Linha Direta

EUA: um país de contrastes na maneira de lidar contra a Covid-19

A academia de jiu jitsu na Califórnia durante a pandemia reuniu mais de 100 membros como forma de resistência às medidas de confinamento do governo local.
A academia de jiu jitsu na Califórnia durante a pandemia reuniu mais de 100 membros como forma de resistência às medidas de confinamento do governo local. © Arquivo Pessoal

Esta semana é marcada por mais de 100.000 mortes pela Covid-19 e cerca de 2 milhões de casos de coronavírus confirmados nos Estados Unidos, mas o país vive realidades diferentes na maneira com que está lidando com a pandemia. Enquanto o coronavírus continua matando americanos e protestos contra racismo inflamam as grandes cidades, outras regiões do país vivem como se não fizessem parte desse preocupante cenário.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Com a chegada de dias ensolarados os americanos estão mesmo começando a sair de casa e muitos não veem a hora de voltar a frequentar bares e beber cerveja com amigos. Os protestos contra o racismo e a brutalidade policial contaram com a participação de milhares de pessoas e tomaram conta das grandes cidades. As manifestações fizeram muita gente achar que não precisa mais ficar em casa e continuar o distanciamento social, mesmo que os últimos dados indiquem que ainda é necessário manter cautela.

A primeira onda de casos se concentrou em metrópoles como Nova York e Chicago, mas as porcentagens mais altas de novas contaminações agora se encontram em localidades com população mais baixa, além de municípios rurais. Muitos dos lugares que passaram a ser mais atingidos alegavam, até então, que mesmo sem nunca terem imposto tantas restrições como os estados de Michigan, Califórnia, Nova Jersey e Nova York, conseguiam controlar a pandemia melhor que os estados com medidas mais restritivos. Os estados que adotaram mais restrições são governados por democratas e, assim, a pandemia também foi politizada na eterna batalha entre os conservadores republicanos e os liberais democratas.

Democratas X Republicanos

Como é de se esperar, até dados estatísticos são motivo de polêmica, pois podem ser interpretados de modo diferente. O jornalista Alex Berenson, autor de um livro recém lançado que já ocupa a terceira posição entre os mais vendidos da Amazon, Unreported Truths about Covid-19 and Lockdowns: Part 1: Introduction and Death Counts and Estimates (Verdades Não Relatadas sobre Covid-19 e Confinamentos: Parte 1: Apresentação e Totais e Estimativas de Mortes, em tradução livre), alertou nesta quinta (11) pelo Twitter que é importante não confundir dados. Segundo ele, um aumento de testes positivos não deve ser motivo de pânico, uma vez que a grande maioria dos contaminados não precisa ser hospitalizada. Além disso, Berenson lembra que, em muitos casos, o recente aumento de internações em alguns estados se dá devido à retomada de procedimentos adiados e não relacionados ao coronavirus.

No entanto, vários governadores democratas declararam nesta semana vitória sobre seus colegas republicanos. O governador de Nova Jersey, Phil Murphy, tuitou nesta quinta (11) que os estados que não levaram a sério o perigo da Covid-19 e se adiantaram em reabrir o comércio agora estão vendo os casos da doença aumentar.

Em Nova Jersey, os números estão caindo. Dos 14 estados que agora atingiram sua média mais alta de casos de Covid-19 em um período de sete dias, que incluem Alasca, Arizona, Califórnia, Tennessee, Utah e Texas, cinco são democratas.

Quando o assunto envolve algo complexo e possivelmente fatal, como uma pandemia, é melhor não basear a tomada de decisões de saúde em disputas políticas, mas isso não tem acontecido. Um exemplo é a politização inclusive de medicamentos, como a hidroxicloroquina. Os apoiadores de Donald Trump promovem a droga, simplesmente porque o presidente diz ser promissora. Já a oposição alerta sobre os perigos da hidroxicloroquina. De fato, a droga devia estar fora da política, com seu uso sendo discutido apenas entre médicos e seus pacientes.

Aumento de casos em regiões rurais

Mas, independentemente de rivalidades políticas, é preocupante o aumento de casos em regiões rurais onde a infraestrutura é fraca e não pode suportar um grande número de hospitalizações. E o número de infectados aumenta justamente em comunidades mais pobres que, além de não contarem com os melhores recursos médicos, também têm um número maior de pessoas com comorbidades. Assim, os riscos da Covid-19 são mais altos para essas comunidades.

Nesta semana, não faltaram manchetes nos noticiários e jornais americanos alertando que o pior ainda está por vir para os estados que acham que escaparam da pandemia sem grandes danos. Um dos estados que, segundo dados da Johns Hopkins University, está tendo um dos picos mais altos é o Arizona. Mesmo assim, ele foi um dos primeiros a retornar à vida praticamente normal, com inclusive bares e academias já em operação.

O governo estadual ainda recomenda manter distância e lavar as mãos constantemente. Mas as recomendações são bem genéricas e apenas incentivam as pessoas a usar o bom senso. Apesar de o número de casos no estado ter aumentado, o saldo de mortes diminuiu. O escritor Jon Gabriel aproveitou o relaxamento das regras para tomar um chope com amigos em uma cervejaria da cidade de Gilbert, Arizona.

“Fora ver o pessoal que atendia de máscara, ir a um bar pela primeira vez em meses foi bem normal. As pessoas estavam mais espalhadas, mas todo mundo estava se divertindo”, diz Gabriel.

Mesmo nos estados com medidas mais radicais de confinamento, como a Califórnia, algumas pessoas se recusaram a mudar sua rotina por causa da pandemia. Um desses casos, é Kevin Baker, veterano de guerra no Iraque. A academia de jiu jitsu que ele frequenta decidiu resistir contra o que muitos consideraram um abuso de autoridade quando as autoridades californianas fecharam até praias e parques. A academia Peerless Jiu Jitsu BJJ, que, por ironia do destino, fica localizada em Corona, Califórnia, nunca fechou nem implementou medidas para a contenção do coronavírus.

“Ser forçado ao isolamento, não poder se comunicar nem interagir com as pessoas, sem dúvida, fez com que os casos de suicídio aumentassem. Praticar jiu jitsu é uma válvula de escape. A reação ao coronavírus é pior que o próprio vírus, especialmente para veteranos de combate de guerra que precisam da arte marcial como meio de confraternização”, diz Baker.

“Não dá para deixar de viver »

Na chegada da pandemia aos EUA, o estado da Flórida foi duramente criticado por não ter respondido de acordo com a gravidade da ameaça e permitindo que parques de entretenimento e praias permanecessem abertos. Mas as autoridades do estado, logo revisaram suas diretrizes que passaram a ser mais restritivas. A arquiteta brasileira Viviane Sperb, que reside na região de Orlando, tentou manter o máximo de normalidade possível para sua filha Nathalie, de 9 anos, indo com a família algumas vezes para as praias da Flórida que estavam abertas. Mas a menina teve de interromper por algumas semanas as lições de patinação, seu esporte preferido.

“Não dá para deixar de viver, se não vamos ficar loucos”, diz Sperb.

Em algumas regiões dos Estados Unidos, as medidas continuam firmes. Esta semana houve um caso em Jenkintown, Pensilvânia, em que a polícia foi chamada para retirar de um restaurante da cadeia Boston Market uma mãe que estava com o filho autista de 10 anos sem máscara, pois o menino não suportava usar a proteção em um dia de calor de quase 30 graus Célsius.

Medidas variam em cada cidade

O nível de conformidade com as ordens dos governos locais depende de cada cidade. Com a exceção dos protestos das últimas semanas em que o distanciamento social foi totalmente ignorado - mas, mesmo assim, a grande maioria dos participantes usava máscara para conter a contaminação pelo coronavírus -, a grande diferença no modo de lidar com a contenção do vírus se dá entre comunidades que, de modo geral, são compostas por trabalhadores sem nível universitário e membros das classes média e baixa, e as populações das grandes cidades, que contam com renda e nível de instrução mais altos.

O estado da Virginia é um exemplo disso. O governador democrata, Ralph Northam, tomou desde o início algumas das medidas mais restritivas e, pouco antes do comércio voltar gradualmente a abrir, determinou que todos os estabelecimentos comerciais teriam de exigir que os clientes usassem máscaras.

Na região norte do estado, subúrbio de Washington e onde se encontram alguns dos municípios mais ricos do país, somente nesta semana as lojas começaram a abrir, os restaurantes oferecem serviço limitado, e não se vê pessoas sem máscara em estabelecimentos públicos.

Já em Virginia Beach, que fica a poucas horas de Washington, a realidade é muito diferente. Nessa cidade praiana, as pessoas circulam sem se preocupar em manter distanciamento e a maior parte das lojas e restaurantes não pede que a freguesia use máscara. Mesmo nas lojas maiores, como a Target, que exibem notificações na entrada exigindo a proteção, muitas pessoas entram sem o equipamento e não são barradas.

O eleitorado de VA Beach é divido entre os partidos republicano e democrata, e o município tem um grande número de militares, trabalhadores sem nível universitário. Cerca de 20% da população é composta por afro-americanos. Na última semana, tanto o número de casos quanto de mortes por Covid-19 aumentaram no município.

Em Nova York, cidade de maioria democrata, as lojas continuam fechadas e as ruas relativamente vazias, apesar de a metrópole já ter passado pela sua pior fase da pandemia.

Impacto na presidencial de novembro

A crise do coronavírus certamente influenciará a eleição presidencial que será realizada em 3 de novembro. Nesta quinta (11) o Comitê Nacional Republicano (RNC, na sigla em inglês) anunciou que vai realizar sua convenção, em agosto, em Jacksonville, na Flórida. O estado tem como governador o republicano Ron DeSantis.

A convenção deveria ser realizada em Charlotte, na Carolina do Norte, mas o governador democrata Roy Cooper não garantiu que permitiria a RNC encher a Spectrum Arena com 19 mil pessoas, conforme Trump gostaria. Essa decisão tanto pode ser vista como perigosa por poder causar um aumento nos casos da Covid-19, como também vantajosa para a economia local. E esses dois fatores devem influenciar os eleitores da Flórida e da Carolina do Norte, estados que podem decidir a eleição.

Além disso, se houver mesmo uma nova forte onda de hospitalizações e mortes pela Covid-19, isso assustará os investidores, fazendo com que a economia americana sofra ainda mais. Esse cenário prejudicaria o atual presidente na sua tentativa de ser reeleito. Mas, se a previsão de Trump de que a economia americana vai ter um crescimento rápido e robusto se tornar realidade, as chances do democrata Joe Biden vencer nas urnas ficam mais baixas.

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