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Trump "não é adequado para presidente", critica seu ex-assessor John Bolton

Livro do ex-assessor de Segurança Nacional John Bolton, a ser lançado na próxima semana, promete trazer à tona revelações bombásticas sobre o presidente Donald Trump, presenciados em seu período na Casa Branca.
Livro do ex-assessor de Segurança Nacional John Bolton, a ser lançado na próxima semana, promete trazer à tona revelações bombásticas sobre o presidente Donald Trump, presenciados em seu período na Casa Branca. AFP/Archivos
Texto por: RFI
7 min

Donald Trump é "inadequado para o cargo" de presidente, afirma seu ex-assessor de segurança nacional John Bolton em um trecho de uma entrevista divulgada nesta quinta-feira (18), causando um clima de expectativa ainda maior em torno do lançamento seu livro, que promete revelar informações explosivas recolhidas durante sua passagem pela Casa Branca, de abril de 2018 a setembro de 2019.

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“Eu não acho que ele seja apto para a função. Eu não acho que ele tenha as competências para exercer este cargo”, declarou John Bolton ao canal ABC, que deve divulgar a íntegra da entrevista neste fim de semana. "Eu realmente não conseguia identificar outro princípio norteador [em seu governo], do que 'o que poderia ser bom para a reeleição de Donald Trump'", continuou. "Ele estava tão concentrado em sua reeleição que considerações de longo prazo eram ignoradas".

John Bolton, 71, que acompanhou Donald Trump em sua primeira cúpula histórica com Kim Jong-un, disse que o presidente estava mais focado "na sessão de fotos" com o líder norte-coreano do que nas consequências da reunião em termos de diplomacia.

"John Bolton se desacreditou", reagiu na manhã desta quinta-feira o porta-voz do executivo americano, Kayleigh McEnany, à rede Fox News. "Este homem elogiou o presidente Trump por ser forte em sua política externa, por não cometer os mesmos erros das administrações anteriores", acrescentou.

O lançamento do livro de Bolton, intitulado "The Room Where It Happened, A White House Memoir" ("O quarto onde aconteceu, um livro de memórias da Casa Branca", em tradução livre) e que já teve diversos trechos vazados, é aguardado para a próxima terça-feira (23). A Casa Branca já lançou uma ação legal em regime de urgência para tentar impedir a publicação.

Uma ajudinha chinesa

O ex-assessor de segurança nacional de Donald Trump acusa o presidente de procurar ajuda chinesa para vencer a reeleição em novembro, de acordo com extratos reveladores de seu livro, o que provocou indignação dos democratas.

Alarmados com a maneira do presidente de lidar com as relações internacionais, o que chegou às vezes a situações de zombaria, alguns pesos pesados ​​do governo Trump, incluindo seu ministro das Relações Exteriores, Mike Pompeo, e o próprio John Bolton, consideraram renunciar aos seus cargos, de acordo com trechos antecipados pelo Washington Post.

Em um tuíter bombástico, Donald Trump acusa Bolton de "louco", afirmando que o livro seria apenas uma trama de "mentiras e histórias falsas". Bolton descreve as relações entre Donald Trump e os líderes estrangeiros como ainda mais embaraçosas por repercutirem o caso ucraniano, o que resultou no processo de pedido de impeachment de Trump.

Os democratas acusam Trump de ter pedido favores a Kiev, motivado por interesses pessoais: investigar o homem que agora é seu rival nas eleições presidenciais de 3 de novembro, Joe Biden. O livro de Bolton revela que "o presidente Trump vendeu os americanos para proteger seu futuro político", critica Biden.

"Se essas palavras forem comprovadas, não é apenas moralmente repugnante, mas é também uma violação do dever sagrado de Donald Trump para com os americanos", afirmou em comunicado o ex-vice-presidente, que integrou o governo de Barack Obama.  

Líder de vendas

Essas antecipações de trechos do livro pela imprensa acontecem no dia seguinte em que o governo Trump moveu uma ação para tentar bloquear a publicação, já catapultada para o topo das vendas no site da Amazon.

"Ele violou a lei" ao divulgar informações "altamente confidenciais", declarou o presidente americano na Fox News, debochando do passado de seu ex-conselheiro e de seu apoio à guerra americana no Iraque.

Em uma das passagens mais reveladoras do livro, Bolton conta que, aproveitando uma cúpula do G20 em Osaka, Donald Trump teria "desviado" a conversa com o presidente chinês Xi Jinping "para a próxima eleição presidencial", alegando que Xi deveria "garantir que ele ganhe", de acordo com trechos publicados pelo Wall Street Journal, New York Times e Washington Post.

Durante essa reunião, em junho de 2019, o presidente americano teria "enfatizado a importância dos agricultores e o aumento das compras chinesas de soja e trigo no resultado das eleições", escreveu em suas memórias o ex-conselheiro republicano.

Questionado sobre as revelações, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Zhao Lijian, afirmou nesta quinta-feira que Pequim "sempre respeitou o princípio de não interferência nos assuntos internos" de outros países. "Não pretendemos interferir nas políticas e nas eleições internas dos EUA, e não o faremos", acrescentou o porta-voz.

"Seus próprios interesses”

"As conversas de Trump com Xi refletem não apenas as inconsistências em sua política comercial, mas também a interconexão na mente de Trump entre seus próprios interesses políticos e o interesse nacional americano", revela Bolton. Essa conversa entre Donald Trump e "inúmeros outros" confirmou "um comportamento fundamentalmente inaceitável que corrói a própria legitimidade da presidência", ele denuncia.

"Por que ele elogiou repetidamente o governo chinês e o presidente Xi mesmo enquanto o coronavírus estava se espalhando? Porque ele queria poder falar sobre um acordo comercial com a China durante sua campanha de reeleição", ressalta um Joe Biden indignado.

John Bolton também evoca o processo de destituição iniciado no Congresso dos EUA pelos democratas contra Donald Trump no final de 2019: se eles "não estivessem tão obcecados" pelo caso ucraniano e tivessem levado mais em conta sua política externa, o resultado "poderia ter sido muito diferente".

Ele, no entanto, se recusou a testemunhar na Câmara dos Deputados, de maioria democrata. Mas trechos iniciais de suas memórias eclodiram no julgamento de impeachment em janeiro. O presidente americano foi absolvido pelo Senado, com maioria republicana.

Campos de concentração

Enquanto influentes senadores republicanos denunciam incansavelmente a China, Bolton escreve que, ainda em Osaka, em 2019: "Na presença apenas dos intérpretes, Xi havia explicado a Trump por que, em geral, ele estava construindo campos de concentração em Xinjiang. De acordo com o intérprete, Trump disse que Xi deveria continuar a construir esses campos, o que ele acreditava ser a coisa certa a fazer".

De acordo com o Washington Post, John Bolton expressou preocupação ao ministro da Justiça Bill Barr "sobre a disposição de Trump de prestar serviços aos autocratas, incluindo" o presidente turco Recep Tayyip Erdogan. Funcionários do governo Trump hesitaram, de acordo com o ex-conselheiro, entre profunda preocupação e deboche. Em um bilhete passado a John Bolton durante o histórico encontro entre Donald Trump e o líder norte-coreano Kim Jong-Un, em 2018, conta-se que Mike Pompeo teria escrito: "Ele só fala besteira".

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