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Linha Direta

Aliados regionais de Bolsonaro se distanciam da política sanitária do Brasil

Áudio 06:22
A quarentena aplicada em vários países da América Latina, diferentemente do Brasil, o país mais atingido pelo coronavírus na região.
A quarentena aplicada em vários países da América Latina, diferentemente do Brasil, o país mais atingido pelo coronavírus na região. AP - Natacha Pisarenko
Por: Márcio Resende
13 min

Amigos, amigos; vírus à parte. Os aliados políticos e econômicos de Bolsonaro na região - Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai - adotaram o distanciamento do Brasil em matéria de saúde. 

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Historicamente, o Brasil exerceu um papel de referência pela iniciativa e pelo equilíbrio para os países sul-americanos. Nesta pandemia, porém, o papel do Brasil é o oposto ao de todos os seus vizinhos, incluindo aqueles com afinidade ideológica como Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai. E nenhum deles levantou a bandeira da cloroquina.

Nesses países, os governos de direita adotaram rígidas medidas restritivas que incluíram a quarentena total e obrigatória, além do toque de recolher, como os casos de Paraguai e Chile.

Além disso, nenhum amigo de Bolsonaro na região desvalorizou a gravidade da pandemia e, mesmo em sintonia com a visão liberal da economia, os líderes de Chile, Colômbia, Paraguai e Uruguai priorizaram a saúde e assumiram a liderança no combate ao coronavírus em coordenação com governadores e prefeitos dos seus países.

Países vizinhos ouvem cientistas

"A diferença básica com os demais governos vizinhos e aliados de Bolsonaro é a relação com os cientistas e as recomendações médicas como guia. O fato de serem de direita não significa que compartilhem essa questão anticientífica e antirracional presente do governo brasileiro", explica à RFI o sociólogo e analista político argentino Ariel Goldstein, especializado em política brasileira.

Todos os países da região, de direita ou de esquerda, tomaram a decisão de um confinamento ainda em março. As medidas restritivas serviram para ganharem tempo e prepararem o sistema de saúde, além de conscientizar sobre a chamada "nova normalidade".

Agora, dois meses depois, a partir dos bons resultados obtidos, avançam com planos de retomada gradual das atividades econômicas.

"Com uma quarentena total, o Brasil teria evitado muitas mortes e talvez estivesse num colapso social. Agora, corre o risco dos dois colapsos juntos: o de saúde e o social. Os vizinhos evitaram as mortes e tentam, gradualmente, levantar a economia", compara Goldstein.

O Brasil, diferentemente dos seus vizinhos ainda tem um agravante: a alta densidade demográfica.

"No Brasil, combinaram-se três aspectos: grande concentração de população, sistema de saúde deficiente e a incompetência presidencial. Essas três características juntas não existem em nenhum outro país da região", aponta Ariel Goldstein, autor do livro "Bolsonaro, a democracia do Brasil em perigo".

"Meu amigo, Marito"

O presidente Jair Bolsonaro sempre fez alarde da sua amizade com o presidente paraguaio, Mario Abdo Benítez, a quem chama de "Marito", mas o Paraguai foi o primeiro país a adotar a quarentena total e obrigatória, em 11 de março. O lockdown paraguaio incluiu um cerco à capital Assunção. Ninguém entrava, ninguém saía.

No começo de maio, com a queda da circulação do vírus, o presidente Mario Abdo adotou o que chama de "quarentena inteligente": uma gradual flexibilização das restrições.

Atualmente, o Paraguai tem 580 contagiados ativos, a maioria é de paraguaios que chegaram do Brasil. Apenas 11 pessoas morreram no país de 7 milhões de habitantes.

Recentemente, o presidente paraguaio recusou-se em abrir a fronteira para atender ao pedido dos comerciantes de Cidade do Leste, na fronteira com o Brasil, para priorizar a economia. Segundo ele, o Brasil representa "uma grande ameaça ao Paraguai".

"Quando disse que é uma ameaça o que está acontecendo no Brasil, não foi de uma forma depreciativa com um povo irmão, mas uma referência a algo objetivo que está acontecendo no Brasil: uma considerável propagação do vírus", repetiu Mario Abdo nesta semana.

Sintonia econômica com o Chile

A amizade entre os presidentes Jair Bolsonaro e o chileno Sebastián Piñera nasceu ainda durante a campanha de 2018, quando o Chile foi anunciado como o modelo econômico a ser seguido.

Para além de os governos de Brasil e Chile coincidirem na visão liberal da economia, o presidente Sebastián Piñera quis adotar um equilíbrio entre saúde e economia durante o combate ao coronavírus, mas a estratégia fracassou. Desde o dia 16 de maio, a região metropolitana de Santiago, onde vivem 42,5% da população, está sob quarentena total.

Em março, o Chile adotou a chamada "quarentena estratégica e dinâmica" que consistia em bloquear apenas setores de Santiago ou aquelas cidades com maior circulação do vírus. Há uma semana, essa estratégia precisou mudar, a partir do aumento elevado do número de casos. Com 19 milhões de habitantes, o Chile tem 544 mortos por coronavírus.

A estratégia chilena consiste em testar até 15 mil pessoas por dia, o número mais elevado de testes na região, dez vezes mais do que a Argentina, por exemplo.

"O problema da região para conseguir o equilíbrio entre saúde e economia é que não há por aqui um sistema de saúde robusto e o coronavírus já provou colapsar os sistemas de saúde", observa Ariel Goldstein.

Choque de modelos na fronteira Brasil-Colômbia

Com 50 milhões de habitantes e 630 mortos, a Colômbia é o país com mais concentração demográfica.

O presidente Iván Duque, outro aliado de Bolsonaro, também adotou, em março, uma quarentena obrigatória. O país já está num movimento de flexibilização das restrições, mas, na fronteira com o Brasil, a situação é o contrário: a ameaça brasileira levou o governo colombiano a adotar um lockdown.

Enquanto a cidade amazônica de Tabatinga, no Brasil, está aberta, a cidade colombiana de Leticia está em quarentena sem que haja nada que separe uma cidade da outra. As duas se fundem numa mesma urbe. E a maior parte dos contágios colombianos vem do lado brasileiro.

É o ponto de encontro da contradição entre a política adotada pela Colômbia e a não adotada pelo Brasil.

O exemplo uruguaio de quarentena recomendada

O caso uruguaio permite a comparação de comportamento dos povos; não apenas dos governos.

O Uruguai não adotou uma quarentena obrigatória, mas recomendada. A diferença é que os uruguaios acataram a recomendação à risca sem necessidade de lockdown. Para o governo de Luis Lacalle Pou, se os cuidados são tomados e se o distanciamento social é respeitado, as pessoas podem sair de casa. Essa questão de comportamento faz a diferença hoje para o Uruguai começar a sua flexibilização.

O Uruguai é hoje o mais próximo de conseguir um equilíbrio paulatino entre saúde e economia, sempre a partir da recomendação de um comitê de cientistas. Com 3,5 milhões de habitantes, o país tem 20 falecidos.

"Com a sua cultura política, institucional e de apego às normas, a população uruguaia precisou apenas de uma recomendação. O governo uruguaio fechou os setores da economia, mas os cuidados dependeram da própria população. E quando se apela à colaboração da população, é provável que os uruguaios atendam mais do que os brasileiros ou do que os argentinos", conclui o sociólogo Ariel Goldstein.

 

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