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“A reforma número 1 é diminuir o poder e recursos dos policiais”, diz cientista político americano

Áudio 06:35
O cientista político Ollie Johnson
O cientista político Ollie Johnson © clas.wayne.edu

A morte de George Floyd expôs as práticas violentas da polícia americana contra os negros, desencadeando uma mobilização na luta contra o racismo além das fronteiras dos Estados Unidos. O impacto dos protestos criou o ambiente necessário para efetuar as reformas profundas na sociedade americana em favor da igualdade racial, estima o cientista político Ollie Johnson, do departamento de estudos afro-americanos da Wayne State University, de Detroit.

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“A morte do George provocou muitas emoções: raiva, tristeza, depressão, ânimo. Foi uma coisa chocante”, resume o especialista, que tem uma longa trajetória acadêmica focada no estudo das relações raciais nos Estados Unidos e também em países latino-americanos, principalmente o Brasil.

George Floyd, reconhece o acadêmico, se tornou um “símbolo da luta pela igualdade, justiça e liberdade”. “Temos que continuar essa luta para realmente mudar o sistema que está aí. Mas precisamos de mudanças profundas, de reformas de base no sistema político, econômico e social”, defende.

Uma dos principais avanços deverá vir do sistema policial, profundamente abalado desde que o policial branco Derek Chauvin provocou a morte de Floyd ao imobilizá-lo por mais de oito minutos com um joelho em seu pescoço, impedindo-o de respirar.

Ollie Johnson lembra que o departamento policial da cidade de Minneapolis, palco da tragédia, foi considerado modelo nacional. “Eles  (policiais) tinham implantado muitas reformas e, mesmo assim, isso aconteceu. Precisamos de reformas, mas temos que ir além das reformas básicas de treinamento, de anti-preconceito. Temos que mudar realmente a cultura e a mentalidade, não apenas dos policiais, mas da sociedade como um todo”, reitera.

Para provocar um verdadeiro choque de mentalidade na sociedade americana, Ollie Johnson elege como reforma estrutural mais urgente a transferência do poder econômico das polícias para outros setores essenciais. 

“A reforma número 1 é diminuir o poder e os recursos dos policiais. Eles têm muito dinheiro, e representam uma parcela profunda do orçamento do Estado, da cidade e da nação. Temos que diminuir o dinheiro que vai para os policiais e colocar esses recursos na saúde, na educação, inclusive na saúde mental. Muitas vezes os policiais entram em situações em que eles não têm condições de resolver. E eles não podem ter treinamento suficiente para tratar os problemas da comunidades. Temos que realmente procurar outros caminhos para a comunidade e a nação”, argumenta.

Avanços simbólicos

A eleição de Barack Obama, o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, representou um avanço simbólico, mas não provocou as mudanças que considera necessárias para corrigir distorções históricas. “Ele é um político moderado, que fala bem, mas não apresentou uma agenda de reformas. Ainda hoje ele continua falando de esperança e mudança. É o slogan da campanha dele. Isso é importante, mas não o suficiente.”

Na entrevista à RFI de sua casa em Detroit, onde se encontra em isolamento social, Ollie Johnson também expôs sua preocupação com a reprodução de práticas policiais do país  onde os Estados Unidos têm presença militar.

“Os Estados Unidos têm mais de 800 bases militares no mundo inteiro. Isso representa uma presença complicada. Não ajuda porque, infelizmente, nossos militares fazem as mesmas coisas em outros países que os policiais fazem aqui dentro do país. Essa é a discussão que temos que ter, está tendo nas ruas, mas tem que chegar no Congresso, nas assembleias estaduais, nas câmaras municipais. Está na rua mas ainda não chegou não poder”, diz.  

A mobilização popular que tomou conta das ruas de diversas cidades americanas, com a popularização do slogan “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam) traz esperança para o fim da impunidade policial contra os negros e por mudanças, diz o pesquisador. “Temos que afirmar ‘Vidas Negras Importam’. Não se pode matar negros sem consequências, isso tem que acabar. Infelizmente, temos uma história de 400 anos, mais 40 anos de escravidão, 100 anos de segregação racial e os últimos 60 anos de discriminação formal e informal. Muita gente estava querendo crer que entramos no mundo pós racial, que a gente estava se transformando no Brasil, em uma democracia racial, isso não é verdade”, insiste.

Pior no Brasil do que nos EUA

Com diversos livros e artigos escritos sobre questões raciais no Brasil, Ollie Johnson também acompanhou com grande interesse a repercussão da  morte de Floyd no país. “Teve grande impacto no Brasil, como nos outros países. Foi uma coisa boa porque mostra que o povo, a humanidade reconhece que um grande mal foi feito e precisa mudar nos Estados Unidos”. 

Mas ao fazer um paralelo entre as realidades das sociedades americana e brasileira, o professor da Wayne State University não hesita em dizer que algumas questões raciais são muito mais complicadas no Brasil.

“Acho que a repressão contra o negro brasileiro pode ser pior do que contra o negro americano. Nos últimos 20 anos, sobretudo durante os governos do PT, muitas políticas sociais e públicas foram implementadas, sobretudo para dar mais oportunidade para a classe trabalhadora e para homens e mulheres negros na sociedade e na política. Isso foi um grande avanço, mas mesmo assim, tem a violência e a brutalidade policial, a discriminação contra os negros, homens, mulheres e crianças. Isso é uma coisa muito triste”, lamenta. 

Autor de vários estudos que analisam a presença de negros no cenário político brasileiro, Ollie Johson sustenta que o país precisa de reformas profundas para avançar na luta contra o racismo, ao mesmo tempo que elogia as pautas dos movimentos negros no Brasil

“E eu diria que o Brasil precisa também de reformas profundas em relação à questão racial. Basta você ver, quem manda no Brasil? Homem branco e rico. Benedita da Silva já disse isso há 30 anos, assim como outros líderes como Abdias Nascimento. O movimento negro está na rua e concordo com sua agenda, no Brasil e nos Estados Unidos. Mas transformar a agenda do movimento e dos partidos em políticas públicas é outra coisa. Mudar instituições e estruturas é outra coisa, é muito mais difícil. Há poucos políticos negros, está difícil chegar a um cargo eletivo quando não se tem dinheiro, nem instituições com poder. Mas isso tem que mudar”, conclui 

 

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