Acessar o conteúdo principal
Linha Direta

Batalha do voto pelo correio pode afetar 200 milhões de eleitores nos EUA

Áudio 06:48
A ex-primeira-dama Michelle Obama encerrou o primeiro dia da convenção democrata em formato virtual, instalada em Milwaukee, Wisconsin, um estado chave que Trump venceu de maneira surpreendente em 2016.
A ex-primeira-dama Michelle Obama encerrou o primeiro dia da convenção democrata em formato virtual, instalada em Milwaukee, Wisconsin, um estado chave que Trump venceu de maneira surpreendente em 2016. Chris Delmas / AFP
Por: Ligia Hougland
13 min

O correio americano está no centro da disputa eleitoral pela Casa Branca em 3 de novembro. Enquanto a instituição atravessa uma crise financeira e operacional, democratas e republicanos acusam uns aos outros de quererem usar o serviço postal para roubar votos. 

Publicidade

Da correspondente da RFI em Washington

O serviço de correio dos Estados Unidos (USPS) era, até agora, uma das raras instituições sólidas e apartidárias, fundada há mais de 200 anos. Mas não é de surpreender que, em tempos de Donald Trump na Casa Branca, até o velho e tradicional correio seja utilizado na batalha eleitoral entre republicanos e democratas.

O serviço postal americano está em crise há cerca de uma década, não só por ineficiência, como também por perda de receita. Em junho, Louis DeJoy, nomeado por Trump e aprovado pela diretoria da instituição, conforme dita o protocolo, assumiu o cargo de diretor-geral do USPS. Essa escolha quebrou uma tradição: DeJoy não fazia parte dos quadros da instituição, como é de costume, mas tinha experiência em logística, pois foi o principal executivo da XPO Logistics, que é concorrente do correio americano. Além disso, desde 2016, ele já contribuiu com US$ 1,2 milhão para a campanha de Trump e US$ 1,5 milhão para o Partido Republicano.

Entre as medidas propostas pelo novo diretor-geral para resolver a crise financeira do correio está a suspensão do pagamento de horas extras aos carteiros, o que significa que esses servidores postais, com frequência, não poderão terminar sua rota e, portanto, muitas pessoas poderão ficar sem receber sua correspondência por um longo período de tempo. Essa proposição foi imediatamente contestada pelos democratas, principalmente pela presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, arquirrival de Trump, e pelo candidato da oposição, Joe Biden.

Pelosi alega que essa é uma manobra de Trump, acertada com o novo diretor-geral do USPS, para impedir que eleitores de zonas com maior eleitorado democrata possam votar, manipulando, assim, o resultado das eleições. Além disso, a líder democrata determinou que a Câmara deve votar no próximo sábado (22) um projeto de lei que concede US$ 25 bilhões ao correio. Trump é contra esse projeto de lei.

A primeira pessoa a alegar que o presidente americano planejava usar o serviço de correio para influenciar o resultado das eleições foi Joe Biden, o candidato democrata à Casa Branca, em junho. O próprio Trump deu força à alegação quando disse, durante uma entrevista na semana passada, que queria segurar fundos para o serviço postal, pois os democratas queriam "bilhões de dólares para roubar as eleições por meio de votos fraudulentos enviados pelo correio".

O USPS de fato precisa passar por uma reforma, pois já é esperado que se torne inadimplente em 2021. Mas não parece ser uma boa ideia implementar cortes de despesas tão perto das eleições, especialmente porque, devido à pandemia da Covid-19, cerca de 75% dos americanos estão qualificados para receber uma cédula em casa. Isso significa que mais de 200 milhões de votos podem ser encaminhados por correspondência nas eleições presidenciais deste ano.

Histórico de atrasos e correspondências extraviadas

O correio americano é famoso por sua incompetência. É comum correspondências serem extraviadas ou jamais serem entregues. Mas há algumas teorias com tom de conspiração sendo promovidas pelos democratas nas redes sociais, que afirmam que Trump ordenou que centenas de caixas de correio fossem bloqueadas ou removidas das ruas de grandes cidades. Não há prova de que isso seja verdade. Há vários anos, a empresa coloca cadeados em algumas caixas de correio para evitar furtos de correspondência, assim como é comum que esses equipamentos sejam removidos ou substituídos.

O USPS está em crise financeira há vários anos, mas desde a década de 1970 foi declarado independente para obtenção de fundos do governo federal e deve ser autossustentável. Agora, tanto republicanos quanto democratas estão usando a instituição para fomentar uma disputa política. Um efeito especialmente prejudicial desta briga é que já é praticamente certo que a legitimidade da eleição presidencial americana deste ano vai ser disputada, independentemente de quem tiver mais votos ou colégios eleitorais.

Michelle Obama: Trump é o presidente equivocado para o país

Na noite dessa segunda-feira (17), foi inaugurada a Convenção Nacional do Partido Democrata para lançar oficialmente a candidatura de Biden e sua vice-presidente, Kamala Harris. Trump, é claro, não deixou os holofotes se concentrarem apenas nos democratas e, por isso, fez discursos de campanha em frente ao seu avião presidencial ao pousar em dois estados que podem decidir quem será o próximo presidente americano, Minnesota e Wisconsin. O presidente atacou os democratas e disse que Biden era um Cavalo de Troia para a ala da esquerda radical do partido.

Trump, de fato, sabe se comunicar com seus eleitores e o entusiasmo com que sua base responde a ele continua grande. Em contrapartida, Biden ainda não conseguiu entusiasmar os eleitores democratas. Apesar de o vice-presidente de Barack Obama estar na liderança, de acordo com as pesquisas, o que motiva os eleitores democratas é poder tirar Trump da Casa Branca, e não particularmente Biden. Segundo uma nova pesquisa da CNN, Trump avançou cerca de 10 pontos, e a vantagem do candidato democrata sobre ele está diminuindo.

A grande estrela da convenção democrata na noite de segunda-feira foi Michelle Obama. Mas o pronunciamento dela foi pré-gravado, prejudicando bastante a capacidade de empolgar que a ex-primeira dama teve nas convenções de 2012 e 2016. Michelle afirmou que Trump é o "presidente equivocado" para o país. "Sempre que olhamos para esta Casa Branca em busca de liderança, conforto ou alguma aparência de estabilidade, o que obtemos é caos, divisão e uma total e absoluta falta de empatia", disse a ex-primeira-dama, em uma crítica sem precedentes a um presidente no cargo. "Trump é o presidente errado para nosso país", enfatizou na mensagem por vídeo.

A pouco mais de dois meses das eleições presidenciais americanas, ninguém está perto de ter uma vitória garantida.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Página não encontrada

O conteúdo ao qual você tenta acessar não existe ou não está mais disponível.