Pandemia pode gerar décadas de atraso na escolaridade de meninas na América Latina, adverte ONG

O governo da Guatemala fechou as escolas em 16 de março e impôs o ensino à distância por causa da pandemia, mas milhares de famílias não possuem sequer uma conexão internet em casa.
O governo da Guatemala fechou as escolas em 16 de março e impôs o ensino à distância por causa da pandemia, mas milhares de famílias não possuem sequer uma conexão internet em casa. © Flickr/Maria Fleischmann/World Bank Photo Collection

A crise causada pela pandemia de Covid-19 pode retardar o progresso na educação de meninas na América Latina e no Caribe por várias décadas, alertou a organização humanitária Plan International nesta quinta-feira (25). A quarentena decretada pelos governos de alguns países, como medida preventiva para impedir a expansão do novo coronavírus, "deixou 95% dos estudantes afastados dos serviços educacionais", diz um comunicado da ONG.

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As desigualdades de gênero tendem a se aprofundar na América Latina com a pandemia. Muitos pais perderam o emprego devido à crise econômica que se instalou paralelamente à crise sanitária, dificultando o pagamento dos estudos para meninas. "Estima-se que a diferença de gênero em termos de acesso à educação deve aumentar, provocando um retrocesso de décadas e deixando para trás as conquistas já realizadas", alertou a brasileira Janaina Hirata, especialista regional em Educação de Emergência da Plan International.

A América Latina tem mais de 100 mil mortes atribuídas à Covid-19 e 2,2 milhões de pessoas infectadas. As desigualdades sociais contribuem para esse quadro, além das políticas populistas. O mais inquietante é que o pico da epidemia ainda não foi atingido na região, alertou a Organização Mundial da Saúde. Brasil, México, Peru e Chile são os países latino-americanos mais afetados, enquanto na América Central há uma "transmissão generalizada" do vírus, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde.

De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a recessão será mais aguda do que a estimada em abril, com uma contração do PIB regional de 9,4%, contra 4,2% previstos anteriormente. "As famílias viram sua renda diminuir, portanto, pais e mães não poderão pagar os custos dos estudos dos filhos ou deixarão as filhas sob os cuidados da casa e da família, fazendo as tarefas domésticas enquanto saem para trabalhar", disse Hirata.

Os governos latino-americanos devem tomar medidas "urgentes" para garantir que as meninas "voltem para a escola", acrescentou Hirata em comunicado divulgado pelo escritório da Plan International no Panamá. A ONG também teme que haja um aumento de gravidez na adolescência, violência sexual, casamento e união de menores durante a quarentena, dramas que podem ser exacerbados se as meninas deixarem de ir à escola.

A falta de acesso à educação "causará décadas de atraso às meninas e representará um risco para várias gerações", insiste a ONG. Uma criança que não estuda "tem menos oportunidades e isso pode afetar as próximas gerações", indicou a Plan International.

Com informações da AFP

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