Diversos representantes da comunidade científica do país pedem que o medicamento seja rigorosamente testado e validado – o que ainda não é caso.

Na semana passada, dois estudos científicos publicados pela revista britânica BMJ concluíram que a hidroxicloroquina é pouco eficaz contra o coronavírus. A primeira pesquisa, realizada por um grupo de cientistas de hospitais parisienses, mostrou que a molécula não reduz os riscos de morte e de casos graves. Um segundo estudo, realizado por uma equipe de cientistas chineses, apontou que a hidroxocloroquina não elimina o vírus mais rapidamente que outros tratamentos tradicionais utilizados para tratar versões leves ou moderadas da Covid-19.

Declaração de Trump surpreende imprensa americana

O anúncio do presidente sobre a automedicação surpreendeu a imprensa americana. No canal de TV Fox News, partidário de Trump, o apresentador Neil Cavuto se mostrou intrigado com a revelação.

“Essa é uma decisão que não deve ser tomada por acaso, por aqueles que estiverem nos assistindo em casa, assumindo que se o presidente dos Estados Unidos está fazendo isso, é porque está correto”, declarou.

Cavuto ainda se justificou, afirmando que seu objetivo não era incitar um debate político. “Mas isso é uma questão de vida ou morte. Sejam muito, muito cuidadosos”, recomendou o apresentador.

Vários jornais e sites americanos de notícias também reagiram à decisão de Trump de tomar hidroxicloroquina por precaução. O site do jornal The New York Times publicou uma matéria com todas as possíveis dúvidas dos leitores sobre a utilização da droga.

“Não há evidências que a hidroxicloroquina possa prevenir contaminações por coronavírus”, afirma o texto. O jornal lembra que o remédio é aprovado pela agência americana de regulação de medicamentos, “mas para malária, lúpus e artrite reumatoide, não para Covid-19”.

Atualmente, nos Estados Unidos, “essa droga só deve ser utilizada em testes clínicos ou hospitais onde os pacientes podem ser rigorosamente monitorados por problemas cardíados”, finaliza a matéria.

 

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