Autor de livro polêmico sobre coronavírus critica alarmismo e politização excessiva da pandemia

Alex Berenson, jornalista que lançou um livro questionando as respostas à pandemia da Covid-19.
Alex Berenson, jornalista que lançou um livro questionando as respostas à pandemia da Covid-19. © Arquivo Pessoal

O jornalista Alex Berenson já foi uma das estrelas do poderoso diário The New York Times, mas a pandemia do coronavírus fez com que ele passasse a criticar a imprensa, políticos e especialistas em saúde por se basearem apenas no que acredita serem modelos científicos alarmistas e promoverem pânico.

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Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

Com base em fontes oficiais globais, incluindo dados governamentais e de instituições de saúde pública, o jornalista escreveu o livro Unreported Truths About Covid-19 and Lockdowns. Part 1: Introduction and Death Counts and Estimates (Verdades não reportadas sobre a Covid-19. Parte 1: Apresentação e totais de mortes e estimativas, em tradução livre), que questiona a eficácia das medidas de confinamento para combater a Covid-19.  

O livro, que tem sido motivo de polêmica nas redes sociais e até mesmo confronto entre dois gigantes do mundo tecnológico e da internet, Elon Musk e Jeff Bezzos, foi lançado recentemente nos EUA e já está entre os 10 mais vendidos na Amazon. Esta semana, foi publicado também na França.

No início deste mês, Berenson tuitou uma captura de tela que mostrava que a Amazon alegava que seu livro sobre Covid-19 não estava de acordo com as diretrizes da gigante de vendas pela internet. Isso chamou a atenção do CEO da Tesla e Space X que não esconde defender o liberalismo e se opor ao confinamento. Musk tuitou, marcando o autor e Bezos, que a atitude da Amazon era “insana” e estava na hora de desmantelar a companhia, pois “monopólios são errados”.

A declaração de guerra fez com que a Amazon logo se retratasse dizendo que a recusa em vender o livro tinha sido causada por um erro que, depois da mensagem de Musk, foi imediatamente corrigido. Berenson é também autor de romances de espionagem, incluindo O Espião Fiel, série que tem como personagem principal o espião John Wells e baseado na ocupação do Iraque.

A seguir, trechos da entrevista de Alex Berenson à RFI Brasil:

Quando e por que você começou a coletar dados sobre o coronavírus?

Comecei a coletar e examinar dados em março. Acho que todos nós estávamos muito interessados no coronavírus, à medida que o vírus se espalhava da China. Eu, como muita gente, estava muito nervoso com isso. Depois, em meados de março, comecei a notar que as mortes tinham uma incidência muito maior entre pessoas bastante idosas. Isso me fez questionar se o vírus era realmente tão perigoso para as outras pessoas como nos diziam. Comecei a olhar para os modelos que estavam sendo usados nos Estados Unidos e em todo o mundo e os dados que vinham da Itália. O meu ponto de vista não foi bem recebido em março e abril e continua a não ser popular. Mas antes, realmente não era bem aceito dizer que talvez a gente tenha ido longe demais com esses confinamentos.

O seu livro, apesar de estar entre os mais vendidos da Amazon, não foi bem recebido pela própria companhia que não queria publicá-lo. Isso fez com que o empresário Elon Musk intercedesse em seu favor e criticasse a Amazon e seu proprietário, Jeff Bezos, que também é dono do diário Washington Post. Se é verdade que os dados indicam que confinamentos talvez não sejam a maneira mais eficaz de lidar com essa pandemia, por que isso não é divulgado?

Não posso falar sobre a imprensa francesa ou na Europa em geral, mas nos Estados Unidos, ela se tornou muito politizada e a discussão sobre a Covid-19 também é muito politizada. Donald Trump é odiado por muitas pessoas nos Estados Unidos, e não acho que isso seja um segredo. Ele é visto como alguém que falhou na resposta ao coronavírus e obviamente os Estados Unidos poderiam e deveriam ter feito mais em fevereiro e no início de março. Mas Trump é visto como tendo fracassado. Além disso, acho que a imprensa se deu conta de que essa era uma maneira de atacá-lo. Ao mesmo tempo, o lugar mais atingido pela pandemia nos Estados Unidos foi a cidade de Nova York, a capital da mídia dos Estados Unidos e do mundo. Então, acredito que houve um nível genuíno de medo em março e abril. O problema é que ficamos sabendo mais nos últimos meses e a imprensa não atualizou sua atitude.

O que fez com que chegasse à conclusão de que o confinamento talvez não fosse tão eficaz como dizia a maioria dos especialistas?

Independentemente de se tomar medidas ou não, é muito difícil apontar qualquer ligação entre confinamento e máscaras, ou qualquer outra coisa e o resultado final da epidemia. É estranho. Não que a Covid-19 não seja real e que as pessoas não estejam morrendo, mas é uma situação estranha. Parece que não sabemos o que funciona, o que não funciona. Sabemos apenas que, em quase todos os países que têm sofrido muito com a Covid-19, as coisas ficam ruins por algumas semanas e depois o vírus enfraquece por conta própria. Não sabemos o porquê. Há muito que não sabemos sobre a epidemia, mas há coisas que sabemos em termos de quem fica doente, em relação ao custo do confinamento. Para mim, devemos concentrar-nos no que sabemos. Vou abordar mais esta questão na Parte 2. A Parte 1 do meu livro Unreported Truths é realmente somente uma introdução com foco na contagem de mortes e em como contamos e qual pode ser o pior caso. Mas eu diria que, em termos gerais, dado o mal que o confinamento faz, precisamos de muito mais provas do que as que temos para justificá-lo. Porque sabemos que ele faz mal.

Você diz que os dados indicam que o coronavírus somente representa uma ameaça grave à saúde de idosos ou pessoas com comorbidades. Mas a verdade é que isso inclui um grupo enorme de pessoas em âmbito mundial. De acordo com um estudo publicado pela revista médica britânica The Lancet Global Health, aproximadamente 350 milhões de pessoas do mundo todo podem sofrer uma forma grave da Covid-19. Esse estudo aponta que 1,7 bilhão de pessoas, ou seja, 22% da população mundial faz parte do grupo de pessoas mais suscetíveis a uma forma mais agressiva da doença. Então, não dá para ignorar que essa pandemia é realmente assustadora para uma grande parte das pessoas, não é mesmo?

O que vemos é que o vírus, para a maioria das pessoas, não é particularmente perigoso. O que importa é se a pessoa é extremamente idosa ou tem comorbidades ou é obesa, extremamente obesa, se tem diabetes. Se o paciente não estiver em boa forma física, pode ser bastante perigoso. E isso é mais importante do que a etnia ou se o vírus acontece em locais quentes ou frios. Os japoneses têm lidado muito bem com este vírus e tiveram pouco confinamento. As taxas de obesidade no Japão são baixas e, apesar de os homens japoneses fumarem bastante, é uma população bastante saudável. Este parece ser o principal fator que determina o impacto do vírus. Mas é verdade, muitas pessoas nos Estados Unidos têm diabetes ou são obesas. Na Europa o problema não é tão sério, mas está piorando. Não digo que o coronavírus não seja perigoso para um número significativo de pessoas. O que digo é que deveríamos nos concentrar em tentar proteger essas pessoas, não acabar com a sociedade, destruir a educação das crianças e fazer a economia despencar.

E você chegou a alguma conclusão quanto ao uso de máscaras como método de proteção contra a transmissão do coronavírus?

As máscaras são uma questão interessante. Penso que ainda não sabemos sobre sua eficácia. E, obviamente, há uma razão para os profissionais de saúde usarem máscara, há uma razão para um cirurgião usar máscara. As máscaras podem ser úteis em situações limitadas. É evidente que não são úteis ao ar livre, pois o vírus muito raramente se propaga ao ar livre. A minha observação sobre as máscaras é que elas também parecem ter-se tornado politizadas. São também um elemento de controle social. E, neste momento, temos de ser muito céticos em relação a tudo o que nos é vendido como "você precisa fazer isso para se proteger contra o vírus. Dentro das lojas onde se entra e se sai em poucos minutos, não há grandes provas para o uso de máscaras. Num ambiente de escritório em que se pode estar com as mesmas pessoas durante várias horas, se isso faz com que as pessoas se sintam melhor, talvez reduza marginalmente o risco. Mas temos de nos lembrar do fato de que este vírus em si não é assim tão perigoso para a maioria das pessoas em idade ativa profissionalmente. Portanto, a questão é a seguinte: se as máscaras reduzem marginalmente o risco, e há um risco marginal, vale a pena obrigar as pessoas a usá-las, tirando a autonomia das pessoas, enviando um sinal de que estamos num momento muito perigoso quando, para a maioria das pessoas, isso não é verdade? Essas são as perguntas que não são feitas.

A pandemia, além de causar centenas de milhares de mortes e mudar a vida das pessoas em âmbito global, também fez com que muitos leigos, sem formação médica, e inclusive políticos na liderança de países seriamente atingidos pela Covid-19, como os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, passassem a opinar e até recomendar certos tratamentos médicos para combater a doença. Uma das grandes polêmicas tem sido o uso da hidroxicloroquina (HCQ). Você tentou verificar a eficácia desse medicamento ao examinar os dados sobre pacientes infectados com o coronavírus?

Fiquei longe da HCQ. A minha mulher é médica psiquiatra e já tratou doentes com Covid-19, pois trabalha em uma enfermaria que recebe esses pacientes, embora agora sejam muito poucos. Mas, há um mês, havia mais. Do meu ponto de vista, o grande envolvimento de leigos na prática da medicina é perigoso. Isso é realmente algo entre o médico e o paciente. Mas nesta terça (16), tivemos boas notícias do Reino Unido, pois parece que um esteroide pode ser bastante eficaz na redução da mortalidade de doentes que estão em ventilador, que precisam de oxigênio. Mas devemos esperar que os médicos façam ensaios clínicos e deixar que façam o seu trabalho sem intromissões. 

A sua família está tomando precauções especiais para evitar a contaminação pelo coronavírus?

Não estamos fazendo nada em especial. Não usamos máscaras, a não ser que a gente vá ao supermercado. Tento levar os meus filhos para passear, seja para ir ao supermercado, onde for. Agora, em Nova York, para entrar nestes estabelecimentos é preciso usar uma máscara. O meu filho de 4 anos nunca usa uma máscara. A minha filha, que tem 7 anos, usa máscara e parece não se importar. Mas só usamos máscaras quando estamos legalmente obrigados a fazer isso ou para ficar em conformidade com as regras de uma loja. Tentamos marcar encontros entre nossos filhos e outras crianças para que possam brincar, mas, infelizmente, os pais dos amigos dos meus filhos têm mais medo do que nós. Mas tentamos manter a vida dos nossos filhos normal em todos os aspectos. Vemos as medidas de confinamento como uma reação extremamente exagerada.

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