Linha Direta

Caos social na América Latina propicia propagação da Covid-19

Áudio 04:50
A fome e o cansaço estão falando mais alto do que o medo do coronavírus na América Latina.
A fome e o cansaço estão falando mais alto do que o medo do coronavírus na América Latina. AP - Natacha Pisarenko

A cada semana, a Organização Mundial da Saúde renova o alerta mundial sobre a América Latina e os países mais afetados da região, Brasil, México, Peru, Equador e Chile renovam os seus trágicos recordes de vítimas. Apesar disso e na contramão da lógica sanitária, a região, que já responde por 40% das mortes por coronavírus no mundo começou a relaxar as suas restrições.

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

Se a Europa só começou a flexibilizar depois do ponto máximo de contágio, na América Latina, países como Brasil, México, Peru e Equador, os mais afetados da região, flexibilizam restrições quando ainda faltam semanas para pico epidêmico.

Nesta semana, depois de dois meses de restrições, começou um processo de reabertura de atividades comerciais, industriais e de transporte. Parte da população está cansada do confinamento e parte tem a necessidade de trabalhar.

Ao contrário da Europa, metade dos trabalhadores da América Latina são informais que vivem do que arrecadam no dia. A vulnerabilidade social vê na fome um inimigo mais temível do que o coronavírus.

"É aparentemente irracional ver países que decidem abrir antes de chegarem ao auge da curva de contágio, mas há certo grau de racionalidade por trás disso. A realidade da América Latina é brutal e força uma flexibilização porque as pessoas não ficam em casa para morrerem de fome. Preferem buscar o sustento. A fome é uma certeza; o vírus, uma possibilidade", explica à RFI a economista chilena Marta Lagos, diretora da organização Latinobarómetro, que mede a percepção social na região.

A isso, soma-se o interesse de arrecadação de estados e municípios e o interesse de vendas das empresas. "Os governos precisam enfrentar as duas pandemias, a da fome e a do vírus. Ao reconhecerem implicitamente as suas limitações para combaterem o vírus, tentam, pelo menos, salvar a economia", indica a economista.

Brasil e México, unidos pelo negacionismo

O México tem traços semelhantes com o Brasil. Assim como o presidente Jair Bolsonaro, o líder mexicano Andrés Manuel López Obrador minimiza o perigo do vírus. E assim como acontece no Brasil, no México a decisão de isolamento também depende de governadores e prefeitos. Apesar de 31 dos 32 estados mexicanos continuarem em "risco máximo", López Obrador defende a flexibilização e anunciou um plano de reabertura da economia. O presidente mexicano garante que o pior já passou.

A capital, Cidade do México, por exemplo, com mais de um milhão e meio de mortos, tem um plano de reabertura gradual a partir de 15 de junho, mesmo quando as UTIs estão no limite do atendimento.

Equador, do colapso à flexibilização

Apesar de o vírus avançar no Equador, o país também adotou uma flexibilização a partir de um sistema de alertas como um semáforo. Na semana passada, Guayaquil, que viveu um colapso sanitário e funerário em abril, passou de vermelho a amarelo, reabrindo atividades. Nesta semana, foi a vez da capital, Quito, passar ao amarelo. E a previsão é que passe a verde em meados do mês.

"É muitas empresas formais dependem da força de venda dos informais para colocarem os seus produtos nas ruas. Portanto, aqui no Equador, a economia formal depende da informal", aponta à RFI o cientista político equatoriano, Simón Pachano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (FLACSO).

Peru, onde a flexibilização se impôs na prática

No Peru, oficialmente, a quarentena vai até 30 de junho, mas o governo peruano foi obrigado a flexibilizar parcialmente algumas atividades, sobretudo a que envolve trabalhos informais depois que a população, por força da necessidade de trabalho e do cansaço, deixou de acatar as restrições.

"Por um lado, os países latino-americanos têm um grande setor informal da economia. É gente que, se não trabalhar naquele dia, praticamente não come. Por outro lado, as pessoas já estão nas ruas em vários países da região. As quarentenas desfazem-se por força da realidade", coincide Simón Pachano.

O Peru é um caso curioso: o país fez tudo certo, mas deu tudo errado. O governo aplicou uma quarentena com toque de recolher logo cedo e anunciou uma ajuda financeira equivalente a 12% do PIB, a mais alta de toda a região.

Mas a realidade social se impôs: mais de 70% dos peruanos têm trabalhos informais e convivem com um precário sistema de saúde. Menos da metade da população tem geladeira (49%), dificultando o confinamento. Apenas 38% têm conta bancária, dificultado a chegada da ajuda financeira.

Chile, exemplo do perigo de flexibilizar

A flexibilização no Chile foi anterior às restrições, indicando o risco de flexibilizar antes da hora. Em março, o presidente Sebastián Piñera quis adotar um equilíbrio entre saúde e economia, através de um sistema de "quarentena rotativa" que consistia em bloquear apenas setores de com maior circulação do vírus. O sistema fracassou.

Desde do dia 16 de maio, a região metropolitana de Santiago, onde vive 42,5% da população, está sob quarentena total, mas somente 30% têm acatado as restrições. Agora, o sistema de saúde em Santiago opera com 98% da sua capacidade e está à beira do colapso.

No mês passado, violentos protestos numa zona empobrecida ao Sul de Santiago mostraram a realidade social: os manifestantes pediam trabalho e alimentos contra a fome.

"O sistema rotativo fracassou e a quarentena total também está fracassando. O vírus chegou aos bairros mais pobres de Santiago e as pessoas passaram a gritar 'fome'. O governo chileno subestimou a pobreza. Foi um choque de realidade perceberem o nível de vulnerabilidade e de pobreza que existe em Santiago", aponta Marta Lagos, da Latinobarómetro.

Segundo o Programa Mundial de Alimentos da ONU, a insegurança alimentar provocada pelo coronavírus pode atingir 14 milhões de pessoas na América Latina. Esse número é quatro vezes maior do que os 3,4 milhões do ano passado. Além disso, cerca de 46 milhões de pessoas podem entrar numa situação de pobreza (30 milhões) ou de miséria (16 milhões).

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