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Bolsonaro fez aproximação “amadora" com os EUA e terá de "reconstruir relação” se Biden vencer

Áudio 07:02
Carlos Gustavo Poggio, especialista em política externa norte-americana da FAAP de São Paulo.
Carlos Gustavo Poggio, especialista em política externa norte-americana da FAAP de São Paulo. © Arquivo pessoal/ RFI
Por: Lúcia Müzell
12 min

As eleições nos Estados Unidos se aproximam e o candidato democrata, Joe Biden, aparece bem posicionado nas pesquisas para vencer o presidente norte-americano, Donald Trump. O que uma eventual vitória do opositor mudaria para as relações do país com o Brasil?

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Para o professor de Relações Internacionais Carlos Gustavo Poggio, especialista em política externa norte-americana da FAAP de São Paulo, se o democrata vencer Brasília terá de "reconstruir" o diálogo com Washington – já que a aproximação promovida pelo governo de Jair Bolsonaro se limitou ao bom contato com Trump.

"O governo brasileiro escolheu uma forma bastante amadora para se aproximar dos Estados Unidos. Se você conhece como funciona o sistema político norte-americano, sabe que não há como avançar em temas importantes de política externa com os norte-americanos sem construir uma relação com o Congresso [dos EUA].”

O analista lembra que o filho do presidente, deputado federal Eduardo Bolsonaro, preside a Comissão de Relações Exteriores da Câmara e é um declarado apoiador de Trump, chegando a vestir o boné da campanha do magnata. "É claro que isso cria um mal-estar com os democratas. Congressistas democratas já se manifestaram diversas vezes contrários ao governo brasileiro”, frisa Poggio.

O resultado é que, pela primeira vez, uma chapa candidata à presidência dos Estados Unidos é crítica do governo brasileiro: tanto Biden quanto sua candidata a vice, Kamala Harris, já fizeram declarações contrárias a Bolsonaro.

"O governo brasileiro, se ainda tiver interesse em se aproximar com os Estados Unidos, e não só com Trump, terá de reconstruir as pontes com os democratas do zero, numa eventual vitória de Biden. Vai ser muito mais difícil fazer essa aproximação porque já vamos contar com a má vontade dos democratas”, observa o especialista.

Isolamento ainda maior

Para Poggio, a estratégia do governo brasileiro não gerou benefícios concretos ao país e ainda se mostrou arriscada. O alinhamento com o atual presidente norte-americano custou a Brasília a indisposição com outros países, entre eles antigos parceiros importantes do Brasil. Se Trump não se mantiver na Casa Branca, o isolamento internacional de Bolsonaro tende a crescer.

"O governo brasileiro achou que era muito bom ser amigo do Trump e poderia xingar a mulher do Macron, na França, brigar com a Angela Merkel, nem telefonar para o novo presidente da Argentina, ou seja, se isolar, por uma escolha própria do Brasil. Chegou inclusive a brigar com a China, o nosso maior parceiro comercial”, destaca o professor de Relações Internacionais.

No caso chinês, a pressão de empresários e exportadores brasileiros fez o governo voltar atrás e ter uma relação mais pragmática com Pequim, em nome dos negócios. Poggio avalia que, se Biden vencer, a política externa brasileira poderá seguir por essa linha, e tentar reconstruir pontes quebradas durante os primeiros dois anos de gestão Bolsonaro. "Talvez o governo seja obrigado a ser mais pragmático e menos ideológico”, resume.

Influência no Brasil

O professor sublinha que, sob o ponto de vista econômico, a proximidade com Donald Trump não gerou os benefícios que Brasília esperava. Houve até algumas "puxadas de tapete” do próprio Trump, de personalidade instável. A mais recente envolve o preço do etanol, contra o qual o líder norte-americano ameaçou aplicar retaliações ao Brasil.

Para firmar acordos definitivos com os Estados Unidos, destaca Poggio, não basta um bom relacionamento com o presidente – é preciso que o texto seja aprovado pelo Congresso norte-americano. O especialista cita o exemplo de Cuba: apesar de Barack Obama ter retomado as relações diplomáticas com Havana, não conseguiu o fim do embargo à ilha, uma decisão que depende dos parlamentares.

Poggio considera ainda prematuro supor que uma eventual derrota de Trump possa influenciar nas eleições presidenciais do Brasil, em 2022. Há quatro anos, a ascensão do magnata à Casa Branca lançou uma série de populistas ao poder no resto do mundo, como no Brasil.

"Tanto a esquerda quanto a direita no Brasil são praticamente copiadas dos Estados Unidos: o linguajar, o vocabulário, as pautas. É tudo copiado dos Estados Unidos. Nesse sentido, uma derrota tende a ter um impacto também”, observa. “Mas ainda que Trump perca as eleições, as causas objetivas e estruturais que o levaram ao poder vão permanecer. Trump não é presidente à toa, não é um acidente histórico. O trumpismo permanece, embora o trumpismo sem Trump seja muito mais fraco”, avalia o professor.

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