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Brasil-América Latina

“O Brasil vai virar uma Venezuela?”: Imigrantes venezuelanos no Brasil respondem

Áudio 03:57
A RFI Brasil conversou com alguns dos mais das 264 mil venezuelanos que foram parar, por diversos motivos, no país do samba e do futebol para saber se a comparação faz jus à realidade.
A RFI Brasil conversou com alguns dos mais das 264 mil venezuelanos que foram parar, por diversos motivos, no país do samba e do futebol para saber se a comparação faz jus à realidade. © Fotomontagem RFI
Por: Elianah Jorge

“O Brasil vai virar uma Venezuela”. A frase se tornou corriqueira em conversas acaloradas e em postagens nas redes sociais. Comparar um país ao outro virou praticamente um bordão na boca dos brasileiros. O tom até pode ser jocoso, mas faz referência ao caos vivido por cerca de 22 milhões de pessoas que enfrentam o empobrecimento da nação que já foi uma das mais prósperas da América do Sul.

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Para saber se a comparação faz jus à realidade, a RFI Brasil conversou com alguns dos mais das 264 mil venezuelanos que foram parar, por diversos motivos, no país do samba e do futebol.

O economista e gestor cultural Luis Volcanes nasceu em Mérida, região dos Andes venezuelanos. Por anos morou em Caracas. Apaixonado pela cultura brasileira, aprendeu português e chegou a cantar com Teresa Cristina, em 2013, e com Beth Carvalho, em 2014, no icônico Teatro Teresa Carreño, na capital venezuelana. Para ele, não é possível comparar os dois países:

“Se um brasileiro que nunca foi ou morou, e só ouve as notícias aqui, pisar na Venezuela, só de chegar no aeroporto e perceber como o aeroporto está, eu acho que aí muda (a percepção)...”  

Volcanes conta que “apesar dos problemas que tem, o Brasil é um paraíso”. 

A complexidade cotidiana de quem mora na Venezuela escapa até mesmo à mente criativa de um escritor de suspense. A vida no país é uma constante surpresa, onde a ação mais básica é transformada em uma equação.

Não à toa os índices de pessoas com depressão e os de casos de suicídio dispararam.  

“É um paraíso ter luz em casa. É um paraíso você poder tomar um banho a qualquer hora. (Aqui) não tem hora (determinada) para tomar um banho. É um paraíso poder entrar em uma loja, uma drogaria, um supermercado e você ficar parado na frente da prateleira de arroz e ficar pensando em qual (marca) de arroz pode comprar”, detalha o gestor cultural.

Desde 2018 no Brasil, ele ainda não se acostumou com a abundância de marcas e produtos disponíveis no comércio. Luis sempre leva uma lista para manter o foco entre tantas opções de compra.

As lembranças do período da escassez na Venezuela ainda permeiam a memória de Volcanes:

“Eu ainda não superei entrar no supermercado e ver tanta coisa. Para mim é como (ver) obras de arte! Arroz, carne, queijos, biscoitos, leite...”

Ver tantas cores, produtos, cheiros e opções o deixou encantado. A experiência beira o cômico se não fosse trágico:

“Eu lembro que da primeira vez que fui ao supermercado, quando cheguei aqui, que já não tinha que pensar (na logística das compras), eu entrei e saí sem nada. Falei: 'o que eu fiz? Eu entrei para um museu'. Eu achava que o mercado era um museu: só para ver, para olhar as coisas”.   

Os anos entre 2013 e 2018 ficaram marcados na história venezuelana como o período de escassez. Na época, para comprar apenas um quilo de arroz era preciso madrugar na fila sem a garantia de conseguir adquirir o produto.

A flexibilização econômica aplicada pelo governo de Nicolás Maduro em meados de 2019 terminou com o problema. No entanto, por causa da inflação, para os venezuelanos das classes D e E continua sendo impossível ter uma alimentação equilibrada.

Agora os supermercados do país estão abastecidos com produtos importados pelos próprios comerciantes. Os preços de 27 insumos são tabelados pelo Estado, no entanto o valor varia diariamente já que são pautados pela cotação do dólar informada pelo Banco Central da Venezuela.

Em breve abrirá no país uma rede de supermercados Megasis, com produtos importados do Irã – o principal sócio comercial da Venezuela.   

Divisão de poderes

Da cidade natal Caracas para a Bahia: esse foi o destino da matemática Cristina Lizana Araneda. Quando ela ouve que o Brasil está virando a Venezuela, esta professora da Universidade Federal da Bahia destaca algumas diferenças entre ambos os países:

A professora de matemática Cristina Lizana Araneda.
A professora de matemática Cristina Lizana Araneda. © Arquivo Pessoal

“Uma das maiores questões é a separação de Poderes. No Brasil, felizmente, ainda tem essa independência. O Supremo Tribunal de Justiça, os ministros, o Congresso, a Câmara dos Deputados têm autonomia. Isso não acontece na Venezuela. Lá a única instituição que foi eleita pela vontade popular foi a Assembleia Nacional”.

O parâmetro usado por Cristina tem a ver com a reviravolta que aconteceu na vida política venezuelana depois da eleição de 2017.

Após anos liderado pelo Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), o Parlamento venezuelano passou a ser comandado pela maioria opositora. O chavismo não gostou. Criou então a super poderosa Assembleia Nacional Constituinte sob a justificativa de reescrever a Constituição estabelecida pelo ex-presidente Hugo Chávez (1999-2013). A ANC também está autorizada a governar as demais instituições estatais.

Até o momento não há informações sobre o andamento da nova Carta Magna.

O mandato do Parlamento, eleito em 2017, chega ao fim em dezembro deste ano. Há poucas semanas, o Supremo Tribunal de Justiça (TSJ) nomeou os novos reitores do Conselho Nacional Eleitoral sem consultar os parlamentares, sob a justificativa de que a casa está em desacato.   

O TSJ também vem mexendo na organização dos partidos políticos. Além disso, alguns parlamentares opositores já foram presos, outros foram inabilitados politicamente e há os que preferiram fugir do país para escapar da perseguição política.

Liberdade de informação

As estruturas democráticas do Brasil em nada se parecem com as da Venezuela, sobretudo em relação ao acesso à informação, na opinião de Paula Ramón. Esta jornalista conhece bem os contornos da política venezuelana. Por quase oito ela cobriu para o “Últimas Notícias” (quando o jornal ainda era o de maior tiragem na Venezuela), o Congresso, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e os partidos em geral.

Entre idas e vindas, ela está desde 2012 em São Paulo, de onde reporta, através de uma agência de notícias, o que acontece no Brasil.   

Dos tempos de cobertura em Caracas, ela lembra “que as instituições venezuelanas sucumbiram muito rápido ao chavismo”. Pedir algum tipo de informação ou uma entrevista através das assessorias de imprensa (estatais) ou falar com um porta-voz (de algum organismo do governo), “eu não lembro de ter conseguido alguma coisa assim na Venezuela”.

A jornalista Paula Ramón
A jornalista Paula Ramón © Arquivo Pessoal

Ela explica como conseguia para ter contato com as fontes e a alguns dados do chavismo:

“(Na Venezuela) você tinha acesso a ministros e a políticos porque você ia e procurava eles. De tanto insistir, você conseguia coisas e aí ia conseguindo o acesso. Mas nos canais oficiais, isso deixou de existir muito rápido. No Brasil, você vê uma diferença clara. Você ainda tem acesso à informação, e é importante que isso se mantenha”.

No sistema venezuelano faltam dados oficiais. O Banco Central da Venezuela ficou anos sem anunciar os números da inflação que assola o país. Há poucas semanas o organismo publicou, sem alarde em sua página de internet, que a inflação foi de quase 300% durante o primeiro semestre do ano. No entanto, o deputado opositor Juan Guaidó denunciou nas redes sociais que até abril deste ano a inflação foi de 341,61%.

Até mesmo os números de casos positivos da Covid-19, diariamente divulgados por autoridades do governo de Maduro, foram questionadas pela organização Human Right Watch. A ONG internacional afirma que o número de infectados pode ser bastante superior ao que vem sendo informado.      

No Brasil, em junho deste ano, o Ministério da Saúde começou a limitar informações sobre os casos do novo coronavírus. A opacidade de dados motivou algumas empresas de jornalismo a criar um consoórcio de imprensa para, de maneira colaborativa, buscar informações diretamente nos 26 estados e no Distrito Federal, visando noticiar à população com números atualizados.

O Brasil passa por uma efervescência política que leva um considerável número de pessoas às ruas de diversas capitais do país que se manifestam semanalmente contra ou a favor ao governo de Jair Bolsonaro. Muitas vezes na linha de frente, reportando o que acontece, estão jornalistas e fotógrafos. Deixaram de ser raras as agressões aos profissionais de imprensa.

“No Brasil nunca sofri agressão física, mas já vivi um episódio de tensão na rua, que mostrava um ponto de raiva, que me deixou surpreendida”, conta Paula.

De acordo com organização Repórteres sem Fronteiras, o Brasil ocupa a posição 107; e a Venezuela o número 147 na classificação mundial 2020 da liberdade de imprensa.

“Eu vejo o futuro repetir o passado”

A polarização política que, sobretudo durante a Era Chávez, se estendeu a toda a sociedade venezuelana - gerando inclusive a ruptura de relações familiares - apareceu no Brasil no final do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff (2011-2016). 

Para uma sociedade ser considerada saudável é adequado que exista respeito às diferenças. Neste ponto Paula identifica semelhanças entre a polarização política que surgiu na Venezuela com a figura de Hugo Chávez e o que vem acontecendo com o Brasil:  

“Esse tema da polarização, do outro como o inimigo que não pode existir, na Venezuela era contra a oposição. O Chávez falava “não voltarão”. Esse ódio de que você tem que extirpar o outro da vida política e social do país. A mesma coisa (acontece) aqui, os seguidores do presidente Jair Bolsonaro falam para aniquilar a esquerda”.

Gesler Paul mora desde 2017 no interior de São Paulo. Por anos trabalhou como locutor nas principais rádios da Venezuela. Ele coincorda com Paula sobre a aceitação do brasileiro escutar posições contrárias à vertente política que defende:

“Uma das situações mais comuns hoje no Brasil é a extrema polarização política que existe. Se você critica Bolsonaro, você é comunista e te mandam morar na Venezuela. Se você diz algo mais ou menos bom sobre Bolsonaro, você é fascista, racista e até te chamam de nazista. É uma situação que conhecemos muito bem na Venezuela com os "chavistas" e "esquálidos" (opositores) durante tantos anos, e que foi um dos piores erros dos venezuelanos de ambos os lados: apoiar o presidente sem nenhuma capacidade crítica ou criticando-o e apoiando aquele que é contra ele sem pensar ou apoiar a existência de outras vias”.

Em um país com um histórico recente de ditadura militar (1964-1985), pode ser complexo compreender a suposta liberdade pregada por alguns brasileiros, aponta o locutor:

 “É difícil entender qual é o conceito de democracia dessas pessoas, tanto de um lado como do outro. Isso é muito parecido (com a Venezuela). Você quer extirpar o outro da vida política e social."

Gesler Paul faz um alerta sobre o uso do parâmetro venezuelano para efeitos de comparação:    

“A Venezuela se tornou um curinga para se referir à destruição sistemática de um país. Não apenas no Brasil, buscam comparar o pior resultado possível de um país com a situação venezuelana. E é indignante, não apenas por você poder se sentir mal que te comparem sempre com o pior do pior, mas também pela falta de conhecimento do que realmente é ter vivido tudo isso na Venezuela”.

Cristina Araneda sugere que o brasileiro tenha mais sensibilidade ao se referir à situação de um país do qual praticamente cerca de cinco milhões de pessoas se viram obrigadas a fugir: “É até indelicado dizer para um venezuelano que o Brasil virou uma Venezuela!”

 

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